Praia e natureza

Depois da fama, corujas de Capão da Canoa buscam sossego 

Corujas-buraqueiras, que já motivaram cancelamento da queima de fogos durante o Réveillon de 2008, têm migrado para áreas mais tranquilas 

Por: Marcelo Gonzatto - de Capão da Canoa
10/01/2017 - 18h56min | Atualizada em 11/01/2017 - 07h55min
Depois da fama, corujas de Capão da Canoa buscam sossego  Anderson Fetter/Agencia RBS
Em ronda pelas areias de Capão, ZH avistou corujas em pontos mais distantes dos ninhos do casal original de 2008 Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS  

Quando a queima de fogos do Réveillon de 2008 foi cancelada em Capão da Canoa, a família de corujas que motivou a suspensão dos festejos se tornou celebridade instantânea. O local onde havia instalado seu ninho, que correria risco se os foguetes fossem disparados nas imediações da Praça do Farol, virou ponto turístico com direito a reportagem no Jornal Nacional. Mas quem passa hoje pelas dunas que abrigavam os bichos se questiona: para onde foram as famosas aves?

Como celebridades que se cansam da vida sob os holofotes, as muitas corujas que vivem na região de Capão têm migrado para pontos cada vez mais distantes da área central da praia em busca de paz e sossego — mas ainda podem ser avistadas ao longo do cordão de cômoros na orla. Como se camuflam facilmente em meio à areia e não há mais cercas ou placas indicando sua localização, diferentemente dos velhos tempos da ribalta, conseguem passar despercebidas da maioria dos veranistas.

A bióloga da prefeitura Marisa Freitas diz que é impossível saber o destino do casal original de corujas — batizado como Zoio e Zoia — porque nunca foi feito algum tipo de marcação nas aves. Segundo a bióloga, elas tiveram perto de 10 ninhadas, com cerca de dois ou três filhotes em cada uma, e teriam deixado o ninho que virou área de visitação popular há alguns anos.

— As obras para a construção do novo calçadão devem ter espantado elas de vez dali — cogita Marisa.

Corujas se afastaram do Calcadão devido à barulheira e à movimentação Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

É possível que os animais ainda avistados neste trecho sejam descendentes de Zoio ou Zoia ou provenientes de outros locais, já que costumam migrar bastante. Ao longo da praia de Capão, ZH identificou pelo menos um outro ninho com dois adultos e um aparente filhote, ao sul do ponto original, e uma outra coruja sozinha um pouco mais além (os locais exatos são omitidos para a segurança dos bichos).

— Elas estão mais para esse lado de cá, porque lá perto do calçadão tinha movimento demais. Mas mesmo aqui há muitas pessoas que caminham pelas dunas e passam por cima de tudo — afirma o veranista Alceu Boeno, 71 anos, que costuma acompanhar de longe a movimentação das chamadas corujas-buraqueiras (assim chamadas por usarem buracos como ninhos), de hábitos diurnos.

Naquela área, dividem espaço com alguns quero-queros barulhentos — os quais as corujas parecem observar com certo desdém. A bióloga da prefeitura sustenta que outros espécimes se deslocaram para zonas ainda mais tranquilas rumo ao norte. Mas uma família, curiosamente, na temporada passada, tentou se instalar no canteiro central de uma avenida localizada próximo ao hospital de Capão. O movimento de automóveis e pessoas fez com que abandonassem a ideia e rumassem para um ponto desconhecido.

Para as corujas de Capão, o tempo de fama e glamour ficou para trás.

EM 2008, AVES FORAM
TEMA DE POLÊMICA

Capa da edição de Zero Hora em janeiro de 2008, noticiando a polêmica Foto: Zero Hora / Reprodução

O autônomo Carlos Alberto da Silva, 52 anos, que mora em um prédio diante do antigo ninho das corujas-buraqueiras, testemunhou toda a conturbada história dos animais naquele ponto. Conta que alguns exemplares da espécie começaram a aparecer por ali na virada para os anos 2000. Anos mais tarde, os bichos já atraíam alguma curiosidade até que, na virada para 2008, a proximidade dos fogos de artifício com um ninho levou a Brigada Militar a suspender o show pirotécnico.

— Houve uma falha na época ao não se identificar a presença delas naquele momento — explica a bióloga Marisa Freitas.

A enorme repercussão do cancelamento, que revoltou os veranistas presentes para a contagem regressiva, logo transformou uma família de bichos em notícia nacional e alvo de simpatia. A espécie virou símbolo de Capão, e a a área do ninho chegou a ser cercada. Mas não é de hoje que as corujas não toleram muito bem o assédio.

— Uma vez teve um repórter que se aproximou demais, e uma uma coruja deu um golpe bem na cabeça dele — diverte-se Silva.

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AJUDE A PROTEGER AS CORUJAS

— Se avistar uma coruja nas dunas, não se aproxime dela em hipótese alguma. Admire de longe.

— Jamais ofereça qualquer tipo de alimentação para as aves. Isso pode matá-las.

— Evite caminhar sobre as dunas. Mesmo sem querer, você pode acabar soterrando um ninho e prendendo os animais em seu interior.

— Não instale qualquer tipo de placa ou cerca ao redor do ninho por conta própria. Evite chamar atenção para o local onde elas se encontram.


 






 
 
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