Encontro na areia

A turma que se reúne há mais de três décadas em Capão da Canoa

Grupo de veranistas fez do quiosque 22 o local para celebrar uma amizade que atravessou o tempo e as transformações da praia no Litoral Norte

Por: Jéssica Rebeca Weber
05/01/2017 - 05h04min | Atualizada em 05/01/2017 - 05h04min
A turma que se reúne há mais de três décadas em Capão da Canoa Anderson Fetter/Agencia RBS
Amigos começaram a se reunir nos anos 1980 e até hoje se reencontram a cada verão em Capão da Canoa Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS  

O quiosque 22 de Capão da Canoa é o point de um grupo que não precisa de combinações pelo WhatsApp para se reunir – na verdade, eles se encontravam antes mesmo de telefones celulares serem vendidos no Brasil. Composta por pelo menos 15 senhores de Porto Alegre, Cachoeira do Sul, Santa Maria, Uruguaiana, Caxias, Tupanciretã e outros cantos do RS, a autodenominada "turma da barraca da Teresinha" pode ser vista há mais de 30 verões em areias caponenses.

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Dona do quiosque que dá nome ao grupo, Teresa Matos dos Santos, 66 anos, afirma que a freguesia é fiel desde 1982:

– Nunca duvido que eles virão. São bons clientes. Até porque os maus a gente bota para correr.

É no final de semana que os encontros têm mais quórum, mas há representantes quase todos os dias no local. Das 11h e pouco até 17h ou 18h, sentam-se sob uma tenda para conversar e contar piada.

– Falamos um pouco de política, sobre futebol... Se bem que o colorado está em baixa – diz o representante comercial Paulo Dimer, 63 anos, sem esquecer de alfinetar: – Se fala alguma coisa em mulher também, mas muito pouco, porque a maioria tá passado para esse tipo de coisa, tem só recordação antiga – emenda, às gargalhadas.

Teresa Matos dos Santos, a Teresinha, dona do quiosque que reúne o grupo, atende a turma desde 1982 Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Outro assunto na pauta são as histórias de verões passados, e seria necessária a temporada inteira para ouvi-las. Lá pelas décadas de 1980 e 1990, eles passavam o dia provando os quitutes da Teresinha – que inicialmente tinha só um carrinho à beira-mar – e, de noite, às 19h17min (porque não poderia ser às 19h nem às 19h20min, dizem), tinham encontro marcado em um lugar da Rua Sepé que apelidaram de "bar do incompetente".

O advogado Nilton Corrêa de Lemos, 76 anos, que na turma da praia é o Tutty, explica que a alcunha se deve à recusa do dono em trocar as marcas baratas de whisky e vodca por outras melhores, "porque todos iriam querer". Além disso, o coitado do garçom, que chamavam de Yura pela semelhança com o meia do Grêmio nos anos 1970, era obrigado a fazer várias viagens de bicicleta para comprar gelo, que acabava a toda hora. Yura, que na verdade é Amauri, hoje é o prefeito de Capão da Canoa.

– É um grupo antigo. Iam sempre no fim da tarde e formavam uma meia-lua no puxado da frente do bar. Era um encontro de amizade, e uma amizade nossa também, porque se criaram laços – relembra Amauri Magnus Germano, que perguntou a hora e o local em que se reúnem para visitá-los e lembrar dos velhos tempos.

Festa realizada em 1995 para inaugurar uma placa com o nome dos integrantes do grupo no bar que todos frequentavam Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução

Para marcar os 12 anos no bar, em 1995, mandaram fazer uma placa com o nome dos fundadores do grupo. Mais por brincadeira do que por qualquer outra coisa, contrataram uma mãe de santo para abençoar – o que aparentemente não deu muito certo, uma vez que ninguém sabe o paradeiro da homenagem. O evento está registrado em fotos, dentro de uma pastinha guardada por Tutty, e, dizem os amigos, acabou aparecendo até na TV.

SEM O BAR, ENCONTROS
PASSARAM PARA A ORLA

O bar fechou há uns 10 anos, e os encontros restringiram-se à praia. No último sábado, fizeram um "salchipão" do lado do quiosque. Mas o que eles compram da Teresinha?

– Posso falar, seu Zeca?! – Teresa busca aprovação com um dos clientes e emenda: – É pinga mesmo. Cerveja, Campari, Underberg, whisky... Sai uma água de coco de vez em quando.

O "salchipão" improvisado pela turma da praia ao lado do quiosque 22, em Capão. Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Com os anos, a formação se modificou. Novatos foram agregados – como o cirurgião-dentista Leandro Nascimento, 73 anos, que entrou há cinco anos "para moralizar o grupo" –, outros venderam a casa na praia e pararam de ir.

Alguns morreram. Três dos que já partiram tiveram parte das cinzas deixadas na área. Um deles era Breno Fornari, um dos grandes nomes das corridas de carretera do Estado, campeão de provas como as 12 Horas de Porto Alegre e as Mil Milhas Brasileiras no currículo. Breno era de uma época em que a trupe se chamava de Senado – não se lembram do motivo.

– Mas temos vergonha de nos chamar de Senado agora – afirma Leandro, criticando os políticos em Brasília.

Na turma da barraca da Teresinha tem médico, automobilistas, advogado, executivo, mas, ali na praia, a personalidade conta mais. Tutty é apontado como o historiador do grupo. Dimer, o Onça (por causa das sardinhas), é o piadista, e João Renê Cobelli, como denunciado pela própria Teresa, "fala pelos cotovelos" – o que ele nega, mas desata a falar em seguida. Durante a entrevista, alguém repara nas consequências catastróficas que a fama repentina poderia causar, com o quiosque aparecendo no jornal.

– Teresinha, tu não vai aumentar o preço da cerveja, né?

 






 
 
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