Histórias de veraneio

Luciano Potter: o buraco do amor

"Porque não há outra possibilidade para suportar os mais de 35°C do Alegrete. O negócio é água"

Por: Luciano Potter
11/01/2017 - 03h00min | Atualizada em 11/01/2017 - 03h00min
Luciano Potter: o buraco do amor Arte ZH/
Foto: Arte ZH  

Sou de poucos arroubos materiais. Mas algo balança meu coração, ilumina meu caminho: a vontade de ter uma piscina grande e com grama em volta.

O amor por piscina é mais latente no interior do Estado. Porque é isso ou o rio perigoso com correnteza, ou a sanga, ou a guerra de bexiguinha e balde, ou a piscina do Alex. Alex é amigo do Gordo, meu irmão. São mais novos do que eu, outra geração. E no pátio dele havia uma piscina, em formato de número 8, desativada.

Um buraco que possibilite encher de água gelada e depois vários seres adentrarem para se refrescar. Sim, o amor está nesse buraco. Porque não há outra possibilidade para suportar os mais de 35°C do Alegrete. O negócio é água.

Por isso, revolucionamos o que chamarei de O Verão de Alex. O pai do rapaz liberou o pátio e começamos a limpar a piscina. O negócio havia virado um paradouro de mosquito transmissor de doenças terríveis. E foi esse o argumento que usamos para convencer o tio, pai do Alex – porque pai de amigo do cara sempre vira tio. Foram cinco dias de limpeza.

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Conseguimos uma bomba emprestada. Daquelas de tirar água, que liga na luz. O processo aumentou a velocidade do esvaziamento. Porque se não fosse ela ainda estaríamos lá. A parte de baixo do oito tinha dois metros de profundidade. Uma maravilha para dar biquinho, um horror para limpar.

Assim nos atracamos a esfregar azulejos, todo o povo, uns 10. De vez em quando minha mãe ou a tia Ângela, mãe do Alex, trazia refresco e cacetinho com queijo e presunto. Era um dezembro escaldante, primeira vez que comprovei que se frita ovo no asfalto (o gosto é ruim, não tente).

Já estávamos no quinto dia de limpeza e, de repente, no meio da função, um estrondo na máquina. Desespero geral porque não tínhamos como pagar a geringonça. "E agora?!", gritava um. Mantive a calma. Alguém precisa ser forte. Esse alguém foi o Paulista, que foi até a máquina e descobriu: um peixe habitava a piscina. Juro. Uns 45 centímetros. A água era suja, escura, porcalhona. O peixe, um herói. Ele conseguiu se alimentar ali. Não sei por quantos anos. Mas o bicho estava enlouquecido quando descobriu que estávamos acabando com seu habitat.

A última parte da história não pode ser lida por menores. Seguirei: matamos o peixe. Uma faca afiada, muita carne. O corte foi cirúrgico, estrebuchamos o animal, o que não dava para comer foi pro lixo e o resto para os pratos e aconteceu algo que¿ Bem, na verdade não rolou. Ninguém comeu.

O que pensei foi que o peixe estava podre. O pobre peixinho foi esquartejado para nada. No outro dia a piscina estava cheia e azar do peixe. Todo aquele verão, O Verão de Alex, foi espetacular, refrescante, molhado e uma prova de amizade para o nosso grupo.

Só uma coisa que, mesmo 20 anos depois, não sei explicar: como um peixe foi parar numa piscina a léguas de distância de um rio e um continente longe do oceano? Um mistério.

 
 
 
 
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