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Passeio pela Costa dos Corais, no Nordeste, une lazer com participação em ações ambientais 

Passeios incluem mergulho nos corais e seguir a trilha do peixe-boi 

09/05/2017 - 09h00min | Atualizada em 09/05/2017 - 09h00min
Passeio pela Costa dos Corais, no Nordeste, une lazer com participação em ações ambientais  Rafael Munhoz/Divulgação
Foto: Rafael Munhoz / Divulgação  

Quem quiser saber sobre o litoral brasileiro e a vida marinha precisa, obrigatoriamente, colocar no vocabulário um nome comprido, com uma sigla que lembra alguma entidade de classe: Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (Apacc).Estamos falando da maior extensão de conservação federal marinha do Brasil: 413 mil hectares que abraçam 10 municípios em Alagoas e três em Pernambuco. 

Fale com qualquer pesquisador da área, dificilmente ele deixará de usar a expressão ¿berçário da vida marinha¿ para explicar a Apacc. E não é falta de criatividade, mas a pura realidade diante de mais de 185 espécies de peixes registradas, sem contar animais em risco de extinção, como a tartaruga marinha e o peixe-boi. 

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A convite da Fundação Toyota do Brasil, parceira do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na Costa dos Corais, cruzei a APA de ponta a ponta, entre Tamandaré (PE) e Maceió (AL). Na programação, praias de areias brancas, piscinas naturais formadas por recifes de corais e áreas de manguezal.

– A visitação é fundamental. Não se preserva aquilo que não se conhece. Mas tem de ser orientada e organizada – afirmou no começo da jornada, em Tamandaré, o chefe da Apacc, Iran Normande.

Tamandaré é o município que serve como sede da unidade de conservação. Lá, uma Zona de Proteção da Vida Marinha funciona como ¿poupança de peixe¿, onde as espécies se multiplicam e se espalham. São corais a perder de vista, e uma das atrações ao longo da costa sob proteção da Apacc. 

O turista interessado em desbravar as diversas iniciativas no guarda-chuva da Apacc irá percorrer 120 quilômetros, iniciando em qualquer praia e escolhendo suas paradas. Em algumas praias, catamarãs com guias oficiais levam visitantes aos pontos onde a prática de mergulho livre, o snorkel, é permitida. São piscinas cristalinas com água na altura do peito. Mas nada de movimentos bruscos: é preciso se deixar flutuar sobre os corais para observar os cardumes no entorno sem espantá-los. 

Uma forcinha às tartarugas bebês

No litoral norte de Maceió, vale a pena dar uma paradinha na Praia da Sereia, junto ao belo mirante construído na orla. Não tem como errar, fica junto à rodovia AL-101 Norte (Avenida General Luiz de França Albuquerque). Cuidado, estrada movimentada, e o acostamento junto ao mirante tem pouco espaço para estacionar.

De cima, se avista a escultura da sereia que dá nome à praia, construída sobre a barreira de coral. O lugar também oferece uma piscina natural que atrai muitas famílias com crianças pequenas. Mas os pequenos, mesmo, podem estar longe da vista, enterrados na areia. Estacas brancas na areia identificam onde uma mamãe tartaruga já colocou suas dezenas de ovos.

Os integrantes do Instituto Biota de Conservação são os guardiões das tartaruguinhas, e contam com a ajuda da comunidade. Pela manhã, conferem se há rastros que sinalizam onde ocorre uma nova desova. Cerca de 45 dias depois, começam a conferir se há sinais de nascimentos. 

Sempre que possível, compartilham nas redes sociais o convite para seguidores testemunharem a ida dos filhotes para o mar, persistindo a cada onda que os joga de volta na praia. 

Foto: Rafael Munhoz / Divulgação

Mergulho em mar cristalino

Para alegria dos visitantes, os passeios às piscinas naturais formadas pelos recifes costeiros estão autorizados na Costa dos Corais. Há uma série de catamarãs autorizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade Brasileira (ICMBio) para levar turistas às áreas permitidas para a prática de mergulho livre, o snorkel.

Não se assuste com a palavra mergulho, porque essa modalidade não exige condicionamento físico ou saber nadar nos pontos em que a água chega à altura do peito. Graças à máscara, é possível observar os corais, os peixes que nadam no entorno deles e os ouriços em suas tocas. Mas não toque neles, na verdade, não toque em nada. 

Para quem tiver dificuldade em boiar (ótimo para passar por cima dos corais), um colete salva-vidas pode ser usado. Mas não pense que é só chegar, chamar um catamarã no smartphone e ir. Há regras, que devem ser respeitadas, como os horários de maré seca. Por isso, há uma lista de catamarãs autorizados para os passeios. As pousadas e hotéis locais oferecem os contatos aos hóspedes. 

Os preços dos passeios de catamarã, com mergulho, variam conforme a praia, mas ficam em torno de R$ 75. Sugestões de passeios em icmbio.gov.br.

Na trilha do peixe-boi marinho

Quando se pensa que tudo na Apacc é mar, corais e peixinhos coloridos, se chega ao Rio Tatuamunha, em Porto de Pedras (AL). Lá está o turismo ecológico de base comunitária em essência: comunidades que matavam o peixe-boi marinho, hoje, são aliadas na sua preservação. A experiência antes usada para perseguir e caçar agora serve para proteger.

É um passeio de mais ou menos 1h30min pelo rio, em jangadas empurradas por varas que tocam o leito. A profundidade, por isso mesmo, é pequena. Em certos pontos, a água não passa da canela. Caso a sua companhia de viagem fale demais, o momento é de pedir para ela fazer um pouco de silêncio: ouça o Tatuamunha. É uma das poucas oportunidades para escutar a natureza em um ambiente de zero ação humana. Os guias, sempre falando baixo, tratam de explicar tudo o que está à volta do visitante.

– Nós treinamos o pessoal para saber o que fazer quando avistar um peixe-boi encalhado, por exemplo. Os passeios têm número reduzidos de participantes, é preciso agendar. É o mínimo de intervenção possível no ambiente – explica a presidente da Associação Peixe-Boi, Flávia Rêgo.

Em barcos sem motor, manobrados por varas, percorremos o rio observando o manguezal até chegar ao local onde o Tatuamunha ganharia um novo morador: no dia 29 de março, pela 46ª vez desde 1994, um peixe-boi marinho foi devolvido ao rio (ele consegue ir ao mar, mas é no rio que se alimenta e multiplica). Chamado de Diogo, o animal de seis anos foi resgatado no Rio Grande do Norte e reabilitado até ser considerado apto para deixar o cativeiro. Com seus 2,5 metros e 314 quilos, Diogo deu um certo trabalho às 20 pessoas que, com uma rede, o guiaram para fora da área cercada que serve para acostumar o animal com o hábitat.

É claro, há paradas em pontos estratégicos para favorecer o avistamento do peixe-boi. Ele poderá passar muito perto do barco, ao alcance da mão. Mas é evidente que você não vai pensar em tocar nos animais. O turismo é de observação. Informações pelo site www.associacaopeixeboi.com.br.


Foto: Rafael Munhoz / Divulgação
 
 
 
 
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