Cade a areia fofa?

Entenda por que a faixa de areia está menor em praias do litoral do RS nesta temporada

A gigantesca ressaca de outubro de 2016 alterou a morfologia litorânea

Por: Marcelo Gonzatto - de Capão da Canoa
13/01/2017 - 18h37min | Atualizada em 14/01/2017 - 11h17min

Quando o casal de Santa Maria Luiz Cunha Dutra, 56 anos, e Meri Müller, 50, chegou à orla de Capão da Canoa para iniciar o veraneio, quarta-feira passada, estranhou um pouco a maior dificuldade para encontrar um ponto de areia branca e fofa onde plantar o guarda-sol.

No dia seguinte, quando Dutra e Meri esperavam que as condições da praia estivessem do jeito como sempre conheceram, com uma larga faixa de areia alva e seca, depararam com o mesmo cenário da véspera. O fato é que a costa gaúcha está mesmo diferente nesta temporada, e poderá demorar algum tempo até voltar ao que era.

A gigantesca ressaca de outubro do ano passado alterou a morfologia litorânea e retirou toneladas de sedimentos da orla, deixou as dunas mais estreitas e favoreceu o avanço do mar em pontos localizados das praias — há regiões em que a água teria ocupado pelo menos 10 metros da antiga faixa de areia, como em Atlântida Sul ou Hermenegildo, no Litoral Sul.

— Um grande evento como aquela ressaca deixa cicatrizes, o que é complicado recuperar — explica o geógrafo Nelson Gruber, professor do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica (Ceco) da UFRGS.

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Morador de Carazinho, o veranista Marcos Rodrigues, 44 anos, estranhou ainda a presença de uma larga faixa de areia úmida entre as dunas e o mar, onde chegam a se formar poças de água persistentes e que por vezes exalam mau cheiro.

— Parece esgoto — reclama Rodrigues.

Muitos conhecedores da orla, como o salva-vidas Dilmar Rodrigues Pereira, 45 anos e duas décadas de atuação em Capão, acreditam que o acúmulo de água estaria sendo favorecido pela escavação que a ressaca produziu na faixa de praia.

— Há pontos em que o mar retirou 30cm, 40cm de areia. Ficou como uma calçada rebaixada — observa Pereira.

O geólogo do Ceco Elírio Toldo, porém, sustenta que essa umidade não tem relação com a maré alta de outubro. Para o especialista, é uma condição normal das praias nos meses mais quentes do ano.

— Durante o verão, em razão da movimentação dos bancos de areia, o lençol freático se aproxima mais da superfície, e essa umidade aflora. Em alguns anos pode ser maior, em outros, menor — avalia Toldo.

O geólogo aproveita para avisar que essa água costuma ser contaminada pela falta de tratamento sanitário comum aos municípios litorâneos, o que polui o lençol freático.

As imediações da plataforma de Atlântida são outro local afetado pelo impacto da ressaca. Morador do litoral desde que nasceu, há 64 anos, o comerciante José Barros da Silva conta que algumas dunas chegaram a perder metade da largura e ainda não se recuperaram naquela região.

Onde antes havia um cômoro, nos fundos do seu quiosque, agora foi montada uma quadra de vôlei. Silva admira-se com os efeitos persistentes da ressaca "de fora a fora" no litoral. E avalia que as antigas condições litorâneas não deverão retornar tão cedo:

— Só o mar pode endireitar de novo a praia. O mar estraga, o mar conserta.

Construção de calçadões aumenta impacto das ressacas

Agradáveis para os veranistas, os calçadões à beira-mar são considerados por especialistas um agravante para o efeito das ressacas sobre a morfologia do litoral. Enquanto as dunas agem como uma espécie de amortecedor natural para a violência das ondas, as barreiras de concreto exercem efeito oposto.

— Um fator que afeta negativamente é a retirada ou a não preservação das dunas frontais na praia, bem como a execução de obras costeiras inadequadas nessas áreas suscetíveis à erosão. Nisto se incluem os calçadões. Ótimos para os veranistas, péssimos para as praias — analisa o geógrafo Nelson Gruber, vice-diretor do Instituto de Geociências da UFRGS.

Para se ter uma ideia do potencial de uma ressaca, uma maré alta normal (também chamada astronômica) eleva o nível do mar, em média, em 35 centímetros. Já as marés meteorológicas (provocadas por tempestade) podem superar 1m20cm. Como resultado, ondas que têm em média 1m50cm podem alcançar quatro metros de altura.

O geógrafo observa que é difícil estimar quanto tempo a costa gaúcha pode levar para se recuperar por completo:

— Com condições de mar e tempo bom, o sistema pode se regenerar dependendo do estoque de sedimento disponível. Se faltar, temos erosão. Havendo suficiente, o sistema se regenera.

O fenômeno que atingiu o litoral é a face mais visível de um problema que vem afetando as praias em todo o planeta. Estima-se que 70% das costas no mundo inteiro sofram com algum grau de erosão agravada por eventos extremos — favorecidos pelo progressivo aquecimento global.

— Recomendações de políticas públicas preventivas e restritivas devem ser pensadas e implementadas, pois a tendência é de danos progressivamente maiores nos setores costeiros. É uma tendência mundial, e no Rio Grande do Sul não é diferente — aponta Gruber.

Em Capão, comerciantes cavam canais para escoar umidade

Na beira-mar de Capão próximo à Praça do Farol, o acúmulo de umidade no eixo central da praia levou comerciantes de um quiosque das imediações a tentarem contornar com as próprias mãos.

Como a água seguidamente forma um obstáculo a caminho do mar, eles procuram cavar canais para facilitar o escoamento e constroem uma espécie de passagem mais elevada de areia para permitir a circulação dos veranistas sem molhar os pés na água de aparência suja.

— Tentamos cavar alguns canais para escoar essa água até o mar, mas é difícil — afirma o comerciante Régis da Silva Inácio, 34 anos, proprietário de um quiosque.

Mar não recuou por completo em Atlântida Sul

Quem chega a Atlântida Sul, no município de Osório, logo percebe que o monumento em forma de Rosa dos Ventos que caracteriza a beira da praia está pendendo para um lado. Desde a grande ressaca, a estrutura de concreto perdeu equilíbrio.

Um olhar mais atento revela que, além disso, o alicerce do monumento — antes escondido pela areia — está exposto em razão da erosão que carregou toneladas de sedimentos da orla durante a maré alta. Outra mudança é o avanço do mar em vários metros em relação à linha à qual costumava se limitar antes do fenômeno climático.

— A gente percebe que o mar avançou pelo menos uns 10 metros em comparação ao que era antes. A faixa de areia ficou mais curta — sustenta Dinarte Simas Tressoldi, 70 anos, proprietário de uma lanchonete à beira-mar há 20 anos.

Foto de Atlântida de poucos anos atrás mostra faixa de areia maior Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Em Torres, pedras ficaram mais expostas

Até o verão passado, o treinamento realizado por salva-vidas em Torres incluía uma corrida pela beira da praia entre as praias Grande e da Cal. Como a retirada de areia pela maré alta de outubro deixou uma grande quantidade de pedras expostas ao longo desse trecho, agora os salva-vidas utilizam o calçadão.

— A morfologia da praia mudou muito. E não foi só na areia, dentro d'água também — afirma o salva-vidas Antônio Carlos Oliveira da Silva, 50 anos, que há duas décadas trabalha em Torres e conhece cada detalhe do mar na região.

Segundo Silva, a extensão do banco de areia existente dentro d'água aumentou desde a ressaca.

— Olha, diria que em alguns pontos quase dobrou de tamanho. Em razão disso, as pessoas acabam indo mais para dentro do mar e se expõem a mais riscos — avisa.

Na Praia da Cal, onde Silva ocupa uma guarita, segundo ele a faixa de areia também estaria mais úmida e compacta.

— Nesses 20 anos aqui, foi a primeira vez que vi esse tipo de alteração — conta.

Dias sem praia no Hermenegildo

A praia de Hermenegildo, no Litoral Sul, apresenta uma das situações mais dramáticas da costa gaúcha. A ressaca do ano passado agravou uma situação que já era preocupante — o encolhimento da faixa de areia — e, atualmente, em vários dias nem mesmo sobra espaço de praia no local.

— Frequentemente, mesmo sem maré alta, a água chega até as estruturas de contenção. Ocupa toda a praia — sustenta o professor de geografia da Universidade Federal de Rio Grande (FURG)Ulisses Rocha de Oliveira, 39 anos, especialista em dinâmica costeira.

Segundo Oliveira, até a grande ressaca, o mar só costumava avançar tanto durante o inverno:

— Agora, muitas pessoas estão pegando seus carros e indo para outros locais.

A situação é mais complicada em Hermenegildo pela falta de dunas, já que muitas casas foram erguidas junto à beira-mar. Isso amplia os estragos e dificulta a regeneração ambiental.

 






 
 
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