Entrevista

"Há coisas para pessoas com deficiência que são medievais", diz criador de aplicativo

Pernambucano Carlos Edmar Pereira criou o app Livox a partir das necessidades da filha Clara, que tem paralisia cerebral

Por: Bruna Porciúncula
07/11/2015 - 04h02min
"Há coisas para pessoas com deficiência que são medievais", diz criador de aplicativo Carlos Macedo/Agencia RBS
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS  

Há oito anos, em 11 de setembro, a vida do analista de sistemas Carlos Edmar Pereira, 37 anos, deu uma reviravolta. Nascia a primeira filha deste pernambucano criado em Recife. Por uma sucessão de equívocos no parto, a pequena Clara desenvolveu paralisia cerebral. Não foi o fim, mas o começo de uma história familiar que está mudando a vida de centenas de pessoas com deficiência.

Pereira viu-se em uma rotina de extrema dificuldade para se comunicar com a filha e entender os anseios dela. Lançava mão de mímicas e cartões para adivinhar os pedidos de Clara. Com um celular na mão e uma ideia na cabeça, criou o Livox (livox.com.br), aplicativo totalmente voltado para pessoas com deficiência e adaptável às necessidades de cada usuário. O projeto foi premiado neste ano pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Abu Dhabi, como o melhor aplicativo de inclusão social do mundo e também foi reconhecido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington, nos Estados Unidos.

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O nome do aplicativo tem a ver com liberdade por meio da voz e já tem mais de 15 mil licenças só no Brasil. Na semana passada, Carlos Pereira esteve em Porto Alegre para o TEDxUnisinos e conversou com o Vida.

Quando você decidiu criar o aplicativo?
Minha filha tinha uns três ou quatro anos e queria muito se comunicar. A gente fazia isso por meio de cartões. Por exemplo, se ela quisesse uma maçã, eu tinha de tirar uma foto da maçã, imprimir, recortar a imagem, plastificar e criar um cartão. A gente colocava tudo em um fichário para as imagens sobre comidas. Mas era realmente muito difícil. Pensei: "Vou fazer um aplicativo". Comecei com o celular, mas depois comprei um tablet. Criei o Livox. Sou diretor de uma clínica de fisioterapia no Recife (PE), e outras pessoas com deficiência começaram a usar o Livox. Uma vez, uma mulher me perguntou se autista poderia usar. Eu disse que poderia, mas a gente criou algoritmos para as necessidades de quem tem autismo. Adaptamos o Livox para uma variedade gigantesca de deficiências.

Como você avalia a utilização da tecnologia para necessidades especiais?
Há coisas para pessoas com deficiência que são medievais. Precisam evoluir. Acho muito bem-vindo usar a tecnologia para minimizar, tornar a vida delas mais satisfatória. O mais complicado é que as pessoas acreditam que, investindo em tecnologia para pessoas com deficiência, não é possível ganhar dinheiro. Como as pessoas com deficiência são minoria, poucos se interessam em criar um aplicativo para esse público, apesar de, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), termos 1 bilhão de pessoas assim no mundo. É a maior minoria.

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Como funciona o aplicativo

Quando você criou o Livox, já tinha a ideia de expandi-lo para além da sua casa?
Quando comecei a usar com minha filha, vi o impacto que teve na vida dela. Ela se alfabetizou com o Livox, escreveu uma história que foi publicada em livro, mas não consegue segurar um lápis e um papel. Conheço muitas pessoas com deficiência cujas famílias não acreditam no potencial delas, não pensam que elas podem se comunicar, se alfabetizar. Quando vi o impacto na vida da minha filha, sabia que isso poderia mudar a vida de muita gente.

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Além da alfabetização, em que outros pontos mudou o desenvolvimento da Clara?
Vou te dar um exemplo. Quando tenho alguma moeda, ofereço a minha filha e pergunto, pelo Livox, se ela quer guardar ou gastar. Ela tem um cofre e sempre diz que quer guardar. Perguntei o que faria com o dinheiro. Ela disse que, quando enchesse o cofrinho, compraria uma daquelas mochilas de rodinhas. Isso para qualquer um seria algo normal, mas muitos pais de pessoas com deficiência nem se dão conta de que seus filhos são capazes de entender o que é dinheiro, o valor de uma cédula. É muito importante dar a oportunidade de vivenciar isso.

O aplicativo recebeu o reconhecimento da ONU. Isso trouxe mudanças?
Sim, muitas. Em fevereiro, a gente foi a Abu Dhabi receber esse prêmio, de melhor aplicativo de inclusão do mundo. Fomos os únicos a trazer um prêmio para o Brasil. O reconhecimento é excelente, mas o interessante é que, quando estávamos lá, um dos patrocinadores, representante de um consórcio de empresas da liga árabe, quis conversar comigo. Chegou assim: "Olha, quero falar com você por cinco minutos. Queremos distribuir o Livox. Vamos traduzi-lo, localizá-lo e vendê-lo para todos os países da liga árabe. Tem interesse?". Eu disse: "Tenho". Ele apertou minha mão e falou: "Negócio fechado". Daqui a uma semana, volto para a Arábia Saudita para a última apresentação técnica e a primeira venda para o mundo árabe.

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Houve resistência quando você compartilhou o Livox como um negócio?
Mais por conta de que, no Brasil, as pessoas não imaginam o potencial que uma pessoa com deficiência tem. Fora daqui, há mais essa compreensão. Veja o Stephen Hawking: é um físico famoso, que usa um dispositivo parecido com o Livox. Quantos "Hawkings" a gente não tem perdidos no Brasil que não conseguem expressar sua genialidade? Costumo dizer que o conceito de igualdade é fornecer condições iguais a pessoas diferentes.

Você já pensa em outros projetos?
Estamos alterando algoritmos para que as pessoas com deficiência consigam responder até 10 vezes mais rápido. O Stephen Hawking disse que, embora se comunique com o aparelho, isso demora. Ele diz que se sente muito solitário por isso, porque as pessoas não têm paciência para esperá-lo responder. Também vejo isso no Livox. O trabalho não para, sempre abrindo o leque de possibilidades para que pessoas com deficiência se comuniquem.

*Zero Hora

 
 
 
 
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