É fato: grande parte do povo brasileiro "vestiu as cores" da Alemanha na grande final da Copa do Mundo 2014. Inclusive o Cristo Redentor! Contudo, essa é a história de alguém que desfilou com a camisa 11 do alemão Klose muito antes de o Brasil sofrer a maior goleada de sua história. Isso ocorreu, mais precisamente, nas Oitavas de Final no estádio do Beira-Rio durante o jogo Alemanha x Argélia. A partir daquele dia, pasmem, descobri o improvável: meu filho de sete anos - brasileiro, gaúcho, de origem italiana, portuguesa e russa - era, na verdade, um alemãozinho.
Pelo menos foi o que a mídia quase me fez acreditar quando sites internacionais e emissoras de televisão do mundo inteiro começaram a estampar nas telas o rosto do meu loirinho extravasando o sentimento de emoção de um torcedor. Abre aspas: de um fã mirim da Alemanha, com a camisa germânica e a cara pintada nas cores da bandeira Deutschland. Fecha aspas e uma dica: nunca deixe seu filho tirar meleca do nariz no estádio. Nunca se sabe para onde apontam as câmeras do Galvão Bueno!
Não viu a cena? Eu conto: entre chutes, dribles e um goooool da Alemanha, vemos a imagem de um "mini Thomas Müller" comemorando como gente grande no estádio. Era o meu filho. Seu jeito intenso de vibrar conquistou espaço em diversos canais e programas esportivos da televisão. A cena foi parar no Jornal Nacional da Globo, SportTV e Globo News. Segundo amigos, o episódio foi visto também em emissoras da Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos. O mais impactante foi vê-lo na última semana decisiva da Copa em um clipe do Fantástico ao lado de grandes craques e da tristeza nacional com a fratura de Neymar. Não dava para imaginar o tamanho da dor que ainda presenciaríamos pela frente.
Um dia antes do vexame do "Mineiraço", alguém achou interessante mostrar que o tal "torcedor símbolo da Alemanha nessa Copa era um "brasileirinho". A repórter gaúcha Rosane Marquetti grava, então, uma entrevista com o meu filhote. Diante das câmeras, esse guri desinibido apresenta os amigos, a escola, chuta no gol, mostra sua coleção de camisetas de futebol e o seu mundinho particular. Tudo com a mesma simplicidade e sinceridade com que também responde em rede nacional: "Nesse jogo, Alemanha e Brasil, para quem você vai torcer?", pergunta Rosane. "Pros dois", responde ele. Horas depois, assistimos ao massacre, a goleada de 7x1.
Até o últimos segundos da Copa, questionei-me o motivo que levou meu filho a responder: "Pros dois". Existe torcer "pros dois"? Como num lance do futebol, resolvi analisar todos os ângulos.
O significado estava na cara. Meu alemãozinho não vestiu apenas a camisa amarela do Brasil ou a da festejada Alemanha. Na verdade, vestiu a Copa inteira. Torceu pela França, Holanda, Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia e até para a Suíça. Torceu pelo futebol bonito. Foi um belo anfitrião assim como milhões de brasileiros. Vibrou por viver a Copa do Mundo de forma tão intensa e próxima. Ganhou quem tinha que ganhar. Quem fez o trabalho bem feito desde o início. Pronto. Até uma criança entende isso. Bola pra frente.
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