América do Sul

Inverno de verdade: ainda dá tempo de aproveitar a neve na Argentina

O frio que mal deu as caras no Rio Grande do Sul segue forte nas cidades que têm turismo de inverno na Argentina. Estivemos em San Martín de Los Andes e Villa La Angostura, que oferecem neve, esqui e uma vivência diferente

04/09/2017 - 19h00min | Atualizada em 04/09/2017 - 19h00min
Inverno de verdade: ainda dá tempo de aproveitar a neve na Argentina Sara Bodowsky/Agencia RBS
Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS  

Já tinha feito Buenos Aires-Ushuaia de ônibus leito em 2013. Foram 36 horas pela Patagônia argentina em uma desconexão digital salutar.

Além de me embasbacar com os espetáculos que são El Calafate e seu glaciar e o Ushuaia, na Terra do Fogo, foi também a primeira vez que vi neve. Por um descaminho do destino, quando eu ia a um cerro, começava a nevar em outro. Passei por vários lugares nevados desde então, mas nunca tinha visto nevar de verdade.

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Em agosto, fui descobrir outra região encantadora: San Martín de los Andes e Villa La Angostura, cujas estações de esqui seguem abertas (e cerca de 30% mais baratas) até o fim de setembro. Conheci uma outra Argentina, com suas estações de esqui e cidades pitorescas à beira dos lagos. E, finalmente, vi a neve cair.

A superpop San Martín de los Andes

San Martín de los Andes fica na província de Neuquén, a cerca de 190 quilômetros de Bariloche. A melhor maneira de chegar lá é pelo aeroporto de Chapelco (há voos diretos de Buenos Aires pela Aerolineas Argentinas).

Chapelco também é o nome da estação de esqui que fica na cidade (aberta até 1º de outubro). Eleita nos últimos dois anos como a melhor da Argentina, é superpop. Recebe milhares de turistas argentinos e estrangeiros todos os anos (mesmo fora da alta temporada e em dia de semana, estava muito movimentada).

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

Foi minha primeira experiência esquiando. Roupas, luvas, capacete e óculos foram alugados na cidade. Em Cerro Chapelco, foram fornecidas as botas e os equipamentos para o esporte. Quando não estava na pista, desconectava as botas dos esquis e praticamente tinha de reaprender a andar — são bem duras e não te deixam flexionar os pés. Tivemos duas horas de aula — vários instrutores estão por lá. Os novatos andam em bandos, especialmente as crianças.

O início é complicado, não vou mentir. Os esquis são um prolongamento estranho para os pés. Cheguei ao cúmulo de cair parada. Sim, estava sobre os esquis e simplesmente adernei para a direita e me estatelei sobre um monte de neve fofa. Por isso, aprender a cair precisa ser a primeira lição.

Após duas horas, já arriscava deslizar alguns metros. Segundo os instrutores, cinco dias de aula são ideais para você se aventurar nas pistas com inclinações menores. Tem também o snowboard — dizem que é mais difícil no começo, mas é mais rápido para pegar o jeito.

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

Chapelco também oferece passeios em trenós puxados por cães. Apesar de bem tratados e cuidados com carinho pelos condutores — que vão atrás, em pé, enquanto o passageiro fica sentado —, desde Ushuaia essa ideia de um lazer com perros que não seja fazer festa e correr livre com eles me desagrada.

Chá com vista

Um dos lugares mais bacanas de San Martín de Los Andes é a casa de chá Arrayán. Foi inaugurada em 1939 por Renée Dickinson, uma inglesa que, maravilhada com o lugar, fez morada nesse morro com vista para o Lago Lácar. Casou-se com um homem do povoado, mas o relacionamento durou pouco mais de um ano. Em seguida, reencontrou o amor de sua vida, um jornalista também inglês. Pouco tempo depois, faleceu.

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

O marido espalhou as cinzas nos jardins de Arrayán, que foi, em seguida, vendido. A família que hoje toca o lugar cuida dele com carinho e mantém viva a história de Renée. Servem chá, doces deliciosos e salgados. A vista é espetacular. Vá com tempo. Mais em hosteriaarrayan.com.ar.

A intimista Villa La Angostura

Um vilarejo que lembra casinhas de boneca, colocadas lado a lado. As lojas de chocolate arrebatam assim que se abre a porta — é um aroma delicioso, nunca senti igual.

A cidade é pet friendly ao extremo. Boa parte dos cães que vagam pelas ruas são comunitários. Eles não se aproximam pedindo comida. Bem alimentados e castrados, tudo o que querem é festa e carinho. Isso se você não encontrá-los dentro das lojas, aproveitando a calefação e exercendo um nada sutil reinado na cidade.

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

Cerro Bayo é a estação de esqui que fica junto a Villa La Angostura (aberta até 24 de setembro). Foi a de que mais gostei. Menor, mais intimista e, de certa maneira, mais familiar. Foi ali que, de repente, começou a cair a neve. E a partir de então, tivemos uma nevada quase o tempo todo.

Acompanhados de uma guia autorizada, subimos ao cume da montanha, onde só vão os esquiadores mais audazes, 1.810 metros acima do nível do mar. Ali, entendi porque a montanha e a neve seduzem tantas pessoas.

Apesar de praticamente congelando, em uma área de acesso restrito, com o vento batendo forte e levantando a neve fofa e leve, a sensação de plenitude e calma é imensa. Quem chega ao topo de uma montanha, especialmente em meio ao espetáculo que é ela coberta de neve, sabe que, em algum momento, terá de voltar.

Neve e vinho

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

Fiz questão de almoçar em um deck sob a nevada, ao ar livre. Tomando uma taça de vinho e comendo um goulasch. Que, é claro, esfriou rapidinho com a temperatura — a sensação térmica chegava a -7°C.

O centenário hotel Correntoso

Deslumbrante é pouco para definir o Hotel Correntoso, aberto em 1917 (correntoso.com). A vista esplendorosa para o lago que dá nome ao hotel faz o hóspede pensar duas vezes em sair do quarto.

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

As janelas são gigantescas — a dica é deixar as cortinas abertas para ser despertado pela luz refletida nas águas plácidas do rio. O hotel fica exatamente sobre a união do Rio Correntoso com o Lago Nahuel Huapi. A região é cheia de história. O Correntoso também se destaca pela qualidade do seu restaurante e pela carta de vinhos argentinos que oferece.

Os sete lagos da cinematográfica Ruta 40

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

Pouco mais de cem quilômetros separam San Martín de los Andes de Villa La Angostura. Mas, o roteiro cênico da Ruta 40 pode (e deve) levar horas. São sete lagos. A partir do Lácar (que não é contado, ou se conta e se deixa de fora o Nahuel), estão, na ordem: Machónico, Villarino, Falkner, Lago Escondido, Espejo, Correntoso e Nahuel Huapi (esses dois já junto de Villa La Angostura).

Foto: Sara Bodowsky / Agencia RBS

*Sara Bodowsky é apresentadora da rádio 102.3 e colunista de Zero Hora. Também é autora do blog Roteiro da Sara. Ela viajou a convite da Inprotur, agência de fomento ao turismo do governo da Argentina


 
 
 
 
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