
A instrução "Ma non me vai no fundo!" funciona como uma espécie de bordão dos veranistas da Serra em Arroio do Sal, Curumim e Areias Brancas, tradicionais redutos gringos no Litoral Norte. Logicamente, não poderia faltar no vídeo Coisas que a Serra Fala no Litoral, o terceiro da série produzida por um grupo de cinco amigos de Farroupilha.
Estreladas pelo casal Natália e Expedito Copelli, ambos de 66 anos e os mesmos protagonistas do Coisas que a Serra Fala, de junho de 2012, e Coisas que a Serra Fala 2, de agosto, as imagens postadas no Youtube em 5 de fevereiro receberam pelo menos 296 mil visualizações até o final da tarde de ontem.
A produção caseira e sem patrocínio seguiu os moldes dos vídeos anteriores, realizados com a ideia de homenagear os descendentes de imigrantes italianos da Serra, que trazem no sotaque e nas expressões típicas suas marcas registradas.
No domingo da gravação, 13 de janeiro, os produtores de Farroupilha foram recebidos na casa dos Copelli em Arroio do Sal - onde veraneiam desde 1986 - pelo casal, a parentada e... um churrasco. A casa da praia - assim como a do bairro Medianeira, em Farroupilha, nos dois primeiros vídeos - serviu de locação. Tudo começou às 5h, com dona Natália apressando o marido para sair logo porque "a praia é longe".
Nos dois minutos e 53 segundos da produção, o que se vê é um festival de expressões que todo veranista de "Curassal" (junção de Curumim e Arroio do Sal) já ouviu na beira da praia, como "vamo andar de dindinho", "te cuida que o mormaço também queima" e "porco dio, quanta roseta!", entre outras.
- A gente ficou uns 20, 30 dias fazendo o roteiro depois que o Vinni (Biazus, 29 anos, um dos roteiristas) nos questionou por que não fazíamos uma versão da praia. Abrimos um arquivo no Google Docs e cada um ia colocando suas ideias. É incrível como tudo gira em torno de comida - diverte-se o projetista e um dos roteiristas Marcos Gervazoni, 23 anos, que também aparece como figurante.
Mistura de curta com documentário
A culinária é um capítulo à parte: o "bucho" dos dois primeiros vídeos também foi para o Litoral, como resposta à pergunta do que haveria de comida naquele dia. Milho cozido, mandolate, puxa-puxa, salame e grostoli também figuram nas delícias citadas pelo casal. Por mais natural que sejam as expressões, o roteiro repete fórmulas, mudando apenas o "objeto".
- No primeiro, usamos o "não esquece a japona, neno", no segundo "não esquece a barutcha" (uma espécie de touca) e no terceiro tem o "não esquece o bronzeador, neno". O vídeo fica com uma identidade própria, mas com expressões novas. É uma mistura de curta com documentário - explica o diretor de arte publicitária Rodrigo Troitiño, 33 anos, outro produtor do vídeo.
Seu Expedito recebeu pelo menos 50 telefonemas na época do primeiro vídeo. Agora, orgulha-se de dizer que a gravação já foi enviada até para amigos da Itália.
- Foi bom de fazer. Os guris fizeram tudo (roteiro), e nós só participamos. Saiu natural, como é na praia - conta Copelli.
Para março, está previsto um programa diário do casal em um canal de TV que já funciona em Arroio do Sal e na internet.
A ideia nas redes sociais
Os três vídeos da série, inspirados no Coisas que Porto Alegre Fala, lançado em março de 2012 como uma homenagem aos 240 anos de Porto Alegre pela Rede Bandeirantes, foram postados no canal Nova Milano, no Youtube.
O distrito farroupilhense tem também uma conta no Twitter e um site, o The New Milan Times, criado em abril do ano passado e que funciona como uma espécie de O Bairrista, que traz notícias fantasiosas e exageradas sobre o Rio Grande do Sul. A notícia mais recente do site é sobre BBB Gringo, um reality inspirado na Serra.
- Estava conversando com um amigo pela internet e começamos a falar como seria o BBB Gringo. Aí postei no Twitter, e as pessoas começaram a dar sugestões. Fiz uma matéria com as ideias explicando como seria o programa - conta o projetista Marcos Gervazoni, 23 anos, um dos administradores dos perfis e do site.
"Passa o bronzeador que o mormaço queima!"
Não precisa andar muito para emendar uma divertida conversa com aquele sotaque "italianado" da Serra na beira da praia de Arroio do Sal.
- Aqui a gente tem que passar bronzeador debaixo do braço para não queimar, de tanto abanar para os conhecidos - diz Sidnei Tapparelo, 37 anos, de Bento Gonçalves, avisando que a praia está tomada por veranistas daquela região.
Como bom serrano, Sidnei ignora que o bronzeador a que se refere, provavelmente, seja um protetor solar, e também não parece se preocupar muito com o bronzeado de tom avermelhado que exibe no peito:
- Nem dói quando encosta, o problema é se não dá para encostar - ensina, com a sabedoria acumulada em anos de praia (e muitos torrões).
Em uma tarde da semana passada, quem aproveitou o mormaço "pouco bom" junto a Sidnei foi a mãe dele, Norilei, e a filha, Camila, 14 anos.
- Minha "nêne" - brinca.
Filha única, diz ele, porque se não ia faltar dinheiro para comprar salame para todo mundo. Esse mantimento, aliás, ele nem precisa comprar para a viagem.
- Aqui tem para vender até em loja de roupa! - revela Sidnei.
A explicação para tanta receptividade, ele traz com mais irreverência:
- Dizem lá na Serra que Arroio do Sal é um bairro de Caxias.
Família de Arroio do Sal conta como é o sotaque no veraneio
Foto: Félix Zucco
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Glossário do "serrânes"
Os Tapparelo ajudam a esclarecer o significado de algumas expressões que aparecem no vídeo.
> "Sacramento!": interjeição para indignação ou surpresa, assim como "Madonna" e "Porco Dio", inspiradas no idioma italiano. Os Tapparelo advertem que a entonação é que determina o sentido. "Codio" e "Cramenta" são derivações.
> "Curassal": como o perímetro litorâneo preferido dos veranistas da Serra fica entre Curumim e Arroio do Sal, popularizou-se a expressão "Curassal". Há uma ilha caribenha de nome Curaçao.
> "Pouco bom esse mandolate": pouco bom, para quem é da Serra, significa justamente o contrário. É tão bom que é até melhor que muito bom.
> "Nene, tu esqueceu o bronzeador": nene e neno são formas para se referir a crianças, principalmente filhos e netos (eternas crianças para pais e avós). Também têm referência no italiano. E bronzeador é o mesmo que protetor solar - geralmente, é protetor.
> "Mormaço também queima": é típico do serrano ficar com a pele (clara) queimada por não usar protetor solar em dias nublados. O mormaço é o calor que persiste, apesar das nuvens a cobrir o sol.
> "Vamos dar uma volta de dindinho hoje?": dindinho é aquele ônibus do tipo jardineira que costumava percorrer as praias.