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Game over nos preconceitos

Descubra como os jogos virtuais podem ajudar no aprendizado

Segundo especialistas, durante partida de videogame, pode-se aprender idiomas, quebrar barreiras familiares e conhecer pessoas de todo o mundo

29/09/2013 | 09h04
Descubra como os jogos virtuais podem ajudar no aprendizado Genaro Joner/Agencia RBS
Reflexos mais ágeis são alguns dos benefícios proporcionados pelos games Foto: Genaro Joner / Agencia RBS
Aos 14 anos, o universitário Jefferson Prado, hoje com 19 anos, ficou surpreso ao perceber que sabia com detalhes a resposta correta de uma das perguntas da prova de história do 9º ano do Ensino Fundamental. A questão tratava de uma passagem importante na vida do romano Júlio César. A resposta só veio fácil porque o estudante estava, à época, entusiasmado com um jogo virtual de estratégia sobre o Império Romano. A escola cobrava a volta de César de Gália, uma das fases mais importantes do game. 

— Foi fácil porque no jogo eu era Júlio César, eu vivia como César — conta.

As mesmas partidas provocaram no adolescente reflexões complexas para a idade dele. Uma das fases questionava como seria o mundo atual se Roma tivesse sido vencida por Cartago durante as Guerras Púnicas. 

— Na época, eu me questionei se a nossa sociedade, tão influenciada por Roma, teria algumas características de Cartago. Jogar me levou a essa reflexão — diz Jefferson. 

Cada vez mais comuns entre os jovens, os jogos virtuais podem abrir espaço para o aprendizado e auxiliar no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Reflexos mais ágeis, maior capacidade de tomar decisões rápidas, novos conhecimentos e até o aprendizado de novas línguas são alguns dos benefícios proporcionados pelos games, dizem especialistas. Os benefícios não vêm apenas dos jogos desenvolvidos especialmente para a educação, explica a professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e especialista em educação e tecnologia Lynn Alves. 

— Os jogos comerciais também podem ser um estímulo para a aprendizagem — afirma.

A professora coordena o site Comunidades Virtuais. Ligada à Uneb, a iniciativa disponibiliza jogos gratuitos e educativos.

Incentivo da mãe

Psicólogo, Luiz Mello Gallina confirma a ideia de que mesmo os jogos não pensados com a proposta educativa podem promover benefícios. Gallina pondera, entretanto, que a influência dos jogos depende das especificidades do usuário. 

— Um mesmo jogo pode ser benéfico para alguns jogadores e não para outros. Os benefícios podem vir se a pessoa usar a experiência para refletir sobre a vida — explica.

No caso de Jefferson, o estímulo para começar a jogar veio da mãe. Quando ele tinha seis anos, ela colocava o garoto para brincar com um jogo cujo objetivo era construir e administrar cidades. A intenção era instigar e desenvolver melhor o raciocínio lógico. Jefferson acredita que a criatividade também foi aguçada durante essas partidas. 

— Tinha de criar novas cidades, organizá-las, atividades difíceis para uma criança daquela idade e que me estimularam muito a pensar diferente — afirma.

O estudante de engenharia conta que os games também lhe renderam benefícios que, raramente, são relacionados aos jogos virtuais, como a possibilidade de fazer novos amigos. 

— Eu era muito tímido quando mais novo. Foi com o contato que eu precisava ter com outras pessoas nos jogos online que me soltei mais — explica.

Jefferson diz também que a competitividade dos games o ensinou a liderar e trabalhar bem em equipe. 

— Em alguns jogos, você não faz nada sozinho. A vontade de ganhar me fez aprender a trabalhar melhor em conjunto, o que ajuda na universidade, na vida fora do jogo — avalia.

Em família

Doutora em psicologia e especialista em tecnologia educacional, Lairtes Júlia Vidal acredita que os jogos, além de uma maneira eficaz de se obter novos conhecimentos, pode aproximar pessoas. 

— Pode ser divertimento que ensina novos conteúdos, curiosidades e que auxilia a socialização — afirma.

Mesmo dentro de casa, as relações podem ser melhoradas. Apesar das dificuldades que os pais geralmente encontram para dominar a linguagem e o ambiente dos jogos, a atividade pode ser um meio de aproximá-los dos filhos. Segundo o psicólogo Luiz Mello Gallina, conversar com filhos sobre jogos e mostrar interesse na atividade podem representar um reconhecimento de que os gostos e as escolhas dos mais jovens são valorizados. 

— Isso facilita uma aproximação, permitindo que os pais possam tratar dos receios que têm em relação aos jogos e tomar decisões mais adequadas — complementa.

O universitário Lucas Sanches, 18 anos, começou a jogar por volta dos cinco anos. Para o estudante de Engenharia, os games foram uma maneira divertida de estar próximo da família. Tios, primos e o pai do jovem sempre foram parceiros dele na atividade.

— Era uma momento de diversão entre nós — diz.

Devido à rotina de trabalho do pai, Lucas conta que eles tinham pouco tempo para estar juntos:

— Meu pai sempre trabalhou muito. Quando jogávamos, era uma oportunidade de ficarmos mais próximos.

Além de colaborar para aproximar a família, os games auxiliaram Lucas no aprendizado do inglês, já que a maioria dos jogos é desenvolvida nessa língua. O contato com jogadores de outros países também é um fator importante para a aprendizagem de idiomas. 

— Você se acostuma com as palavras, com o jeito que o idioma é, aprende mais vocabulário. Grande parte do que sei de inglês aprendi jogando — explica o universitário.

Interações facilitadas

No imaginário de muitas pessoas, quem gosta de jogos virtuais é visto como alguém que se isola em um quarto e, com um computador ou uma televisão à frente, esquece-se do mundo ao redor. Especialistas e jogadores, entretanto, afirmam que os games podem ser, na verdade, um meio de se obter novos relacionamentos e aumentar a interação social dentro e fora do espaço virtual. Para o psicólogo Luiz Mello Gallina, grupos de amizade se formam por conta do interesse comum nos jogos, fazendo com que a importância deles extrapole o ambiente digital:

Um jogo que envolve a presença de outros jogadores abre a possibilidade de interações sociais mais frequentes, o que pode ser benéfico para pessoas com dificuldades de relacionamento.

Os universitários Jefferson Prado,19, e Lucas Sanches, 18, contam que conheceram diversas pessoas dentro do ambiente de jogo. Os dois acreditam que os jogos facilitam a interação com pessoas de outras cidades e até países em relações que, muitas vezes, migram para fora das telas. 

— Muitos dos meus melhores amigos eu conheci jogando, pessoas de outros países e mesmo alguns da minha cidade — diz Jefferson.

Gallina adverte que é preciso ficar atento ao risco de que os jogos se transformem, de fato, em uma forma de isolamento. Outros afazeres, segundo o especialista, não podem ser deixados de lado pelo envolvimento com os games. 

— Deve-se ponderar que existem outras atividades e acontecimentos igualmente importantes. Os jogos não podem tomar todo o tempo de convívio com a família, amigos ou colegas —alerta.

Alguns benefícios

— Auxiliar no desenvolvimento de crianças e adolescentes

— Reflexos mais ágeis

— Maior capacidade de tomar decisões rápidas

— Novos conhecimentos 

— Aprendizado de novas línguas 

— Instigar e desenvolver o raciocínio lógico
 
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