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The New York Times

Passeios de skate ajudam a enfrentar crise da meia-idade

Homens grisalhos destão recobrando a juventude e a rebeldia ao subir novamente no shape

25/05/2012 | 04h24
Passeios de skate ajudam a enfrentar crise da meia-idade Ivan Pierre Aguirre/NYTNS
O professor Bill Robertson se junta com outros colegas de 40 e poucos anos em uma pista de skate Foto: Ivan Pierre Aguirre / NYTNS

 
Um som estridente, entre um chacoalhar e um estrondo, surgiu no alto de uma colina suburbana em Nova Jersey. Os personagens, vestidos em roupas de couro e capacete, começaram a aparecer, um, dois, três, até que havia quase 20 deles, montados em skates, como um esquadrão de vilões sobre rodas.

Um a um, os skatistas fizeram uma curva, levando as mãos protegidas por luvas ao asfalto, enquanto deslizavam por uma ladeira, garantindo que ninguém fosse para o meio da rua e acabasse esmagado nas grades de um Buick.

No fim da colina, o líder dos Bergen County Bombers, como é conhecida a gangue dos skatistas, retirou o capacete preto de motociclista, revelando um agente hipotecário com manchas brancas na barba e pés de galinha adquiridos ao longo de décadas de colarinho branco.

— É uma completa crise de meia-idade — afirmou o líder do grupo, Tom Barnhart, de 47 anos, morador de Cresskill, Nova Jersey, que voltou a andar de skate há dois anos – pela primeira vez desde o governo Carter. Sua vida, segundo ele, estava um marasmo.

— Meus filhos cresceram, então arrumei um cachorro. Meu cachorro cresceu, então arrumei um skate.

— Foi isso que tirou as teias de aranha da minha cabeça — acrescentou.

Esqueça o carrinho esportivo vermelho. O novo símbolo da crise da meia-idade é o skate. Membros grisalhos da geração X, e até mesmo seus irmãos mais velhos, estão recobrando a juventude e a rebeldia ao subir novamente no shape de seus skates. Alguns estão até mesmo mostrando velhas manobras na pista de skate.

Esse é o último suspiro de uma geração de eternos jovens, que ouviam Black Flag em suas BMWs e trocavam high-fives em reuniões de negócio. É uma forma de escapar da máquina corporativa, de trazer de volta seu vigor típico e até mesmo fazer jus a um clichê de sua geração: estender a adolescência até a porta do asilo.

— Os tiozinhos skatistas estão dando o troco — afirmou Michael Brook, editor da Concrete Wave, uma revista sobre skate com sede em Ontário, no Canadá.

De fato, os tiozinhos skatistas estão se tornando um lugar-comum na cultura pop. Uma recente sátira no The Onion trazia a manchete "Homem de 43 anos com skate não engana ninguém", incluindo uma foto em close-up de Tony Hawk, a estrela do skate, com uma aparência envelhecida sob o capacete. Dave Carnie, o escritor brincalhão e antigo parceiro de Johnny Knoxville no seriado "Jackass", lançou uma linha de shapes com a Tum Yeto skateboards, chamada Fat Old Guy Skateboards, voltada para skatistas que "acabaram de acordar de um coma e acreditam que ainda estamos em 1984", contou.

E por que não? O próprio skate está chegando à meia-idade. Como os membros mais velhos da geração X, o esporte nasceu nos anos 1960. Seus pioneiros chegaram à idade em que estão terminando de pagar suas hipotecas e as mensalidades da faculdade de seus filhos.

— Tony Alva e eu brincamos a esse respeito — afirmou Stacy Peralta, que, junto com Alva, era membro dos lendários Z-Boys, um grupo de skatistas de Venice, Califórnia, nos anos 1970. Conforme descrito no documentário "Dogtown and Z-Boys", feito por Peralta em 2001, eles invadiam casas desocupadas no subúrbio, esvaziavam as piscinas e andavam de skate dentro delas.

— Quando éramos jovens, isso era tão novo que nunca poderíamos imaginar que ainda estaríamos fazendo isso aos 50 anos — afirmou. — A ideia de que meu pai poderia fazer a mesma coisa que eu estava fazendo na piscina era inédita.

Mas agora, Peralta tem 52 anos e um filho de 21, e é exatamente isso que ele está fazendo, passando os fins de semana em uma pista de skate de última geração próxima de sua casa em Santa Monica, na Califórnia.

— Ela tem transições lindas e curvas sinuosas, muito diferentes das piscinas perigosas onde andávamos quando éramos jovens — afirmou Peralta. — Eles finalmente descobriram como projetar uma pista de skate que seja delicada com homens de meia-idade.

Mas não são apenas as pistas que se tornaram mais delicadas. Os próprios skates agora são mais suaves e adaptados ao público adulto, graças ao segmento cada vez maior dos longboards.

Os longboards são os sedãs de luxo do mundo do skate. Normalmente eles têm entre 101 e 121 centímetros de comprimento, comparados com os shapes de rua tradicionais, que têm cerca de 81 centímetros. Equipados com rodas maiores e mais macias, para enfrentar buracos e pedras na calçada, eles não são projetados para realizar manobras e saltos, mas para passeios tranquilos e para atrair skatistas que não querem mais correr o risco de quebrar ossos ao fazer um grind ou um olly, como quando eram adolescentes.

— É como andar de snowboard — afirmou Brian Petrie, fundador da Earthwing, uma fabricante de skates com sede em Nova York. — Em pouco tempo, qualquer um é capaz de aprender a dar impulso, virar e parar.

As como a Honey Skateboards, de Colorado, a Bustin Boards, de Nova York, e a Original Skateboards, de Nova Jersey, relatam um aumento nas vendas para skatistas mais velhos. Isso corresponde a um notável envelhecimento do público skatista. O número de praticantes com mais de 35 anos praticamente dobrou na última década, de 404.000 para 742.000, e agora corresponde a 10 por cento do mercado, de acordo com a Associação Nacional de Artigos Esportivos, uma associação comercial de Mount Prospect, em Illinois.

Ainda que os longboards sejam mais delicados com os skatistas mais velhos, o sentimento que eles suscitam é o de juventude eterna, afirmam seus adeptos. O skate tem o apelo contracultural que a bicicleta sem marcha e a raquete de tênis não têm. Ele é um talismã da rebeldia juvenil, um gesto rude à responsabilidade dos pais de família. Não é somente uma maneira de se exercitar. É uma forma de romper (idealmente, não os ligamentos do joelho).

— Quando você sobe em um skate, todos os seus músculos entram em ação ao mesmo tempo e com um só objetivo — afirmou Chadd Hall, um gerente de TI de 39 anos, em Atlanta, que foge do trabalho no horário do almoço para andar em seu skate Rayne de 99 centímetros. — Você não tem muito tempo para pensar em todas as coisas que compõem a vida de uma pessoa de 40 anos: como as crianças estão se saindo na escola, todas as pessoas do trabalho que precisam de você para alguma coisa. Tudo isso vai embora.

A mística contra a autoridade não se perdeu para Joe Borress, um empreiteiro de 41 anos da cidade de Greenwich, em Connecticut, que começou a andar de skate há dois anos e agora vai do Grand Central Terminal até o trabalho, no SoHo, em seu Bustin Maestro de 96 centímetros.

— O skate lembra: juventude, punk, rebeldia — afirmou. — Ele tem essa conotação de algo mau.

E não são apenas os homens. Annie Messick, dona de casa de 36 anos, de Gulf Breeze, Flórida, começou a andar de longboard no ano passado e afirma:

— Esse é o prazer que eu procurei a vida inteira.

Mas não podemos nos esquecer de que esse prazer também tem o seu custo. Don Bailey, gerente de tecnologia jornalística de um canal de televisão de Atlanta, de vez em quando aparece no trabalho com um arranhão. Seus colegas já nem se preocupam em perguntar.

— Eu descobri que o asfalto é muito mais duro — afirmou Bailey, que, aos 53 anos, está no extremo do espectro dos tiozinhos skatistas. — Você se rala inteiro, rala os cotovelos, então para em uma farmácia no caminho de casa e compra curativos, cobre os machucados da melhor maneira possível antes que sua esposa os veja.

Para aqueles que andam em grupos, o skate não é apenas uma revolta contra o envelhecimento, mas também contra o isolamento da meia-idade. O esporte dá aos skatistas de 40 e poucos anos ou mais a oportunidade de se encontrarem com os amigos de uma maneira que não faziam desde que se casaram e tiveram filhos.

Imagine a festa que é o Old Guy Skate Camp, realizado por Steve Morris, corretor imobiliário e entusiasta do skate de San Diego. Há muitos anos, cerca de 30 skatistas com mais de 40 anos se amontoam em um motorhome de luxo recheado com cerveja e carne assada e passam três dias viajando de uma pista de skate para outra no sul da Califórnia.

Todas as semanas em El Paso, no Texas, Bill Robertson, professor associado de pedagogia na Universidade do Texas, em El Paso, se junta com outros colegas de 40 e poucos anos em uma pista de skate, onde eles riem uns dos outros enquanto tentam dominar uma manobra aérea.

É verdade que eles são um pouco estranhos.

— Nós somos o grupo com capacete e proteção — afirmou.

Naturalmente, os adolescentes nem sempre ficam animados ao ver cabelos grisalhos invadindo a sua área. Quando Travis Cowan, um analista de rede de 48 anos da cidade de Columbia, na Carolina do Sul, apareceu em uma pista com um skate laranja fluorescente dos anos 1980 e com suas madeixas prateadas, skatistas com idade para serem seus filhos ficaram impressionados e lhe perguntaram:

— Você andava de skate em Dogtown?.

Normalmente ele os faz calar a boca ao fazer um board-rail grab invertido, afirmou.

Mais de uma vez, Gary Saenz, especialista em controle de qualidade de 52 anos da cidade de Germantown, em Maryland, estava andando em um parque industrial ou em novo conjunto habitacional, quando uma patrulha policial apareceu ameaçadoramente. Depois de se preparar para um conflito tenso com a autoridade, ele geralmente só recebe um olhar perplexo.

— Eles percebem que eu não sou um adolescente, mas só um cara gordo e de cabelos grisalhos —  afirmou.

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