Reprodução assistida

Barriga solidária de Porto Alegre permite que pernambucana realize desejo de ser mãe

Sonhos e postagem no Facebook incentivaram Danielle Figueredo a se oferecer à conterrânea para uma gestação de substituição

23/09/2015 - 03h01min
Barriga solidária de Porto Alegre permite que pernambucana realize desejo de ser mãe Tadeu Vilani/Agencia RBS
Gêmeos Martim e Pilar, gestados por Danielle (D), retornaram com Gabriela (E) para Recife nesta terça-feira Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS  

Um desabafo postado no Facebook e sonhos à primeira vista sem sentido uniram duas famílias de extremos do país para tornar possível a realização de um intenso desejo pela maternidade. Pernambucana radicada em Porto Alegre, a administradora Danielle Figueredo, 31 anos, colocou-se à disposição da conterrânea Gabriela Souza, 37 anos, publicitária, incapaz de gestar uma criança por complicações de saúde. Do acordo incomum entre as mulheres que mal se conheciam, chamado popularmente de barriga de aluguel ou barriga solidária, nasceram os gêmeos Martim e Pilar, que na terça-feira embarcaram com os pais de volta para Recife.

Gabriela tem a Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAAF), problema que interfere na coagulação sanguínea e aumenta o risco de tromboses, levando à interrupção da gravidez. Há mulheres que se submetem a tratamento com anticoagulantes e conseguem manter a gestação, mas no caso dela não foi possível. Após dois abortos, a publicitária e o marido, Eduardo Breckenfeld, 38 anos, decidiram recorrer à adoção. Amigos e conhecidos ficaram sabendo do propósito e, querendo ajudar, começaram a trazer propostas de mães que queriam doar os filhos. Gabriela chegou a cogitar agir contra a lei.

– Às vezes eu ficava meio doida pensando nisso: estou esperando alguém ser abandonado para eu poder ser mãe e formar minha família. É muito triste – recorda.

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Pelas vias legais, a primeira etapa do processo para ingresso no Cadastro Nacional de Adoção se arrastou por um ano. Gabriela e Eduardo buscavam uma criança de zero a dois anos e meio, de qualquer raça ou sexo, e consideravam até a possibilidade de acolher irmãos. Confiantes, vivenciaram a espera como parte do período de "gestação" do filho ainda desconhecido. Descobrir que a chegada de uma criança com o perfil pretendido poderia levar quase cinco anos abalou a esperança dos futuros pais.

– Eu já estava inquieta, não achando tão linda essa história de "gravidez do coração", essa espera, essa preparação toda. Me bateu um desespero maior – conta Gabriela.

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Danielle e Gabriela não eram próximas. Tinham amigos em comum, interagiam pelas redes sociais e se encontravam em compromissos sociais. Compartilhado no Facebook, um texto em que a publicitária relatava as tentativas frustradas de adoção surgiu na timeline de Danielle, que já conhecia trechos da história. Danielle, emocionada, chorou, mas a mensagem capaz de conectar as duas recifenses em definitivo apareceu em sonhos, repetidos em duas noites. Dormindo, Danielle se viu diante de Gabriela, dizendo:

– Não se preocupe. Vou dar o que você tanto espera.

O significado do enredo onírico pareceu evidente horas depois do despertar. Com a concordância do marido, Josemar Queiroz, 38 anos, e após se informar sobre o assunto, Danielle se encorajou para enviar uma mensagem pela internet, ofertando o que passara a encarar como missão. "Gabi, eu não sei o motivo, talvez por admiração, talvez por uma coisa de vidas passadas, seja o que for", escreveu, indicando um link com informações sobre barriga solidária, em agosto do ano passado. "Se vocês quiserem, a gente está disponível", concluiu. No trabalho, a destinatária levou um susto. "Estou me recuperando ainda, impressionada com o seu desprendimento. Mas vou te ligar", respondeu. Duas semanas depois, por telefone, Gabriela comunicou a decisão:

– É sim!

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Nos meses seguintes, ambas se dedicaram a vencer as exigências burocráticas. Como não são parentes de até quarto grau, condição detalhada na resolução 2.121/2015 do Conselho Federal de Medicina, buscaram, orientadas por um advogado, a aprovação do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco. Na véspera do Natal, em uma clínica de Recife, dois embriões criados a partir da união dos gametas dos pais genéticos foram implantados no útero de Danielle. A administradora retornou ao Rio Grande do Sul com a confirmação: estava grávida.

Além de inédita, alegria virou dupla

"Tenho dois, mas esses aqui são dela", explicava Danielle sobre a gravidez dos bebês de Gabriela

Por um aplicativo de celular que permite conversas por vídeo, Gabriela acompanhou, em fevereiro, o ultrassom que identificou a presença de dois bebês. Nos meses seguintes, viajou para participar das consultas de Danielle com a obstetra. Pelas ruas, a mãe biológica testemunhava a surpresa dos passantes frente à exuberante barriga "emprestada" da amiga. Desconhecidos queriam saber o habitual: qual a data prevista para o parto, se a gestante já tinha outros filhos.

– Tenho dois, mas esses aqui são dela – explicava Danielle.

A reação dos interlocutores variava entre diferentes níveis de desconcerto. Alguns encerravam o diálogo, outros tentavam argumentar:

– Mas como é que você vai fazer isso? Como é que você vai ter coragem de dar essas crianças?

Danielle transmitiu aos dois filhos, de cinco e três anos, a explicação mais simples e direta possível: os gêmeos que carregava não poderiam ser chamados de irmãos.

Seriam gestados, com afeto e cuidado, e depois devolvidos aos pais que os haviam concebido. A mãe teve certeza de que José, o primogênito, compreendera o caráter inusual da situação quando o menino se aproximou do ventre dela para uma didática tentativa de diálogo:

– Bebês, vocês estão aí na barriga da minha mãe, Danielle. A mamãe de vocês é a tia Gabi, mas não se preocupem, não. A gente vai cuidar de vocês, dar amor a vocês, e depois vocês vão para a mamãe de vocês. Ela ama muito vocês.

À distância, Gabriela comprou roupinhas para Martim e Pilar, montou o quarto, organizou um chá de fraldas – Danielle não compareceu, mas gravou um depoimento em vídeo para a ocasião. Num dia em que a gestante sofreu com enjoos muito fortes, Gabriela, sentindo-se culpada, encomendou flores. "Tia Dani, eu sei que você não está passando muito bem, mas prometo que vamos fazer você melhorar. Amamos muito vocês", dizia o cartão que acompanhava o buquê.

– É muito estranho. Você está grávida, mas não está – lembra Gabriela. – Eu não ficava racionalizando o tempo todo. Estava vivendo aquele turbilhão. Não dá para dizer "ah, que normal". Não é normal, é viável – define.

Martim e Pilar nasceram em 15 de agosto, de cesariana. Os pais genéticos acompanharam a cirurgia posicionados ao lado da parturiente. Cada um dos nenês foi mostrado primeiro a Gabriela, depois a Danielle. Orientada por membros da equipe médica, que temiam o estabelecimento de um vínculo mais profundo, Danielle não amamentou os gêmeos.

Sofrendo com a produção incessante e inútil de leite, ela resolveu, dias depois, armazenar porções e levá-las até a casa que a família de Gabriela alugou na zona norte da Capital para o período de transição até o retorno ao Nordeste. Durante pouco mais de um mês, as duas mulheres se dividiram nos cuidados, vibrando com o sucesso da "doidice", as descobertas na lida simultânea com dois recém-nascidos e a amizade aque, transformada, crescia. 

– Estou realizada. Me sinto bem feliz em ter proporcionado isso a alguém que não fazia parte da minha vida. Deito na minha cama e acordo feliz todos os dias – resume Danielle.

A mãe novata compartilha das mesmas sensações.

– Estou muito feliz, em paz. E cansada! – relata Gabriela, rindo. – Fecha-se um ciclo. Quero curtir, recomeçar a minha vida. Estou triste porque vou embora, mas muito ansiosa também – completa. 

Ao meio-dia desta terça-feira, Gabriela, a mãe, o marido e os dois filhos embarcaram no Aeroporto Internacional Salgado Filho. Danielle chorou – "eu sempre choro muito", justificou – e descreveu a despedida como "cheia de saudade". Ela e o marido foram convidados a ser os padrinhos de Pilar.

Técnica deve seguir normas do conselho

A gestação de substituição é prevista pelo Conselho Federal de Medicina na resolução 2121/2015, que lista as normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida. O documento teve nova versão divulgada nesta terça pela entidade com sede em Brasília, atualizando um texto anterior, de 2013.

Clínicas de reprodução humana podem utilizar o procedimento de fertilização in vitro em um útero doado temporariamente quando for diagnosticado um problema de saúde que impeça ou contraindique a gestação e também nos casos de união homoafetiva. Um ou mais embriões formados em laboratório, a partir da união dos óvulos e do sêmen dos pais genéticos, são implantados na voluntária. A mulher que "empresta" o ventre deve ser um membro da família de um dos parceiros, em parentesco consanguíneo de até quarto grau (mãe, irmã, avó, tia ou prima).

Para as situações em que não existe parentesco entre os envolvidos, como a de Gabriela Souza e Danielle Figueredo – bem menos comuns –, a implantação do embrião no útero da voluntária deve ser antes aprovada pelo Conselho Regional de Medicina, que avaliará o caso clínico. As famílias precisam providenciar documentação semelhante à que é exigida dos pacientes envolvidos nos processos com parentesco (leia mais no quadro abaixo), como atestados de saúde (detalhando a impossibilidade de gestar de uma das mulheres e o bom estado geral da outra), laudos psicológicos, termo de compromisso entre as partes e declaração de inexistência de caráter comercial ou lucrativo na operação.

– Deve haver a comprovação de que a gestante foi completamente esclarecida sobre os riscos. Cada gravidez configura um risco que ela não correria – alerta Antonio Celso Ayub, conselheiro e coordenador da Câmara Técnica de Ginecologia e Obstetrícia do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers).

 
 
 
 
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