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The New York Times

Estudo questiona necessidade de cirurgia para câncer de próstata

Estima-se que 242 mil homens receberão um diagnóstico de câncer de próstata este ano

07/08/2012 | 12h17

Um novo estudo mostra que a cirurgia de câncer de próstata, que frequentemente causa impotência ou incontinência urinária, aparentemente não salva vidas de homens que estão nos estágios iniciais da doença. Em muitos casos, esses homens talvez não precisassem ter recebido tratamento algum.

As descobertas são baseadas no maior estudo já feito comparando a cirurgia de retirada da próstata com outra estratégia, a de monitoramento. Os pesquisadores acrescentam que a preocupação crescente com a detecção do câncer de próstata e os esforços de tratamento nos últimos 25 anos, particularmente nos Estados Unidos, têm sido equivocados, tornando milhões de homens impotentes, incontinentes e com medo de uma doença que sequer poderia matá-los. Cerca de cem mil a 120 mil cirurgias de retirada da próstata são feitas por ano no país.

— Esse estudo representa o início de uma nova fase. Ele chama atenção para o fato de que muitos dos casos de câncer de próstata diagnosticados hoje não são perigosos — disse o professor de Urologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Leonard Marks, que não fez parte do estudo.

Ainda assim, a pesquisa, publicada recentemente no periódico The New England Journal of Medicine e financiada pelo Ministério de Veteranos de Guerra, o Instituto Nacional do Câncer e a Agência de Pesquisa e Qualidade do Atendimento à Saúde não deve fazer cessar o debate sobre quais as melhores formas de tratamento para homens com câncer de próstata.

Um editorial que acompanha o relatório afirma que o estudo realizado com 731 homens, embora importante, é muito limitado para estabelecer conclusões definitivas sobre os benefícios relativos da retirada da próstata. Além disso, um número ligeiramente maior de homens que não foram submetidos à cirurgia desenvolveu metástases ósseas ao longo do estudo, que durou 15 anos. Não houve diferenças estatísticas nos riscos de morte provocada pela doença ou alguma outra causa entre homens aleatoriamente escolhidos para a cirurgia ou para o grupo de observação. Percebeu-se também que os homens que alcançaram uma pontuação muito alta em um teste que investiga a presença de um tumor na próstata possivelmente têm mais propensão a se beneficiar da cirurgia.

O estudo incluiu apenas homens que estão nos estágios iniciais da doença, sendo que metade tinha descoberto a doença por meio do teste de PSA, um exame que mede o nível do antígeno específico da próstata no sangue. Cerca de 81 por cento dos homens estavam no início da doença ou tinham um tumor localizado, o que significa que ele não havia se espalhado pela próstata. Segundo o diretor do Centro de Pesquisa e Tratamento do Câncer da Universidade do Texas, em San Antonio, as descobertas não são relevantes para homens que estão nos estágios mais avançados da doença.

— O objetivo é focar nossos testes em pacientes que tendem a ter tumores mais agressivos e para os quais o tratamento parece fazer diferença. A maioria dos tumores descobertos não precisavam ter sido encontrados. Deveríamos concentrar os exames em pacientes que têm propensão a desenvolver tumores mais agressivos, para os quais o tratamento parece fazer a diferença — diz Thompson, autor do editorial.

Segundo mais letal

Neste ano, cerca de 242 mil homens receberão um diagnóstico de câncer de próstata, em grande parte por causa do exame que indica altos níveis de PSA no sangue. Cerca de 28 mil homens morrem de câncer de próstata anualmente, o que faz com que ele seja o segundo câncer mais letal no caso dos homens, perdendo apenas para o câncer de pulmão. Ainda assim, estudos abrangentes mostram hoje que a detecção precoce por exame de PSA faz pouca ou nenhuma diferença para determinar se um homem morrerá ou não de câncer de próstata.

Em maio, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos emitiu uma recomendação controversa contra a realização regular do teste de PSA. A força-tarefa concluiu que o teste traz pouco ou nenhum benefício, mas sujeita os homens a ansiedade e a biópsias dolorosas, além de frequentemente encaminhá-los para tratamentos invasivos e arriscados. Porém, vários grupos médicos criticaram a descoberta, e o teste de PSA continua a ser uma parte consagrada do atendimento à saúde masculina na meia idade.

A pesquisa mais recente da área, chamada de Teste de Intervenção Versus Observação de Câncer de Próstata, ou PIVOT, concentra-se no que acontece após um homem receber um diagnóstico de câncer em estágio inicial, muitas vezes como resultado de um teste de PSA. Os homens que participaram do estudo foram designados aleatoriamente para se submeter ou à remoção cirúrgica da próstata ou encaminhados para um grupo de observação, no qual o câncer de que sofriam era monitorado, mas não tratado, a menos que mostrasse sinais de progressão. Embora o estudo tenha previsto inicialmente recrutar 2 mil homens, os pesquisadores não conseguiram alcançar essa meta e revisaram o plano de pesquisa, incluindo 731 homens.

Ao final do estudo, que durou 15 anos, 354 homens tinham morrido, mas a maioria deles em decorrência de uma outra causa, e não do câncer de próstata. Não se observou diferença estatística entre os índices de mortalidade geral no grupo cirúrgico, que teve 171 mortes, e os do grupo de observação, que teve 183 mortes.

Durante o estudo, apenas 52 homens, ou cerca de 7 por cento dos participantes do estudo, morreram de câncer de próstata; ainda assim, não se observou diferença estatística entre os índices de mortalidade por câncer de próstata entre os grupos.

Porém, em uma análise secundária, os pesquisadores encontraram uma diferença importante entre os grupos, sugerindo que a cirurgia pode beneficiar homens que têm a doença em estágio inicial e possuem dosagem elevada de PSA. Entre os homens com dosagem de PSA superior a 10 nanogramas por mililitro de sangue, a cirurgia diminuiu em 33 por cento o risco de morte em comparação ao grupo de observação. No geral, entre os homens com dosagem elevada de PSA, houve 13 por cento a menos de mortes no grupo cirúrgico em relação ao grupo de observação. Não se observou diferença entre os homens cuja dosagem de PSA foi de no máximo 10.

O Dr. Timothy J. Wilt, principal autor do estudo e professor de Medicina do Centro de Pesquisa de Doenças Crônicas de Veteranos de Guerra de Minneapolis, disse esperar que os resultados deem mais confiança aos pacientes que estão nos estágios iniciais da doença, proporcionando a eles a opção do monitoramento.

Cerca de 90% dos homens que descobrem ter a doença em estágio inicial escolhem se submeter ao tratamento imediato com cirurgia ou radioterapia, disse ele.

— Muitos dos homens que recebem diagnóstico de câncer de próstata ficam com medo. Eles acham que se não forem tratados, vão morrer da doença. Nossos resultados demonstram claramente que isso não é verdade. A esmagadora maioria não morre caso a doença se não seja tratada — disse Wilt.

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