The New York Times

O Festival Fringe de Edimburgo foi longe demais?

Por: The New York Times
05/09/2017 - 14h45min | Atualizada em 05/09/2017 - 14h45min

Edimburgo, Escócia — Uma vez por ano, as ruas medievais da capital escocesa hospedam um milhão de pessoas a mais, triplicando a população da cidade por quase um mês durante o Festival Fringe de Edimburgo, que costumava ser conhecido como o maior festival de teatro de língua inglesa no mundo.

Agora, em sua edição de 70 anos, o evento se tornou o maior festival de artes do mundo, superado em número de público, dizem seus organizadores, apenas pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas.

O Fringe começou em 1947 como um protesto contra o Edinburgh International Festival, subsidiado pelo Estado e considerado muito intelectual, quando oito artistas que foram recusados nas apresentações resolveram fazer seu próprio evento. Muitos dizem que o festival permaneceu fiel às suas raízes contra o sistema. O tema deste ano, por exemplo, é a "Arte como um ato de rebeldia".

Mas outros acreditam que ele se tornou grande e caro demais — e mesmo engraçado demais, com muitas comédias, apesar de ter suas origens no teatro sério e frequentemente amador. O festival possui uma abundância de patrocinadores, incluindo uma empresa de serviços financeiros, uma cervejaria e uma companhia de ônibus, e muitos dos locais de apresentação lucram consideravelmente com a venda de ingressos e taxas de locação.

Os moradores lidam tranquilamente com a atmosfera carnavalesca; tanto o Fringe quanto os festivais financiados pelo Estado obtém 89 por cento da aprovação local. Para muitos habitantes de Edimburgo, o Fringe é uma bonança para o Airbnb, já que os quartos nos hotéis não são suficientes para os visitantes. Policiais vêm de toda a Escócia, e os engarrafamentos tornam-se comuns na Royal Mile, típica rua de pedestres e principal via da Cidade Velha.

Alguns moradores se preocupam com o fato de o festival estar se tornando um museu ao ar livre, paralisado por turistas. "Há um debate para saber se é um evento grande demais e se a cidade pode realmente sustentá-lo", diz Donald Wilson, responsável pela cultura na Câmara Municipal.

Durante o festival, em um dado momento, uma multidão de pessoas usando fones de ouvido e dançando em uma discoteca silenciosa podia ser vista debaixo das muralhas do Castelo de Edimburgo, no distrito de Grassmarket, pavimentado há alguns séculos. Em um momento seguinte, cerca de vinte mulheres, filhas de prostitutas, marcharam pelo local para promover sua peça daquela noite sobre tráfico humano, "Lal Batti Express" (Expresso da Luz Vermelha).

Entre os dias quatro e 28 de agosto, o festival teve 53 mil performances de 3,3 mil peças, encenadas por companhias de 62 países diferentes. Isso sem contar as centenas de artistas de rua e as performances não registradas, mas que são estimulados pela vibração favorável na cidade.

Cerca de 300 locais exibiram as apresentações, desde salas de concerto e escolas públicas até tendas e banheiros. (Pelo menos duas produções foram realizadas em toaletes este ano). Muitos dos locais têm apresentações desde a manhã até bem depois da meia-noite, assim como mais de uma dezena de shows por dia.

Como no primeiro Fringe, em 1947, no evento deste ano não houve curadoria, oferecendo acesso aberto para qualquer produtor que tivesse ideias e conseguisse espaço em algum local para se apresentar. No ano passado, foram vendidos 2,5 milhões de ingressos.

Neste ano, houve pelo menos três peças sobre o presidente americano: "Trump'd", um musical; "Trumpageddon," uma comédia; e "Trumpus Interruptus", uma peça sobre o impeachment de Trump. Todas tiveram seus ingressos esgotados.

No extremo oposto do espectro, Jackie Walker, política negra do Partido Trabalhista britânico, apresentou um monólogo chamado "O linchamento", para dar a sua versão sobre seus comentários supostamente antissemitas, que custaram seu trabalho na política. Sua performance não teve os ingressos esgotados.

Oficialmente, cerca de um terço dos espetáculos do festival são comédias e muitos dos outros gêneros também são dominados pelo teor cômico. Provavelmente mais da metade de todas as apresentações se inserem de alguma maneira nesta categoria. Apenas 28 por cento das produções estão classificados como peças de teatro e muitas delas são comédias.

Comédia é o que vende melhor, explica o produtor e acadêmico Richard Demarco, de 87 anos, que assistiu a cada um dos 70 festivais de Edimburgo – o Fringe assim como o festival oficial – e também afirma ter produzido três mil espetáculos para ambos.

"Tudo hoje tem a ver com a temida palavra 'espetáculo'. Não deveria ser cultura de massa. Você não lê Robert Frost ou ouve Aaron Copland para se divertir, mas para ter uma breve compreensão do mistério de estar vivo¿, explica.

Shona McCarthy, diretora executiva do grupo que organiza o Fringe, diz que há muita comédia no festival, mas "há também uma incrível variedade de trabalhos novos e poderosos, dramas sérios, peças sérias e talentos extraordinários a serem descobertos".

A peça de Tom Stoppard, "Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos" estreou no Fringe em 1966, com um grupo de estudantes da Universidade de Oxford, quando os locais de exibição eram instalações comunitárias que cobravam pouco ou nada para as apresentações. O público somava supostamente sete pessoas, mas uma delas era um crítico, e o resto é literalmente história.

Atualmente seria difícil encontrar uma oportunidade dessas para uma peça de três atos. Os locais de exibição cobram preços altos e empilham o máximo de eventos possível em um único dia, principalmente em intervalos de uma hora. Ainda assim, 1,2 mil olheiros e agentes registrados participam do festival.

O comediante Joe Sutherland, 28 anos, fez seu primeiro solo de stand-up aqui neste ano, mas frequenta o festival desde a infância, quando seu pai permitia que ele fosse às comédias que passavam mais tarde, só para adultos. "Foi a primeira vez que testemunhei os adultos agirem como não-adultos e serem recompensados por isso", conta. Esta é a razão pela qual ele se tornou comediante.

Muito do espírito rebelde que Sutherland se lembra dos festivais anteriores agora fica de fora do Fringe, apesar de haver um movimento interno no festival – o Free Fringe, que permite que os artistas façam shows para receber doações – que compensa um pouco a mudança.

"Isto é o que mais se aproxima do que minha memória recorda sobre o espírito do Fringe, assistíamos a performances em despensas ou em banheiros de deficientes e tudo parecia tosco, mas maduro", afirma. Chamada muitas vezes de a ¿franja do Fringe¿, a iniciativa agora inclui 500 apresentações em 50 palcos gratuitos.

Como o Fringe cresce a cada ano, muitos acreditam que ele caminha para o limite da capacidade de hospedagem na cidade. O produtor Demarco diz que existem muitos shows onde os artistas e seus ajudantes superam as audiências – e, às vezes, há até o temido fenômeno de a cortina ser erguida em uma casa de shows sem qualquer plateia.

"Já estamos na edição número 70. Talvez seja o momento de suspender o evento e repensar", acredita Demarco.

Por Rod Nordland

 
 
 
 
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