Viagem

Lençóis Maranhenses: um guia para visitar o destino com atrativos de sobra mesmo na baixa temporada

Conhecer o Parque Nacional fora do período de "boom" turístico – entre junho e setembro – é curtir o paraíso com mais sossego e gastar menos

17/04/2017 - 20h00min | Atualizada em 18/04/2017 - 16h04min
Lençóis Maranhenses: um guia para visitar o destino com atrativos de sobra mesmo na baixa temporada Edivaldo Ugarte/divulgação
Parque Nacional do Lençóis Maranhenses tem 156 mi hectares, dos quais 80% é formado por dunas Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação  

Se a estação do ano costuma determinar a escolha do destino das férias, e o sol é fator decisivo quando se pensa em cenários praianos, seguir essa lógica ao cogitar conhecer o Maranhão é um equívoco. Isso porque não há chuva ou tempo nublado que faça o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses – principal atrativo do Estado – ser menos atraente. O clima também não macula a beleza extraordinária desse paraíso no meio do Nordeste brasileiro.

Seja na alta temporada – de junho a setembro, quando as lagoas estão bem cheias –, ou na baixa, que engloba os períodos de chuvas, não falta programação para todos os turistas: dos mais cautelosos aos mais aventureiros. Portanto, não hesite em visitar os Lençóis fora do período de "boom" turístico. Além de evitar a muvuca, os preços são bem mais sedutores. E nada diminui a perplexidade do visitante diante da imensidão com que depara ao entrar na reserva de 156 mil hectares – desses, 80% tomados por dunas.

Não é à toa que, segundo os guias locais, muita gente não contém a emoção diante da beleza e imponência do que vê. Comigo não foi diferente. Em quatro dias de viagem ao Estado, pude experimentar o contraste entre a riqueza plástica do local e a simplicidade do povo gentil e hospitaleiro, que vive basicamente do que produz.

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Barrerinhas

O principal acesso ao parque se dá por Barreirinhas, cidade a 250 quilômetros da capital, cercada pelas águas do Rio Preguiças. O percurso até lá leva cerca de quatro horas de carro. Nas ruas da pequena cidade, por todos os lados, o que mais se vê são motocicletas. É, disparado, o meio de transporte mais utilizado, inclusive, por adolescentes. Não se surpreenda, aliás, se cruzar com uma família inteira sobre duas rodas, ou com alguém transportando mudança em cima de uma delas. Disputando com elas as estreitas ruas de asfalto ou chão batido, tem os quadriciclos.

Com uma infraestrutura razoável, o que Barreirinhas oferece de mais atrativo à noite está na Avenida Beira-Mar, no centro, com uma calçadão repleto de pequenos bares e música ao vivo. Pode-se encontrar um artista a cada cem metros, com uma ampla opção de repertório para os mais diferentes gostos musicais. Uma das figuras com quem provavelmente você cruzará em algum ponto da sua viagem é Marquinhos, um cantor de MPB que é pura simpatia e carisma, sem contar que tem um cardápio musical de fazer todo mundo cantar junto. Só hits! É possível vê-lo tocar na Beira-Mar ou também no restaurante Bambaê.

Marquinhos, sempre acompanhado do seu violão, é uma das mais carismáticas e talentosas figuras da região Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

Garanta a lembrancinha

Quem não volta pra casa sem uma lembrancinha não vai deixar de percorrer os corredores da Galeria Arte da Terra. De ímã de geladeira a bolsas, porta-retratos e porta-joias cravejados de conchinhas, é um expoente do artesanato local que, certamente, vai lhe tomar alguns bem-investidos reais. É impossível resistir.

Transporte com emoção

Para os passeios que são feitos a partir de Barreirinhas, o transporte são as chamadas jardineiras, veículos com tração 4x4 adaptados com carroceria de bancos individuais, com as laterais abertas e teto coberto. A capacidade de cada uma é para 12 pessoas. É bom preparar o espírito e o corpo para sacolejar muito e desviar a todo momento dos galhos de árvores que, em alta velocidade, podem render algumas recordações nos braços como as lanhadas que eu trouxe de suvenir. Mas o que falta em conforto sobra em diversão e adrenalina.

Foto: Cristiane Bazilio / Agência RBS

Povoado de Tapuio e a Casa da Farinha

Foi numa dessas jardineiras que nos locomovemos, em ruas de chão batido e cruzando pequenos alagamentos, frutos das chuvas que caem torrencialmente nas noites de março, quando estive lá com um grupo de nove jornalistas mulheres. Nosso destino: o povoado rural de Tapuio. Antes, foi preciso atravessar em uma balsa que transporta seis veículos por vez, até o outro lado do rio que separa o centro da cidade de comunidades como essa e das áreas de preservação ambiental.

Lá, é interessante visitar a Casa da Farinha e ver como famílias inteiras se envolvem no processo de fabricação do alimento, desde a plantação da mandioca até a venda ao consumidor. O espaço é aberto para as famílias da comunidade trabalharem, mas quem toca o lugar é Dona Maria, Seu Zequinha e o filho, Zé Maria. Eles fazem questão de ressaltar que os pequenos só participam das etapas sem risco.

– Não tem exploração ou trabalho infantil nem nada assim. Trata-se de cultura, ensinamento para que eles cresçam sabendo como e de onde tirar o sustento das suas famílias mantendo a tradição – explica Zé Maria.

-R$ 60 por pessoa para passeio em grupo

Conhecer o processo artesanal e familiar de produção da farinha é uma das atrações disponíveis a quem visita o Maranhão Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

Stand up paddle

Às margens de uma linda praia de rio chamada Praia do Tapuio, é possível praticar stand up paddle em águas mansas e de temperatura amena. Quem já praticou, como eu, certamente se perde no horizonte infinito e, quando percebe, está longe da margem. Mas mesmo quem nunca subiu numa prancha pode desfrutar desse momento de lazer com o auxílio de instrutores locais e a proteção de coletes salva-vidas. 

Não tenha medo de cair, porque um mergulho é revigorante e não dá mais vontade de sair lá de dentro. Para finalizar, nada melhor do que, ao final da atividade, ser surpreendido com água de coco geladinha e mandioquinhas fritas feitas ali mesmo.

-R$ 100 por pessoa por uma hora de atividade

Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

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Circuito Barreirinhas

Após cerca de uma hora e meia embrenhados em mata fechada, enfim chegamos à porta dos lençóis para os três circuitos de Barreirinhas: Lagoa Azul, Lagoa Bonita e Lagoa da Esperança. São inúmeras lagoas naturais que surgem no sobe e desce de dunas, em meio a uma imensidão de areia tão clara e imponente que dói os olhos, ao mesmo tempo em que arranca suspiros e expressões incrédulas.

Nenhuma lagoa é igual à outra, tanto na forma quanto na cor ou na quantidade de água – nesse caso, depende da época do ano em que se visita, já que elas enchem com as águas da chuva. Mas não se preocupe: sempre haverá alguma lagoa com água para receber os visitantes em qualquer época do ano. Algumas nunca secam completamente, garantem os guias. Ora a água é esverdeada, ora azul cristalina, ora marrom. Algumas dunas chegam a 60 metros de altura. Elas nunca estarão nos mesmos lugares ou terão as mesmas formas de um ano para o outro, graças à ação dos ventos.

O calor é intenso, e a caminhada é longa e exige disposição. Por isso, até quem é louco por sol, como eu, vai agradecer se ele der uma folga durante a maratona. Mesmo para quem foge da atividade física – o que também é o meu caso – é um pequeno sacrifício que revela, a cada aparição de água, uma recompensa inigualável. E a maior delas é se jogar num banho ao final.

-R$ 100 por pessoa para passeio em grupo

Foto: Cristiane Bazilio / Agência RBS

Comunidade Cardosa

Na divisa dos municípios de Barreirinhas e Paulino Neves, separados pelos rios Preguiças e Formiga, fica a Comunidade Cardosa, onde fizemos um dos passeios mais divertidos e relaxantes da viagem. Por cerca de uma hora, descemos o rio flutuando sobre boias, apreciando a vegetação abundante, com destaque para as vitórias régias, que, em determinados pontos, cobrem quase totalmente alguns trechos de água.

O volume do rio determina a velocidade da descida, e o passeio conta com paradas para banho. O trajeto é acompanhado por experientes guias que descem o rio a nado em meio aos turistas e que são, literalmente, uma mão na ¿boia¿ quando alguém se embrenha pela mata ou é desgarrado do grupo pelo fluxo de água.

Ao longo do percurso, fui surpreendida ao avistar famílias morando em locais inimagináveis. Casinhas simplíssimas em meio à mata, na beira do rio, onde mulheres lavam roupas e crianças tomam banho nuas com direito a xampu e sabonete.

Trajeto completo, não deixe de provar um delicioso café com tapiocas quentinhas na chegada à margem. Um deleite para repor as energias.

-R$ 80 por pessoa, incluindo transporte na jardineira

-R$ 4 a tapioca (cafezinho cortesia)

Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

Onde comer em Barreirinhas

- Restaurante Bambaê – Na beira do Rio Preguiças, tem um cenário deslumbrante, redes e espreguiçadeiras, além de música ao vivo. A comida a la carte é excelente. Especialidade: peixe grelhado e farofa de carne seca.

-Restaurante da pousada Buruti – Também é aberto ao público que não está hospedado. Serve a la carte, e a especialidade é o filé de pescada empanado com farinha de castanha de caju crocante. Não leva nada de farinha, e o sabor é incrível!

-A Canoa – No centro da cidade, à beira-mar. Tem ótima vista e uma caipirinha de buriti imperdível. Experimente acompanhar com os bolinhos de camarão salpicados na geleia de pimenta.

Onde ficar 

-Pousada Encantes do Nordeste Fone: (98) 3349-0260 / 98857-4425. Diárias por casal a partir de R$ 270 (baixa temporada) até R$ 358 (alta).

- Pousada Buriti Fone: (98) 3349-1802. Diárias para casal a partir de R$ 285 (baixa) a R$ 369 (alta).

-Porto Preguiças Resort Fone: (98) 3349-6050. Diárias para casal a partir de R$ 370 (baixa) a R$ 646 (alta).   

Passeio de lancha pelo Rio Preguiças rumo a Atins

Outro acesso ao parque é por Atins, um lugar muito mais rústico, para quem curte uma pegada isolada e desconectada da tecnologia. Aliás, esqueça o celular e a internet. Por mais lindo que seja o lugar e por maior que seja a sua vontade de compartilhar com os amigos a experiência incrível que é estar lá, conforme-se, pois suas fotos e vídeos serão publicados nas redes sociais com um considerável delay, já que, com sorte, você só conseguirá sinal de internet ao chegar na pousada em que estiver hospedado, ao final do dia, e dependendo do grau de infraestrutura que o local oferecer.

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Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

A entrada na vila de pescadores – que, pasmem, só recebeu energia elétrica no ano passado – se dá depois de quase duas horas de lancha pelo Rio Preguiças. De um lado, ela é banhada pelas águas do Rio Preguiças e, do outro, pelo Oceano Atlântico, promovendo uma mistura incrível de água doce com salgada.

No caminho, a paisagem é ilustrada pela frutinha mais famosa da região, o buriti, da qual eles aproveitam tudinho: da fibra à palha e ao fruto. Atenção, amantes da caipirinha: experimente a de buriti. Aposto que vai querer levar para casa baldes da iguaria. Outro queridinho da geração saúde dá aos montes nas árvores da região: o açaí.

Foto: Cristiane Bazilio / Agência RBS

Desembarcamos nos Pequenos Lençóis, numa comunidade de pescadores chamada Vassouras. O artesanato local é de deixar a mulherada enlouquecida. Rendas, saídas de banho, chapéus, suvenires... Mas tome cuidado e não faça como a repórter aqui, que se distraiu e perdeu a melhor parte dessa parada: flagrar macaquinhos exibicionistas dispostos a posar para as câmeras e celulares em cima das árvores. Por sorte, sempre tem uma colega de viagem disposta a compartilhar um clique.

Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

-R$ 70 por pessoa, em grupo

-A partir de R$ 400 em lancha privada

Foto: Cristiane Bazilio / Agência RBS

Farol Preguiças

Descanso é para os fracos. Por isso, a próxima parada é o Farol Preguiças, no povoado de Mandacaru. O esforço de subir 160 degraus é recompensado com uma vista de tirar o fôlego. Lá de cima, é possível avistar o fenomenal encontro do rio com o mar. Não se paga para entrar, e o local fica aberto das 8h30min às 11h30min e das 13h30min às 17h.

Subir a escadaria do Farol é ser contemplado com uma vista incrível do encontro do rio com o mar Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

Aventura sobre quatro rodas

Confesso que, ao ler a programação da viagem, meus olhos brilharam ao identificar a palavra ¿quadriciclo¿. Quem gosta de dirigir e de adrenalina como eu certamente vai compartilhar da empolgação que senti ao longo de quase três horas de trajeto na volta de Caburé a Barreirinhas.

Graças à gentileza e à coragem da minha parceira de veículo, que me deixou pilotar em tempo integral, aventurando-se na minha carona enquanto filmava as nossas desventuras, pude curtir à exaustão a melhor atividade dos quatro dias.

Antes da partida, uma aula básica de como manusear o ¿bichinho¿. Acelerador no guidão (o que é um perigo na hora do susto, já que, por impulso, a tendência é apertar o que tiver nas mãos e, assim, acelerar em vez de frear), marchas no pé e avante!

Sobe duna, desce duna, atravessa rio ao melhor estilo rally. Há quem atole, há quem quase vire. Há que se aguardar o guia entrar na água para indicar o melhor ponto de travessia. E como ninguém é de ferro, há que se fazer uma pausa para um banho de lagoa antes de seguir caminho. E não se assuste com o que parece um tempo muito longo de viagem. Tem passeios curtinhos também. Mas eu garanto que, ao fim da jornada, você vai lamentar e querer mais um pouquinho.

-R$ 30 para 15 minutos de passeio – cada minuto extra custa R$ 2

- R$ 350 por quadriciclo para trajeto entre Caburé e Barreirinhas

-Menores de 18 anos só podem ir na garupa

Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

Onde ficar em Atins

-Pousadas Jurará e Vila Jurará Fones: (98) 98726-9007 / (98) 99217-1702. Diárias por casal em ambas a partir de R$ 280 (em baixa temporada) até
R$ 350 (em alta)

Onde comer 

Não deixe de visitar o aconchegante e delicioso restaurante do Antônio, comandando por seu Antônio e sua esposa, dona Magnólia. Lá, eles servem o mais incrível camarão e peixe grelhado que já experimentei na vida. Com cores, aromas e sabores indescritíveis – e tamanho surpreendente –, é uma preciosidade do local, de comer ¿chorando¿ e até dizer ¿chega!¿. A porção do camarão custa R$ 80 e serve bem duas pessoas, acompanhado de arroz, salada e feijão (foto 8). A pescada amarela com tempero de urucum custa

R$ 70 e também serve duas pessoas.

Foto: Edivaldo Ugarte / divulgação

Depois de sair da mesa, é só escolher uma das dezenas de redes (foto 9) que o local oferece em um espaço anexo e dar aquela descansadinha.

Foto: Cristiane Bazilio / Agência RBS

Sinal amarelo para os pequenos

Todos os passeios exigem disposição e resistência para deslocamento, caminhadas e aventuras, sem contar que se passa muito tempo na rua e, a qualquer momento, pode-se ser surpreendido por uma pancada de chuva. Por isso, não é o programa mais adequado para crianças pequenas. Elas podem acabar limitando as possibilidades de passeio.

Programe-se

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses não é um lugar aconselhável para visitar por conta própria, pela grandeza e pela complexidade dos caminhos a percorrer e por conta de regras locais que proíbem o acesso de carros a partir de determinados pontos de preservação.

-Para aproveitar o melhor de todos os atrativos e em segurança, programe sua viagem com uma agência de turismo, que, geralmente, oferece pacotes com preços mais acessíveis para passeios em grupos.

-Nós fizemos com a Taguatur Turismo (taguaturonline.com.br), que tem pacotes a partir de R$ 560 por pessoa, incluindo city tour em São Luís, traslados a Barreirinhas, passeio de lancha pelo rio Preguiças, passeio de 4x4 até o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e um dia de hospedagem em apartamento duplo com café da manhã na pousada Encantes do Nordeste.

Não pode faltar na mala

-Repelente – Use e abuse. Besunte-se da cabeça aos pés sempre antes de sair porque os mosquitos fazem a festa nos corpinhos dos desavisados.

-Protetor solar – Não importa a época, não se engane com o tempo nublado e aparente falta de sol. Após horas na rua, você vai sentir o efeito na pele.

-Capa de chuva – Em baixa temporada, a chuva chega quando menos se espera. Geralmente, ao entardecer e madrugada a dentro. Esteja preparado.

*A repórter viajou a convite do trade turístico do Maranhão.


 
 
 
 
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