Vizinho animal

Cães tornam-se fator de socialização entre seus donos

Histórias de pessoas que não ganharam apenas um parceiro: mas muitos

17/08/2013 - 05h02min
Cães tornam-se fator de socialização entre seus donos Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Gabriela Pessoa com seu cachorro Calvin, que tem como seu melhor amigo Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS  

O cão, não bastasse ser o melhor amigo dos seres humanos, é um catalisador de amizades entre eles. Veja o caso dessa turma que costuma se encontrar na Redenção, em Porto Alegre: a atendente Ju Balverdü, 49 anos, que frequenta o local desde 1985 e tem o labrador Zoe, de quase seis anos, a arquiteta Letícia Paludo, 24 anos, dona do vira-lata Joey, de dois anos, e a nutricionista Ivana Goulart, 28 anos, com seu cocker Safira, quatro anos.

Na tarde da última segunda-feira, elas resgatavam Zoe do lago do chafariz pela quinta vez, no mínimo. Zoe, que é de uma raça fascinada por água, voltava encharcado à terra firme, se aproximava e sacudia centenas de pingos na direção da turma, para depois voltar a mergulhar.

Normal. Faz uns cinco anos que ele se joga no lago atrás de bolas e outros objetos atirados pela sua dona ou pelos amigos e amigas dela. Em uma dessas ocasiões, o labrador garantiu uma alta dose de respingos para Ivana ao se lançar no lago. O fato virou assunto para a nutricionista e para a dona de Zoe e fez brotar a amizade. 

— As amizades começam com perguntas como "que cachorro bonito, de quem é?" — conta Ju.

Um pouco adiante, no trecho gramado do parque conhecido como cachorródromo, um cão cinza, amarrado a uma árvore, tornara-se uma espécie de ímã para outros animais e os donos deles naquela tarde. Rapidamente, a situação do weimaraner abandonado gerou uma intensa mobilização. As pessoas em volta trocaram números de celular e criaram planos para encontrar o proprietário do cachorro. Logo alguém lembrou que já tinha visto a dona dele. 

— Os cães são um fator de socialização bem forte — afirmou a funcionária pública Lucienne Barcellos, 55 anos, que participava das tratativas sobre o destino do weimaraner. 
 
Os mergulhos do labrador Zoe no lago do chafariz foram o ponto de partida para a amizade que nasceu entre sua dona e outros cachorreiros da Redenção
Foto: Adriana Franciosi


A mãe de Jack e o Seu Caramelo

Não faltam casos parecidos com os dos donos de Zoe, Joey e Safira. Basta ir a algum parque com evidente presença canina para confirmar que os proprietários de cachorros têm sempre alguma história sobre laços que floresceram a partir dos mascotes. Ainda que os bichos costumem permanecer no centro das atenções. 

— A gente conhece um monte de pessoas aqui por causa dos cachorros, mas sabemos os nomes de poucos donos. É "oi, seu Caramelo", "oi, dona Chiquinha". Ou "essa é a mãe do Jack", "esse é o pai do Caramelo" — brinca o aposentado Claudio Moraes, 46 anos.

Moraes se encontra há mais de um ano na Redenção com a cozinheira Cristina Souza, 42 anos, quando ela passeia com o enorme golden retriever Jack, de oito anos, e ele com o beagle Caramelo, de dois anos, e a poodle Chiquinha, três anos.

Cristina é uma espécie de babá de Jack, que pertence a uma senhora. Trata dele desde o nascimento e passeia praticamente todos os dias. Claudio ganhou Chiquinha da filha e foi obrigado a comprar Caramelo para fazer companhia à poodle e evitar que a cadela se afundasse em depressão pela ausência da antiga dona. 

— Provavelmente foi em alguma conversa sobre os cães que eu conheci a mulher do Claudio e, depois, ele — disse a cozinheira, apontando para o amigo e para os três cães esparramados no gramado do parque.

Calvin, o quebra-gelo de Gabriela

Os bichos são um "quebra-gelo" que ajuda também na adaptação à vizinhança. Foi o que ocorreu com um casal nordestino que se mudou há três meses para Porto Alegre.

Antes de deixar Fortaleza, no Ceará, o cachorro tão amado da advogada Gabriela Pessoa, 28 anos, morreu. A chegada à capital gaúcha, onde o marido de Gabriela, o médico Sávio, conseguiu um emprego, foi recheada de tristeza. Até que a advogada decidiu procurar um novo mascote.

Em um site, descobriu um cãozinho brabo e abandonado chamado Calvin. O nome chamou a atenção porque ela é fã dos personagens de quadrinhos Calvin e Haroldo. Entrou em contato com a cuidadora do vira-lata, Andréia Braile. Foi a primeira amiga que conseguiu em Porto Alegre. 

— Mando fotos do Calvin para a Andréia pela internet. Sempre falo com ela sobre a adaptação dele — conta Gabriela, que leva Calvin para passear na Praça da Encol e avança, ela mesma, na adaptação à cidade.

A professora Janete Weigel, 46 anos, e a dupla de shitsus Maya, um ano e meio, e Shiro, quatro anos, também aproveitam seguidamente o gramado da Praça da Encol. A família da professora — que se completa com o marido e dois filhos — deixou Santa Cruz do Sul e mora há cerca de três semanas na Rua Passo da Pátria.

Ainda sem muitas amizades na região, ela sente que os cães serão um meio de criar laços na Capital. Já descobriu os horários em que o pessoal passeia com os cachorros na praça e tenta fazer os primeiros contatos: 

— Passou uma menina há pouco com um cão pequeno e a gente se olhou, olhou para os cachorros. A raça do cachorro normalmente começa o assunto. É assim que surge uma possibilidade de se aproximar.

De guardas a membros da família

A função dos cães mudou com o passar do tempo. Antes tidos como guardas de casa, hoje os cachorros estão mais para companheiros. Para alguns, são considerados membros da família, o que é explicável em um país com tendência a ter um número cada vez menor de filhos por mulher.

Psicóloga e pet terapeuta, Karina Schutz considera o cão um intermediário entre as pessoas. Nas terapias, ela utiliza animais para incentivar gente com dificuldade de socialização a se relacionar com outras pessoas. Karina compara que é mais fácil uma aproximação por meio dos bichos do que entre duas mães que passeiam com bebês em seus carrinhos:

— Os cães vão se cheirar e os donos acabarão parando para conversar. O animal atrai isso. As pessoas depositam esse afeto porque os bichos vão ficar pelo resto da vida do lado delas. Já os filhos saem de casa, acabam fazendo a vida deles. Isso explica, por exemplo, o quanto uma mãe se apega aos animais. É a síndrome do ninho vazio.

A própria Karina fez amigos a partir do seu pastor branco Phantom, de dois anos e meio. Frequentadora do Parque Germânia, criou no Facebook os grupos Aumigos do Germânia e Vips dos Aumigos — o "au" é uma referência óbvia. Os grupos contam com 169 e 35 membros.

—O animal é um ativador comportamental. Se a pessoa é inibida, só de sair para a rua para passear com um cachorro e alguém fazer um carinho nele já a estimula — define.


ONDE ENCONTRAR CACHORREIROS NA CAPITAL 

 Foto: Adriana Franciosi

> Parque da Redenção
> Praça da Encol
> Parcão
> Praça do Dmae
> Parque Germânia

 
 
 
 
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