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Desafio

Rastreadores de atividade física identificam grau de movimento e sedentarismo

Fabricantes dos equipamentos participam de campanhas destinadas a convencer a grande população de consumidores preocupados a se conectar e começar a gravar seus movimentos

27/03/2014 | 07h06
Rastreadores de atividade física identificam grau de movimento e sedentarismo Otto Steininge/The New York Times
Foto: Otto Steininge / The New York Times

Há anos os defensores da saúde vem nos dizendo para nos movimentarmos mais. Mas quanto mais?

Uma série de equipamentos para registro de atividades agora promete responder a essa pergunta. Geralmente, esses monitores digitais, que podem ser usados ao redor do pulso, em colarinhos e cintos, até mesmo como acessórios, registram como e quanto a pessoa se movimenta durante o dia. Alguns pretendem fazer ainda mais.

Os fabricantes dos equipamentos começaram campanhas intensivas destinadas a convencer a grande população de consumidores preocupados a se conectar e começar a gravar seus movimentos.

Qual é o grau de precisão com que os monitores funcionam? Curioso com os benefícios e limites, eu venho testando tantos modelos quanto possível, os usando dia e noite durante seis meses, 11 modelos ao todo, às vezes, quatro de uma vez só. Aprendi muita coisa sobre esses aparelhos e sobre mim mesmo.

Eu me julgava uma pessoa razoavelmente ativa. Pedalo para o trabalho quase todo dia e passo na academia ou faço outra atividade física de duas a três vezes por semana. Os "rastreadores", por sua vez, mostraram que tirando esses períodos de exercício, durante a maior parte do dia eu era um sedentário completo.

Porém, a história não acaba aí.

Rastreadores de atividade geralmente combinam um equipamento que pode ser "vestido" com um site ou aplicativo de smartphone para ver os dados coletados a respeito dos movimentos. A meta é medir não apenas seus passos do estacionamento à escrivaninha, mas também o tempo sedentário no trabalho ou diante da televisão, surtos de exercícios intensivos e até os hábitos de sono – tudo para criar um quadro completo dos comportamentos mais e menos saudáveis. Alguns modelos também oferecem dicas e estabelecem metas baseadas nos dados.

Os aparelhos mais populares são feitos pela Fitbit, Nike e Jawbone; as engenhocas geralmente custam entre US$ 60 e US$ 200. A maioria é feita de borracha e plástico, em uma variedade de cores, com a notável exceção do Shine, feito de metal pela Misfit Wearables.

O crescimento acentuado dos rastreadores provém dos progressos na tecnologia dos chips. Os aparelhos têm em comum um sensor, um acelerômetro que registra o movimento em três dimensões (para cima e para baixo, de um lado para o outro e para frente e para trás). Agora, os acelerômetros podem ser pequenos e com um custo baixo suficiente para serem embutidos praticamente em tudo.

Enquanto todos os rastreadores de atividade têm acelerômetro, alguns incluem sensores adicionais para captar outros sinais de atividade. A BodyMedia produz uma braçadeira que mede a transpiração e o calor muscular para uma avaliação mais exata do nível de atividade e calorias queimadas. A Basis Science vende o relógio B1 Band, que mede os batimentos cardíacos, transpiração e temperatura da pele. Já o Pulse, da francesa Withings, consegue medir a frequência cardíaca em repouso.

Muitos desses rastreadores estimam a duração e caprichos do sono medindo o quanto a pessoa se mexe durante a noite. Polar e Garmin, por sua vez, fabricam equipamentos que podem ser comparados às faixas peitorais para gravar batimentos cardíacos durante a sessão de exercícios.

Porém, nem mesmo o melhor desses aparelhos sabe reconhecer todos os seus movimentos.

Enquanto fico sentado escrevendo esta reportagem, meus pulsos não se mexem, mas minha perna acompanha a música. Meus rastreadores de atividade não parecem perceber – essa aparente inquietação não será refletida na contagem de calorias que eles me mostram. Isso é muito ruim porque existe um corpo de pesquisa interessante sugerindo que a propensão a esse tremor é um dos motivos pelos quais as pessoas permanecem esbeltas.

De forma mais surpreendente, talvez, somente os aparelhos feitos pela Basis e BodyMedia me deram crédito por estar ativo pedalando minha bicicleta. A maioria deles fica simplesmente parada no meu pulso, sem registrar atividade – verdade seja dita, meu pulso não estava se mexendo muito enquanto eu pedalava pelo trânsito da cidade. Todos eles foram mais precisos enquanto eu jogava tênis.

Esse gênero de equipamento não costuma medir o esforço, somente o movimento. Representantes da empresa dizem que o exercício é somente uma pequena parte do dia médio do consumidor, e que é mais útil registrar o cenário geral da condição física.

— No caso de exercícios de baixo movimento e alta resistência, nenhum deles funciona muito bem, incluindo o nosso, disse Sonny Vu, CEO da Misfit Wearables. — Entretanto as outras 23 horas e meia são mais interessantes.

Apesar dos lapsos ocasionais, achei o rastreamento útil quando me concentrava menos nos números precisos e mais nas variações do dia a dia na atividade. Comparar os 16 mil passos que dou em alguns sábados ou domingos aos seis mil a sete mil passos de um dia de trabalho típico me fizeram me esforçar mais no sentido de uma maior movimentação durante a semana.

Será que esses aparelhos podem mesmo mudar o comportamento das pessoas? No ano passado, o Dr. Rajani Larocca, clínico geral do Hospital Geral de Massachusetts, realizou um programa de estilo de vida de seis semanas para dez pacientes diabéticos com idades entre 50 e 70 anos, incluindo sessões semanais para incentivar exercícios e alimentação saudável; cada participante também recebeu um rastreador Fitbit Zip.

— Todas as pessoas aumentaram a atividade física. Elas passaram a se conhecer melhor, disse Larocca. Passados oito meses, metade dos pacientes do grupo ainda usa o monitor.

Pesquisadores do Centro para a Saúde Conectada, Boston, vêm dando medidores de atividade para pacientes durante seis a nove meses, para depois estudar mudanças comportamentais. O Dr. Kamal Jethwani, chefe de pesquisa do centro, disse ver três grupos distintos de pessoas entre os participantes.

Aproximadamente dez por cento são "pessoas quantificadas" com afinidade para esse tipo de avalição; só de olhar os números, ficam motivadas a serem mais ativas. Um grupo entre 20 por cento e 30 por cento necessita de mais incentivo além do rastreador para mudar realmente de comportamento.

Contudo, a maioria dos pacientes observados por Jethwani não compreende os dados e precisa de ajuda para entendê-los. Segundo o médico, para eles, a motivação social de um amigo, entrar em uma equipe ou em um emprego desafiador pode ser mais eficiente.

Acredito que eu faça parte do segundo grupo, aquele que precisa de uma forcinha. Um de meus recursos favoritos é o alerta de inatividade do Jawbone UP. Eu programo o meu para vibrar no pulso se não me movi na última hora. E o aplicativo para smartphone da Jawbone oferece dicas personalizadas que são interessantes de verdade.
— Por exemplo, quando você se deita 30 minutos mais tarde do que em média, você costuma dar 971 passos a menos no dia seguinte. E depois de vários serões noturnos, ele me falou: "deite-se antes de 0h44". Bem, está certo.

Outros monitores, como o da Fitbit, tentaram aumentar minha motivação concentrando-se em metas de curto prazo, como, por exemplo, chegar a dez mil passos por dia. O rastreador da Basis dá pontos por manter sequências de atividade saudável, como o número de dias em que se está ativo por mais de 30 minutos.

Dos outros aparelhos que testei, o FuelBand, da Nike, dá a maior ênfase à competição com os amigos. Porém, quase todos os aplicativos agora têm recursos sociais permitindo compartilhar as atividades, oferecer incentivo e fazer alguém cumprir as metas.

Todos os dados gravados estão ligados a um software em particular da empresa, assim não dá para levar junto caso você decida trocar de aparelhos. No entanto, muitos permitem que os dados das calorias sejam divididos com outros aplicativos, como MyFitnessPal ou LoseIt.

Por ter usado mais desses equipamentos do que qualquer ser humano deveria, preciso reconhecer que estou menos cativado do que antes. Agora quase nunca olho os dados que eles coletam.

O que não é necessariamente uma coisa ruim.

— A meta não é fazer as pessoas usarem o rastreador de atividades o ano inteiro. A ideia é fazê-las usá-los quando é importante, isto é, quando os hábitos melhores começarem a se perder. disse Jethwani.

Hoje em dia, eu me tornei extremamente consciente do quanto estou ativo e do quanto preciso estar para me sentir saudável e energizado.

Eu não preciso mais de um monitor. Eu mesmo me acompanho.
 
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