Antiga e moderna

Um roteiro a pé por Frankfurt

Cidade da Alemanha, muitas vezes, é só passagem para os turistas. A gente mostra porque vale a pena gastar a sola do sapato por lá

Por: Rafaela Ely e especial
27/02/2017 - 14h57min | Atualizada em 27/02/2017 - 14h58min
Um roteiro a pé por Frankfurt Rafaela Ely/Agencia RBS
Foto: Rafaela Ely / Agencia RBS  

Frankfurt não é das cidades mais procuradas por turistas na Alemanha. Isso porque está diretamente associada ao aeroporto (o segundo maior da Europa) e ao distrito financeiro (é sede do Banco Central Europeu), e não com outras atrações locais.

Apesar da importância no cenário mundial devido a esses dois quesitos, é uma cidade média, com cerca de 720 mil habitantes, o que a torna ideal para passeios a pé. E é dessa maneira que os free walking tours propõem que os turistas conheçam o lugar.

O tour gratuito caminhando (na tradução literal) é uma visita liderada por um morador local — nativo ou não — que dura entre duas e três horas. No fim do trajeto, os turistas pagam aquilo que acham justo.

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Em Frankfurt, é oferecido o Free Alternative Walking Tour. Após uma breve apresentação do guia Dominic, um jovem estudante de inglês, entendi o porquê do acréscimo da palavra "alternativo" no nome da atividade. Depois de apontar curiosidades na arquitetura na Kaiserstraße (Rua Kaiser) para o grupo e discursar sobre a hauptbahnhof (estação de trem), entramos no famoso Red Light District (distrito da luz vermelha) de Frankfurt. É uma zona em que a prostituição e a drogadição estão fortemente presentes, mas de uma maneira à qual não estamos acostumados: legalmente.

A prostituição é permitida na Alemanha desde 2002 e se tornou uma indústria de 15 bilhões de euros por ano, movimentados por cerca de 400 mil profissionais do sexo. São quadras e quadras de bordéis pelas quais Dominic nos levou. A orientação foi para que nossa turma, de cerca de 50 turistas — a maior que ele já havia guiado —, não tirasse fotos na área em respeito às pessoas que circulam por ali.

Mesmo com nosso esforço de discrição, um senhor começou a nos seguir e a xingar. Dizia que eles não eram animais em zoológicos para serem observados e apontados (o que, para falar a verdade, fez com que eu me sentisse mal).

Dominic tentou conversar com o homem, informar o porquê de estarmos lá, mas não houve jeito. Saímos do Red Light District e entramos no distrito financeiro. Enquanto observávamos os espigões espelhados que abrigam centenas de escritórios de bancos, o estudante nos contou que existiam quatro salas para consumo de drogas na cidade. Nesses lugares trabalham médicos, enfermeiras, educadores, assistentes sociais e outros especialistas. O Estado oferece agulhas e o material necessário para a aplicação (mas não as drogas).

Para poder utilizar o serviço, o cidadão precisa identificar-se. Assim, o poder público sabe quem são as pessoas que precisam de tratamento. O objetivo é diminuir a quantidade de overdoses, evitar a transmissão de doenças e tentar fazer com que os usuários parem de consumir as substâncias. De acordo com Dominic, os índices de criminalidade no município diminuíram e não houve nenhum caso de overdose desde que essa tática foi implementada.

Casa de Goethe Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

Depois de passarmos por essas duas zonas mais alternativas e menos turísticas de Frankfurt, nos encaminhamos para a parte mais procurada por visitantes. A casa de Goethe é um exemplo. O escritor é o filho mais famoso de Frankfurt. Ruas, escolas e universidades são batizadas com o nome do autor de Fausto e Os Sofrimentos do Jovem Werther. O imóvel onde Johann Wolfgang Goethe nasceu, em 28 de agosto de 1749, é aberto para visitação e expõe objetos da época em que ele viveu lá.

No caminho até a próxima parada, passamos por marcos espalhados pela cidade que relembram eventos da história da humanidade. Eles não estão em áreas de destaque, estão por ali, em uma rua qualquer, e podem passar despercebidos pelo transeunte desatento. Mas, graças ao guia, pudemos enxergá-los.

O Holocausto é uma das tragédias lembradas nas calçadas. Placas de metal no pavimento são homenagens aos judeus assassinados ou enviados a campos de concentração a mando de Hitler. Essas insígnias contêm o nome das pessoas e para onde foram mandadas. Os avisos são instalados próximos às casas onde moravam.

Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

O Muro de Berlim também é recordado. Após a queda da estrutura que separava as Alemanhas Oriental e Ocidental, segmentos dela foram enviados para várias partes do país. Hoje, esses pedaços de concreto são obras de arte.

Pedaço do Muro de Berlim Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

Tais surpresas apareceram no caminho entre a casa de Goethe e a igreja de São Paulo (Paulskirche), símbolo da democracia alemã. Esse foi o local onde se reuniu o primeiro parlamento da Alemanha, eleito democraticamente em 1848. Do outro lado da rua está um dos cartões-postais da cidade: a passarela conhecida como Ponte dos Suspiros, que leva até a prefeitura.

Paulskirche Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

Depois de passar por um pátio do centro administrativo, chega-se ao maior ponto turístico local: a Römerberg. A partir do século 9, ela serviu como espaço de mercados, feiras, torneios e festivais. A área foi completamente destruída durante a II Guerra Mundial. Em 1986, as casas de estilo enxaimel foram reerguidas e hoje funcionam como restaurantes e lojas.

No outro extremo está a prefeitura, conhecida como Römer, onde o governo municipal se reúne desde 1405. No centro do largo, está a Fonte da Justiça, a primeira de Frankfurt. Os visitantes se encantam com o ambiente e não sabem para onde apontar suas câmeras fotográficas.

Fonte da Justiça Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

O maior ponto de referência de Frankfurt é o Rio Main. Ele é parte do nome oficial da cidade (Frankfurt Am Main) e dá apelido a ela (Mainhattan — em alusão à ilha nova-iorquina de Manhattan, já que a cidade é um grande centro financeiro da Europa).

As margens do curso d'água são bem aproveitadas. Há uma grande área verde nas bordas do rio, espaço superagradável para caminhadas. No gramado, as pessoas leem, fazem piqueniques, praticam exercícios físicos, conversam, comem e bebem. Atividades são oferecidas às crianças no período das férias de verão.

Ponte de Pedestres, a Eisener Steg Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

O walking tour termina na Ponte de Pedestres, a Eisener Steg. Do lado dela partem os barcos de passeio. Para quem tem tempo, vale a pena. O trajeto completo dura cerca de cem minutos e passa por alguns pontos de interesse locais.

Durante o tour, é possível admirar o famoso skyline de Frankfurt com seus inúmeros prédios modernos concentrados na área central. A nova sede do Banco Central Europeu (a antiga fica no distrito financeiro) fica mais afastada, mas também é contemplada no roteiro. Outro edifício que chama a atenção é a Torre Westhafen.

Skyline da cidade, com vista para o prédio da nova sede do Banco Central Europeu Foto: Jochen Keute,Deutsche Zentrale für Tourismus e.V. / Divulgação

Mais importante do que cerveja

Quem não sabe qual é a bebida típica de Frankfurt pode achar que é apenas uma construção cilíndrica com vidros triangulares. Essa aparência não é por acaso. É uma homenagem ao formato do copo de apfelwein. O vinho de maçã é típico nessa parte da Alemanha, e os frankfurtes se orgulham muito dele. 

Copo de apfelwein, bebida típica local Foto: Rafaela Ely / Arquivo Pessoal

A bebida se parece com sidra, mas os locais não gostam quando essa comparação é feita. É tamanha a importância do precioso líquido no município que os biergartens — os célebres jardins de cerveja alemães — aqui são substituídos pelos apfleweingartens.


 
 
 
 
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