Entrevista

"Família e amigos têm papel importante no tratamento da depressão", diz psiquiatra

Antonio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria

19/08/2016 - 14h27min | Atualizada em 22/08/2016 - 15h12min

Por trás de sintomas psicológicos (apatia, angústia, isolamento, desesperança, falta de motivação e irritabilidade) e físicos (alterações do sono, cansaço exacerbado, perda ou ganho de peso, desinteresse sexual, dores inexplicáveis) pode estar "o grande mal do século 21", como classifica a depressão a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

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No ano passado, a doença atingia 350 milhões de pessoas em todo o planeta, mais do que a população dos Estados Unidos. No Brasil, eram cerca de 5 milhões de vítimas.

Leia entrevista com Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. 

Como diferenciar a tristeza da depressão?

Tristeza é uma emoção decorrente de situações negativas. Costuma durar até que o fator desencadeador seja assimilado. A depressão é uma doença e não precisa de fatores desencadeadores. Frequentemente, tem tristeza associada a outros sintomas como desânimo, falta de prazer, irritabilidade, alterações de sono e apetite que persistem por duas semanas ou mais.

Qual a importância da compreensão e do apoio de amigos e familiares no tratamento?

A família e os amigos formam uma rede de apoio e têm papel muito importante. Quando o paciente enfrenta o preconceito, o tratamento se torna mais difícil. A família deve se comprometer e acompanhar o tratamento, principalmente quando o paciente expressa vontade de morrer. O suicídio é uma causa de morte passível de prevenção, quando a depressão é tratada adequadamente.

Quais os primeiros sinais da doença que devem ser observados?

Os sintomas clínicos que observamos primeiro são tristeza persistente, desinteresse por atividades que antes eram prazerosas, mudanças na qualidade e na quantidade do sono, fadiga, mudança no apetite e alteração de humor. Deve-se sempre buscar ajuda do psiquiatra quando os sinais persistirem por mais de duas semanas ou quando forem graves o suficiente para causar prejuízos no cotidiano.

Quais medicamentos são utilizados?

Predominantemente, o tratamento é a base de antidepressivos, o que não descarta o uso de outras classes de medicamentos, como ansiolíticos e estabilizadores de humor, a depender dos sintomas apresentados. O tratamento é sempre individualizado.

Em quanto tempo o tratamento começa a fazer efeito?

Depende de cada paciente e da classe de medicação usada. Normalmente, em três ou quatro semanas já se verifica alguma melhora clínica com uso de antidepressivos. Uso regular das medicações, atividades físicas, psicoterapia e hábitos saudáveis ajudam a potencializar os efeitos.

Além dos medicamentos, o que pode ajudar o paciente?

Existem inúmeros fatores que contribuem para o tratamento como psicoterapia, alimentação saudável, prática de exercícios físicos, realização de atividades prazerosas, apoio dos amigos e familiares e eventualmente suporte religioso, dentre outros.

Como deve ser a reinserção do paciente na vida social e profissional? De que forma família e colegas podem ajudar?

Primeiro, os familiares e amigos devem compreender que a depressão é uma doença e necessita de tratamento e atenção. Seguir a orientação do médico é fundamental. Cada paciente tem os seus limites. Então, o momento de reinserção precisa ser avaliado.

 
 
 
 
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