Para acertar a dose

Especialistas debatem controvérsias na recomendação de vacinas

Sociedade Brasileira de Imunizações reúne conferencistas em evento no Rio de Janeiro

01/06/2012 | 15h16
Especialistas debatem controvérsias na recomendação de vacinas Roberto Scola/Agencia RBS
Novas possibilidades para imunização estarão em debate Foto: Roberto Scola / Agencia RBS

Recomendação da vacina contra o HPV para pessoas fora da faixa etária prescrita em bula, vacinação de gestantes e lactentes contra coqueluche, como proceder com os pacientes alérgicos à proteína do ovo e qual a melhor idade para aplicação da segunda dose da vacina contra varicela serão debatidos no Controvérsias em Imunizações, que reúne especialistas no Rio de Janeiro neste sábado.

Organizado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o evento terá conferencistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. O objetivo, segundo o presidente da SBIm, Renato Kfouri, é democratizar o acesso às informações de qualidade, atendendo ao estatuto da entidade que prevê o incentivo à educação continuada na área de imunizações.

Entenda alguns pontos em debate:

:: Vacinação de grávidas contra coqueluche

Com o aumento dos casos de coqueluche entre bebês, tendo os pais como os principais transmissores da bactéria causadora da doença, a indicação da vacina para grávidas e lactentes é um dos principais tópicos a ser debatido no evento. O tema, que será tratado pela médica Isabella Ballalai, presidente da SBIm — Rio de Janeiro. De acordo com Ballalai, a vacinação pré-natal representa melhor custo-efetividade, já que previne mortes em 51% dos casos (na vacinação pós-parto, esse índice cai para 21%).

— Vacinar a mulher durante a gestação significa aumentar a proteção nos primeiros meses de vida da criança — afirma a médica.

:: HPV para maiores de 26 anos

A indicação da vacina contra HPV para mulheres com mais de 26 anos está sendo considerada mediante os estudos que verificaram ser alto o índice daquelas que apresentam sorologia negativa para os tipos de HPV 16 e 18, causadores de câncer. De acordo com o vice-presidente da SBIm Nacional, Guido Carlos Levi, estudos mostram que 68% das mulheres com idade entre 26 a 35 anos estão suscetíveis. Entre as que têm de 46 a 50 anos, o percentual de suscetíveis é de 65,6%.

— Esses dados reforçam a importância da vacinação mesmo que a mulher esteja acima da faixa etária recomendada na bula. Embora a vacina não vá tratar infecções pré- existentes, ela ainda será útil para a prevenção da infecção por outros sorotipos — considera Levi.

Países como Austrália, México, Turquia, Índia, Equador, Filipinas e Macau já autorizam formalmente a vacina do HPV para maiores de 26 anos. O médico destaca que não há uma contraindicação específica para o uso da vacina nesses grupos, o que se discute é o benefício da indicação.

:: Prevenção da febre amarela em idosos

A validade da indicação para idosos da vacina que previne a febre amarela será discutida pelo médico José Geraldo Leite, da SBIm — Minas Gerais. O tema está em pauta devido ao maior risco de reações adversas em pessoas com mais de 60 anos.

— Sempre que o risco de contrair a doença por meio da picada do mosquito for maior do que o risco de reações adversas possíveis de ocorrer em idosos, a escolha deve ser pela imunização — defende o médico.

:: Antecipação da vacina contra varicela

A antecipação da primeira dose da vacina contra varicela (catapora) é outro ponto polêmico. A indicação atual é que a vacinação tenha início entre 12 e 15 meses de vida, para evitar a interferência de anticorpos maternos na resposta vacinal da criança. Contudo, já é conhecida a eficácia da aplicação de "dose de emergência" com o objetivo de prevenir a doença em bebês que tiveram contato com pessoas infectadas pelo vírus da varicela.

— Diante dessa constatação, vamos discutir as indicações e a proteção conferida aplicando a primeira dose antes de um ano e após os nove meses de idade e, nessa situação, como proceder posteriormente: serão necessárias mais uma ou duas doses da vacina? Quando aplicá-las? — questiona o médico Juarez Cunha, da SBIm— Rio Grande do Sul.

Outra discussão envolvendo a mesma vacina é se os especialistas irão recomendar a antecipação da segunda dose. O que motiva o debate é a possibilidade da ocorrência da doença em crianças já vacinadas com uma única dose e a comprovação de que a dose de reforço pode conferir proteção de até 100%.

:: Vacina inativada contra poliomielite em adolescentes

Existe risco de queda da imunidade contra a poliomielite no adolescente brasileiro, embora a imensa maioria tenha sido vacinada na infância, segundo a médica Luiza Helena Arlant, vice- presidente da Sociedade Latino-americana de Infectologia Pediátrica, que defende o reforço na imunização de jovens e adultos contra a doença.

— Indicamos a VIP para o viajante que se dirige a países nos quais ainda existe a doença, como é o caso de adolescentes que fazem intercâmbio fora do país, especialmente em países onde a pólio ainda existe em níveis endêmicos — explica Luiza.

De acordo com a médica, a doença em adultos é tão grave como em crianças, com uma letalidade bastante alta. O vírus da pólio ainda circula mesmo em países que já erradicaram a doença, como é o caso do Brasil. Isso ocorre também porque o vírus presente na vacina oral, usada nas campanhas e na vacinação de rotina, é eliminado nas fezes das crianças vacinadas.

:: Como proceder em casos de alergia à proteína do ovo

Vacinas produzidas a partir do cultivo de vírus em ovos podem representar limitação de uso por pessoas com alergia a esse alimento, o que leva alguns médicos a deixar de prescrever a imunização.

Segundo o pediatra Gabriel Oselka, presidente da Comissão de Imunizações da Secretaria de Saúde de São Paulo, a vacina só deve ser contraindicada a pessoas com reações extremas à ingestão de ovos, como anafilaxia, isto é, choque, falta de ar, edema de lábios, urticária generalizada.

De acordo com o médico, das vacinas disponíveis hoje no Brasil, apenas as de gripe e febre amarela são produzidas em ovos.

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