Gêmeos: normal ou cesárea?

Riscos na cesárea ou parto normal de gêmeos são quase iguais, aponta pesquisa

Após analisar mais de 2,8 mil gestações desse tipo, a constatação dos especialistas reduz a importância dada às cirurgias

24/03/2014 | 11h53
Riscos na cesárea ou parto normal de gêmeos são quase iguais, aponta pesquisa Ver Descrição/Reprodução
Cirurgias para o nascimento de gêmeos ganharam força com estudo lançado em 2001, mas atual pesquisa retoma o debate Foto: Ver Descrição / Reprodução

Quando decidiu engravidar, a arquiteta Grasiella Drumond já tinha algumas noções do que era o parto humanizado e acreditava ser a melhor forma de ter o primeiro filho. Mas a ideia ganhou um tom de incerteza quando ela descobriu que, em vez de um, teria Iolanda e Margarida.

– A primeira coisa que pensei foi se poderia ter o parto normal. Se existia algum tipo de implicação que prejudicasse a segurança delas – lembra.

O primeiro médico – indicado por fazer partos humanizados – disse que não faria o procedimento.

– Achei que teria alguém para me apoiar. Nunca fui radical, mas busquei informações e sabia que era possível.

O segundo obstetra confirmou a convicção de Grasiella:

– Eu queria respeitar o nascimento delas, esse era o ponto primordial. Sabia de algumas complicações e que precisaria ficar atenta.

Alguns problemas, inclusive, fazem parte dessa história. A bolsa de Grasiella estourou antes do esperado, com 32 semanas de gestação, e as meninas nasceram prematuras, mas de parto natural.

– Tenho certeza de que o fato de elas terem nascido sem qualquer problema, como acontece muito com os bebês prematuros, tem a ver com o parto natural – diz a mãe.

Certa ou errada, Grasiella confirma o que foi relatado em artigo publicado em uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo, a The New England Journal of Medicine. Diferentemente do que domina o imaginário popular e do que pregam alguns profissionais, os riscos de mortalidade e morbidade (incidência de doença) fetal ou materna em partos de gêmeos não diferem significativamente entre o parto vaginal e a cesariana planejada, em situações ideais.

Esforço internacional para pesquisar os partos de gêmeos

Cientistas de 25 países, inclusive o Brasil, formaram o Grupo Colaborativo do Estudo de Nascimento de Gêmeos. O esforço internacional teve como objetivo reunir um número substancial de gestantes em condições ambientais diferenciadas para que os dados pudessem representar os riscos reais dessa população.

– Encontramos um maior risco de um resultado perinatal adverso para o segundo gêmeo do que para o primeiro, como outros (estudos) têm encontrado. No entanto, a cesariana planejada não reduziu esse risco – detalha o autor principal do artigo, Jon Barrett.

Segundo Barrett, há uma controvérsia sobre o método mais seguro para o nascimento de gêmeos ou prematuros, mas, desde 2001, com a divulgação do Term Breech Trial (Estudo de Gestação Pélvica, em tradução livre) na The Lancet, as cirurgias têm ganhado força:

– Uma política de cesariana planejada para gêmeos ganhou apoio após essa publicação, que mostrou que a cesariana planejada foi associada a um risco reduzido de problemas perinatais no caso de uma gravidez com duração normal e com o feto na apresentação pélvica.

Barrett conta que outros estudos também mostraram uma redução do risco de adversidades com as cesáreas escolhidas quando comparadas ao parto vaginal e à cirurgia de emergência.

– Há várias razões possíveis para que nossos resultados sejam diferentes dos dados observacionais anteriores: evitamos o viés de seleção, que garantiu a presença de um obstetra experiente no momento do parto, e muitos dos gêmeos em nosso estudo nasceram prematuros. Não achamos que a cesariana planejada foi associada a um maior ou menor risco de morte materna ou morbidade materna grave do que o parto vaginal planejado – compara.

Para ele, o ponto forte do material inclui o desenho totalmente casualizado das voluntárias, o grande número de participantes e uma alta taxa de acompanhamento posterior. Todas as mães e bebês foram monitorados até 28 dias após o parto.

Mais comuns

Para Michael Greene, do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston (EUA), os resultados não indicam que todos os pares de gêmeos devem ser recebidos por via vaginal:

– Obstetras que exercem o seu melhor julgamento clínico entregam ambos os gêmeos por cesariana em quase 40% das mulheres que inicialmente fariam o parto vaginal planejado, o que, sem dúvida, contribuiu para os resultados salutares. No entanto, os dados desse estudo sugerem que um plano para o nascimento de gêmeos por parto vaginal é uma escolha razoavelmente segura em mãos hábeis.

A presidente da Comissão de Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Rosiane Mattar, reforça a constatação: é possível aguardar o parto normal, sem aumento de risco, quando o primeiro bebê é cefálico, mesmo que tenha que inserir a cesárea por algum motivo na hora.

– Existe o parto gemelar normal há anos, a vida inteira. Há cem anos, engravidava-se de gêmeos e eles nasciam pelo parto vaginal. Minha avó, que era árabe, teve três gestações de três casais de gêmeos e os três foram normais. Nunca será uma condição que impede o parto normal.

Mattar explica que o número de gestações gemelares e trigemelares aumentou nos últimos anos devido ao avanço tecnológico para a reprodução assistida:

– Essas pacientes normalmente demoraram para engravidar e acreditam muito que fazer a cesárea é uma necessidade.

COMO FOI O ESTUDO

- Entre os poucos requisitos, a gravidez gemelar deveria estar entre 32 semanas e 38 semanas e seis dias – período ideal para o parto de gêmeos.

- O primeiro bebê também precisava estar em posição cefálica (quando a cabeça do feto se encontra mais próxima da bacia materna), vivo e com peso médio entre 1,5kg e 4kg.

- Foram selecionadas e acompanhadas 2.804 mulheres entre dezembro de 2003 e abril de 2011. Dessas, 414 eram do Brasil. Um total de 1.398 era do grupo que faria a cesariana planejada e as outras 1.406, o parto vaginal.

- Entre as do primeiro grupo, 89,9% foram submetidas a cesariana para ambos os filhos, 0,8% combinou parto vaginal e cesárea e 9,3% tiveram apenas o parto vaginal. Já as mães do segundo grupo, 56,2% mantiveram o que foi planejado inicialmente, apenas o parto normal, e 4,2% combinaram o parto vaginal e a cesárea. As mulheres restantes (39,6%) só foram submetidas à cesárea.

- A comparação dos dados mostrou que a cesariana planejada não reduziu o risco de morte fetal ou neonatal ou morbidade neonatal grave quando comparada com o parto vaginal planejado.

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