Revolução e exílio

Novidade na UFRGS, obra de Tabajara Ruas relata período militar

“O Amor de Pedro por João” traduz regimes autoritários em histórias humanas. Esgotado nas livrarias, livro será relançado no próximo domingo

03/07/2014 | 07h32
Novidade na UFRGS, obra de Tabajara Ruas relata período militar Edu Oliveira/Arte ZH
Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

O Amor de Pedro por João entra no hall de leituras obrigatórias da UFRGS com a missão de preencher a lacuna de obras que tratam de ditadura militar. Incluído na lista no ano em que o golpe de 1964 completa 50 anos, o livro do gaúcho Tabajara Ruas utiliza o cenário dos regimes autoritários no Brasil e no Chile como pano de fundo para a história de militantes cujas trajetórias foram interrompidas pela solidão do exílio.

Tabajara Ruas analisa seus livros e revisita sua trajetória

Na semana que vem, a editora Leitura XXI recolocará o título nas prateleiras. Lançada em 1982, a obra chega em nova edição, que inclui conteúdos adicionais para vestibulandos. Numa primeira análise, professores diagnosticaram dificuldade dos estudantes em compreender a produção, que utiliza a trajetória de militantes como fio condutor para narrar a história de resistência e solidão da esquerda no exílio político durante os anos de chumbo.

– Jovens estão acostumados a narrativas mais lineares e triviais, e a narrativa do Tabajara tem muitos recursos, ele foi muito influenciado por escritores latino-americanos dos anos 1960 e 1970 (que rompiam com a linearidade). Trata-se de um romance complexo e vigoroso. Considero o livro um dos melhores romances políticos da ditadura pós-1970 – define o professor de literatura da UFRGS Sergius Gonzaga, autor de um guia que acompanha a edição a ser lançada.

Rápida e dinâmica, a narrativa apresenta muitos detalhes em suas quase 400 páginas. Gonzaga espera que essa densidade seja determinante para o tipo de questão que a banca da prova da UFRGS vai elaborar sobre o livro.

– Podem pedir uma relação da obra com o período histórico. É um livro que tem muita ação, talvez tenham de pedir algo mais geral, não uma pergunta tão específica. O Tabajara gosta de narrar através da ação. Acontecem coisas surpreendentes durante o livro – destaca o professor.

Nova edição inclui material de apoio
O Amor de Pedro por João instiga o leitor a mergulhar nos fatos que marcaram o período de perseguição à militância de esquerda. Capítulos que se iniciam no Chile de 1973 – quando o presidente socialista Salvador Allende foi deposto por um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet – são sucedidos por outros ambientados no Brasil sangrento de 1971. A narrativa em mosaico exige que o leitor retorne com frequência a capítulos e subcapítulos anteriores.

Um guia de 10 páginas, anexado à nova edição, fornece ao estudante o contexto histórico necessário para facilitar a leitura, que pode ser um desafio para os menos habituados a romances.

– O próprio título é poético, porque no livro não tem nenhum protagonista chamado Pedro, por exemplo. Acho que o título expressa o amor daquelas personagens revolucionárias pela humanidade, amor que move suas vidas. É claro que pode ter um nível mais profundo, se pensamos que Pedro e João são nomes de dois apóstolos. Pedro, o fundador da Igreja cristã, e João, o provável autor do Livro do Apocalipse – interpreta a professora e escritora Regina Zilberman, responsável pela introdução da nova versão da obra.

Momentos para guardar na memória
Professores recomendam aos estudantes atenção para as passagens reflexivas da obra, cujos personagens simbolizam períodos históricos da militância política. Sergius Gonzaga destaca um dos trechos iniciais, em que os protagonistas Hermes e Marcelo enterram armas numa praia do litoral gaúcho.

– Esse episódio traduz o fracasso da revolução, e eles estão ali. O Marcelo vai para o exílio no Chile, e o amigo dele, Hermes, fica no Brasil porque quer vingar a morte da namorada. Ele coloca o seu sentimento pessoal acima da questão política – afirma Gonzaga, que acredita que a passagem pode aparecer na prova da UFRGS como um link com o contexto histórico.

Um livro entre duas ditaduras
Sergius Gonzaga*

No romance de Tabajara Ruas, a ditadura militar brasileira surge muito mais sob a forma de alusões, e menos de registros minuciosos de suas circunstâncias. Há duas cenas explícitas de tortura, um assalto a banco realizado isoladamente por João Guiné, uma situação brutal de vingança e o gesto de esconder as armas por dois personagens que encarnam a derrota do agrupamento revolucionário a que estão filiados. Há também a longa viagem de João Guiné e Sepé, um partindo do Chile e o outro de Fortaleza para um encontro quase que suicida em Santa Maria, pois os seus objetivos políticos eram difusos e a máquina repressiva do regime mantinha pleno controle do país. De certa forma, o escritor mostra que o ímpeto dos militantes nascia mais do ardor contra as injustiças e o arbítrio do que de uma análise das condições objetivas no país para a expansão de focos guerrilheiros. A população brasileira, seja por medo, indiferença ou simples rejeição, não apoiou os grupos sediciosos. Estes ficaram isolados e foram arrastados à solidão de porões clandestinos. Em síntese, ao lado do idealismo de jovens estudantes e de alguns velhos comunistas rompidos com o PCB, havia algo de aventura cega e voluntarista nesta rebelião.

No que tange à ditadura chilena, Tabajara Ruas focaliza o relato no dia 11 de novembro, quando Salvador Allende foi deposto, e nos dias posteriores ao golpe, quando estrangeiros e adeptos da Unidade Popular foram implacavelmente perseguidos e milhares deles assassinados. Contudo, é preciso frisar que no romance há um cruzamento do destino coletivo e dos destinos individuais e estes sobressaem mediante gestos concretos em que aparecem o medo, o desespero, a traição, a audácia, o heroísmo, a amizade e a perda das ilusões revolucionárias. No final da narrativa, em meio ao naufrágio geral dos sonhos, brota uma áspera, difusa e profunda esperança na emergência de tempos melhores e mais generosos.

*Professor de literatura da UFRGS

Tabajara Ruas diz ter testemunhado histórias que compõem o livro
Foto: Omar Freitas / Agência RBS


Mais brutal do que a ficção
Gaúcho de Uruguaiana, onde nasceu em 1942, Tabajara Ruas produziu O Amor de Pedro por João, seu segundo romance, durante o exílio político, em Copenhagen, na Dinamarca. O livro imprime o lado humano de quem viveu o período da ditadura militar e coloca o embate político como pano de fundo da afetividade entre os personagens, da solidão e sobretudo do medo que sentiam da hostilidade dos militares. Em entrevista a ZH em 2013, o escritor contou que o exílio foi mais do que inspiração.

– É um livro de ficção, embora baseado na experiência pessoal. As pessoas que estão ali, algumas eu conheci. Algumas das histórias me foram contadas, outras testemunhei de longe, mas, de certa maneira, é um testemunho daquela época – relatou.

Ruas permaneceu exilado entre 1971 e 1981. Passou por Argentina, Chile, Dinamarca, Portugal e São Tomé e Príncipe. Além de O Amor de Pedro por João, o gaúcho escreveu os romances Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez, Netto Perde sua Alma, O Fascínio, A Cabeça de Gumercindo Saraiva, El Cerco, A Região Submersa e Fronteira. Desde o final dos anos 1970, trabalha como roteirista e diretor de cinema. Dentre as produções em que trabalhou, destaca-se Netto Perde sua Alma, de 2001, que abocanhou quatro kikitos no Festival de Cinema de Gramado.

Lançamento em evento de leituras obrigatórias
Esgotado nas livrarias, O Amor de Pedro por João será relançado em nova edição neste domingo, no evento sobre leituras obrigatórias da UFRGS promovido anualmente pela editora Leitura XXI. O volume conta com introdução da professora e escritora Regina Zilberman e guia de leitura do professor Sergius Gonzaga e estará à venda por R$ 30.

O sarau ocorre no hotel Plaza São Rafael (Avenida Alberto Bins, 514). Ruas estará presente no encontro.

No evento, Diego Grando lança o Guia de Interpretação da Tropicália, sobre o disco Tropicália ou Panis et Circensis, novidade inusitada nas leituras obrigatórias da UFRGS.

Outros livros voltados para vestibulandos estarão à venda por preços promocionais. Os ingressos para o evento custam R$ 30 e estão disponíveis nos cursinhos Unificado, Gabarito, Anglo, Mottola e Absolutto. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (51) 3221-2310.

Notícias Relacionadas

Pesqueiro 27/04/2014 | 16h44

Luís Augusto Fischer comenta o cinquentenário do golpe de 1964

"Nosso cinismo ao deixar impunes os crimes de Estado na ditadura civil-militar não é nada novo"

Washington e o golpe 26/03/2014 | 15h13

Em "1964: o Golpe", Flávio Tavares disseca influência americana na queda de Jango

O livro mostra documentos obtidos nos EUA que detalham o envolvimento do país desde pelo menos 1962 em um projeto de desestabilização do governo brasileiro

Obra completa 06/07/2013 | 11h03

Na terceira entrevista da série 'Obra Completa', Tabajara Ruas analisa seus livros e revisita sua trajetória

Para o autor "a melhor maneira de buscar mitos é escrever um épico"

O livro e o filme 01/11/2012 | 13h03

Três perguntas para Tabajara Ruas

Escritor participa de mesa sobre a arte de levar um livro para o cinema

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.