No divã

Lisandra Pioner: nossos filhos e a internet

O olhar de adultos maduros, esclarecidos e com um mínimo de disponibilidade e boa vontade é indispensável ao uso saudável das redes

19/04/2014 - 08h04min

Quando tento lembrar a forma como fazíamos pesquisas há não mais do que 15 anos, sinto arrepios. Quase não lembro da vida antes do Google. E a facilidade de fotografar tudo e todos e enviar, em tempo real, para qualquer lugar do planeta? E os vídeos feitos com um primor profissional, então?

Durante toda a minha infância e a adolescência, não devo ter acumulado mais do que duas ou três fitas VHS — lembrança de datas consideradas importantíssimas. No entanto, minha filha, com apenas seis anos, tem horas e horas de vídeos salvos em pendrives e CDs, espalhados pelas casas de toda a família.

As facilidades da vida moderna são inúmeras — e a fragilidade causada pela exposição exagerada e desmedida, também.

Todo esse aparato a nossa disposição nos torna um pouco reféns de tamanha liberdade e frivolidade. Aliás, péssima combinação a dessas duas. Se acompanhadas de imaturidade, então... preocupante!

Pois a soma facilidade, liberdade, frivolidade e imaturidade tem sobrecarregado a internet e transformado um recurso maravilhoso em campo minado, em que qualquer passo distraído pode detonar uma bomba catastrófica.

Internet não deveria ser lugar de desabafos descompensados, ameaças, barganha, propagandas falsas, crianças e adolescentes sem

a supervisão da família. Não deveria, mas é.

A internet tem sido palco de escândalos, ringue de disputas, calabouço de covardes, refúgio de lascivos. E mais: tem sido local de frequentadores assíduos que, muitas vezes, sem instrução alguma, se expõem desnecessariamente (ou outras pessoas), causando uma volátil fama, que, em grande parte dos casos, transforma-se em rechaço social. Os frequentadores? Crianças e jovens.

O olhar de adultos maduros, esclarecidos e com um mínimo de disponibilidade e boa vontade é indispensável para o uso saudável das redes e, embora muitas vezes seja inexistente, se faz urgentemente necessário.

Os mais práticos e objetivos podem lembrar que há uma responsabilidade jurídica por trás de cada menor de idade, mesmo que este esteja em sua casa, aparentemente seguro. Porém, a questão aqui é muito mais ampla e subjetiva.

Quem já parou pra pensar até onde vai a suposta liberdade que temos? Como identificar o limite que separa o permitido do excessivo? A partir de que ponto a brincadeira se torna violência moral?

Eu sei que a nossa rotina de pais e mães está tumultuada e muitas vezes não conseguimos dar conta de todas as demandas, mas nossos filhos precisam ser prioridade. Pare o que está fazendo agora e vá dar uma espiada no que seu pequeno tem feito. A nossa liberdade, enquanto sujeitos, vai até onde começa a liberdade do outro, e a nossa, enquanto pais, vai até... não há mais liberdade! É nosso dever ser sempre vigilantes.

 
 
 
 
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