Litoral Norte

As histórias dos veranistas das décadas de 1950 e 1960 que voltaram a se reunir em Capão

Encontro foi marcado por muitas histórias do tempo em que mulher de biquíni era um escândalo

Por: Bruna Scirea - de Capão da Canoa
22/02/2017 - 21h20min | Atualizada em 24/02/2017 - 15h47min
As histórias dos veranistas das décadas de 1950 e 1960 que voltaram a se reunir em Capão Lauro Alves/Agencia RBS
Karin (esq.) e amigos relembraram época em que a gurizada podia andar sozinha à noite de lanterna na mão na praia Foto: Lauro Alves / Agencia RBS  

Na metade do século passado, veranear não era sinônimo de uma quinzena de dias à beira-mar. As famílias saíam em bandos de suas cidades já no fim de novembro e só deixavam a areia e o mar após o Carnaval. Para aqueles que podiam, três meses do ano eram vividos na praia – onde se configurava uma nova rotina, surgiam amizades e criavam-se memórias que o futuro não viria a apagar.

Desde janeiro deste ano, veranistas se reúnem para relembrar a infância e a adolescência vividas entre as décadas de 1950 e 1960 em Capão da Canoa, no Litoral Norte. A ideia dos jantares surgiu em um grupo criado em 2014 no Facebook, o "Amigos de Capão da Canoa - Anos 60", com mais de mil membros. Na noite de 15 de fevereiro, Zero Hora ouviu as lembranças de 20 veranistas veteranos que se reencontraram no Hotel Bassani – um dos símbolos mais antigos do município praiano.

As famílias de todos eles adquiriram casas no início da década de 1950, nas imediações das ruas Poti e Guaraci. Hoje, para chegar até o local onde passaram meses da vida não se leva mais do que duas horas, saindo da Capital. Já naquela época...

— No verão de 1956, viemos para cá em uma caminhonete Austin: meu pai, minha mãe, um avô e mais cinco crianças. Vínhamos uns por cima dos outros, já que não tinha cinto de segurança. Era uma viagem que levava quatro horas — conta a farmacêutica Tirce Kotlhar, 67 anos.

No carro, ainda necessário ter espaço para os sacos de arroz, batatas e cebolas. Naqueles tempos, não se encontrava um mercado em cada esquina. Carroças vendendo pão e leite passavam diariamente nas casas - construções de madeira, que se diferenciavam, muitas vezes, por uma placa colocada sobre o portão, com inscrições como "Rancho dos Sete Irmãos" e "Estrela da Amizade". As moradias de verão eram intercaladas por terrenos baldios. A Beira-Mar era um banhado pouco habitado e, com facilidade, dormia-se ao som do mar e sapos coaxando a noite inteira.

As manhãs eram vividas com os pés na areia. Quando crianças pequenas, frequentavam a orla com familiares. Mas lá pelos 10 anos já partiam sozinhas com os amigos da praia: andavam a cavalo sobre as dunas, faziam piqueniques em Atlântida (caminhavam mais de dois quilômetros até lá) e, à noite, passavam de casa em casa reunindo um bando para uma pernada noturna - cada um levava uma lanterna em mãos. Era uma liberdade sem fim. Mas eles recordam: nem para todo mundo.

— De tarde, as famílias não frequentavam a praia, porque era o horário em que as empregadas iam para a orla. De manhã, as patroas. À tarde, as empregadas. Era horrível, mas funcionava assim — lembra Viviane Dohm Vargas, 65 anos.

Dias de muito sol sem filtro solar

Filtro solar não existia. As melecas passadas na pele variavam desde Coca-Cola, hidratante, óleo de coco com beterraba e pomada contra assaduras. Até limão. Limão! Lambuzados de produtos que faziam de tudo, menos proteger contra o sol, subiam em suas planondas (as saudosas pranchas de isopor) e atiravam-se no mar. Ou então dedicavam-se a pegar um bronze na orla, como fazia Karin Meinhardt, 73 anos. A ousada garota vestiu um dos primeiro biquínis de duas peças de Capão da Canoa - enquanto os costumes ainda ditavam o uso de peças inteiras em tricô ou algodão.

— Na época, só se usava maiô. Um dia, apareci na praia com um duas peças estampado. Aparecia só uma faixa barriga, mas foi considerado um vexame. Aconteceu que um policial me escoltou até nossa casa. Perguntei a ele o porquê. Só respondeu assim: "Normas" — recorda Karin.

Os homens andavam pelas ruelas de areia e chão batido como se estivessem a trabalho: calça, camisa social e sapatos. As mulheres usavam vestidos costurados por elas mesmas. E para dar conta das fantasias da criançada que todo ano pulava o Carnaval na Sociedade dos Amigos de Capão da Canoa (SACC) – primeiro no Edifício Aymoré e, mais tarde, na sede própria –, as famílias traziam máquinas de costura para o Litoral.

— Criávamos blocos entre os amigos, e as mães faziam nossas fantasias. Teve um Carnaval em que o (Leonel) Brizola, que veraneava aqui, nos convidou para fazermos uma apresentação no quintal da casa dele. Fomos aplaudidas, com chicletes "pingue-pongue" jogados para o alto, um doce que era ainda novidade - relembra Tirce.

Os carnavais da infância ganhavam novos contornos na adolescência. Lá pelos 16 anos, as paqueras já começavam antes mesmo da virada do ano. Quantas paixonites esquentaram ainda mais aqueles verões. As trocas de olhares começavam nas areias, intensificavam-se nos encontros no Baronda, nas idas ao cinema, e viravam juras de amor nos matinês do Hotel Riograndense.

Verão fazia uma pausa de nove meses

Muitas noites de verão deram início a casamentos que já perduram por meio século. Sylvia era uma jovem alta, cheia de autoestima e exímia nadadora, como eram todos os irmãos Dagnino, que se arriscavam além da rebentação, "onde o mar é azul". Pedro Chiwiacowsky era um sujeito magro, mas tão alto quanto Sylvia - e estava dando sopa, sentado sozinho no banco do Hotel Riograndense, no verão de 1958.

— Cheguei com um saco de pipocas e ofereci: "Quer pipoca"? — conta Sylvia, hoje com 80 anos.

— Malditas pipocas! Levanto os olhos, e lá está aquela deusa. E aí, sabe como se diz? Grudei — complementa Pedro, aos 79 anos.

Naquela época, o entrosamento entre as turmas da praia se fazia tão notável que era como se o verão fizesse apenas uma pausa de nove meses. Retornava logo em seguida. Durante o inverno, quem ficava na praia era o popular João

Ronda, que circulava pilchado pelas ruas, de olho nas casas dos veranistas. Em casos de vidros quebrados ou de outros pequenos problemas, partiam cartas ou avisos levados por motoristas de ônibus até os proprietários das moradias.

O ano passava, e era verão de novo. A casa estava lá. Assim se seguiram algumas décadas de veraneio. Até que Capão da Canoa cresceu, as moradas foram vendidas dando lugar a edifícios altos, que tomaram a Beira-Mar e as ruas centrais. A famosa Loja Longo, de armarinhos e ferramentas, continua aberta e com bom movimento até hoje. Mas os antigos cinemas, o Hotel Riograndense, o Baronda e a calmaria daqueles anos já se foram. Restou aos veranistas mais antigos a saudade dos verões em que tinham o mar como testemunha das descobertas da infância e da adolescência.

— A alegria está em relembrar o tempo em que nos acordávamos e já reuníamos todo mundo para ir para a praia. Assim fizemos grandes e eternas amizades, que já somam alguns verões — afirma Margaret Delinghausen, 66 anos.

O próximo encontro do grupo está marcado para 27 de abril, em Porto Alegre.

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