Minimalismo

Talvez você não precise de tudo o que tem

Adeptos de um estilo de vida menos centrado no consumo valorizam apenas o essencial para terem uma rotina mais leve. Saiba como aprender com eles

30/09/2016 - 15h50min | Atualizada em 03/10/2016 - 14h07min
Talvez você não precise de tudo o que tem /
 

"Vou jogar tudo fora." Depois de ler o best-seller A mágica da arrumação, da japonesa Marie Kondo, essa é a ideia que pode ficar martelando na sua cabeça. A autora especialista em organização, que promete revolucionar espaços pessoais e casas cheias de objetos acumulados, é sucesso de vendas no mundo inteiro. No livro, Marie conta que, facilmente, passa de um milhão o número de coisas que seus clientes jogam fora com a ajuda dela. Gente que não conseguia manter a casa organizada e pensava que precisava de um apartamento com mais metros quadros ou reservar mais espaços do lar para armazenamento jogou no lixo dezenas e dezenas de sacolas abarrotadas de pertences.

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A popularidade do livro de Marie e o surgimento de movimentos como o minimalismo — que prega uma rotina mais simples e menos centrada no consumo — sugerem que, provavelmente, nossa sociedade está à procura de uma maneira de "destralhar" o dia a dia e os espaços pessoais. Mas você não precisa jogar tudo fora e muito menos comprar tudo novo para se beneficiar de uma simplicidade voluntária.

No meio de páginas e mais páginas já escritas sobre o assunto, e de relatos de quem resolveu priorizar apenas o essencial dentro da própria casa, no trabalho e na vida, há lições práticas para o dia a dia, reflexões sobre consumo e um alerta para não cair no modismo da vida simples, que pode nos levar a comprar ainda mais. Basta ver os resultados que o Google revela ao buscar pelo termo "minimalismo": projetos de decoração com móveis vendidos por lojas de luxo.

Cultura do acúmulo

No banheiro, meia dúzia de garrafas de xampu pela metade espalhadas perto do chuveiro. Algumas sequer eram usadas. Nas gavetas, cosméticos vencidos e coisas que nem lembrava que estavam lá. É fácil se identificar com o modo como a gerente de projetos Fernanda Marinho, 35 anos, costumava manter o banheiro, um dos espaços mais usados de sua casa.

Acúmulos como o de Fernanda são comuns. Entre os anos de 2001 e 2005, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, examinaram de perto lares de famílias de classe média americanas para entender a relação das pessoas com seus objetos. O estudo gerou um livro — Life at home in the 21st century: 32 families open their doors (A vida no lar no século 21: famílias abrem suas portas, em tradução livre), publicado em 2012 — e cunhou o termo "cultura do acúmulo": compra-se muito, guarda-se tudo. Em uma das casas, nos primeiros três quartos, foram encontrados 2.260 itens em exposição, sem contar o que estava guardado.

Para quem é adepto do minimalismo, a vida começa a ganhar mais sentido quando se mantém apenas o que é necessário. Autora do blog Minimalizo, Fernanda adotou o lema de eliminar o supérfluo e focar no essencial. O que começou como uma atitude para diminuir o número de objetos em casa virou um mantra a ser adotado no trabalho e nas tarefas diárias.

— A satisfação do consumo é muito momentânea. Você compra uma roupa nova e fica feliz mas, daqui a pouco, isso passa. O que fica são as dívidas — avalia Fernanda.

A mineira livrou-se de todos aqueles frascos de xampu sem uso e decidiu eliminar também outros excessos no resto da casa. Ela se deu conta do seu acúmulo quando mudou-se para a casa da mãe, em 2012. Com apenas um quarto disponível para guardar tudo, conseguiu enxergar o que era desnecessário. Enxugou o guarda-roupa, passando a manter apenas o que realmente veste, gosta e ainda serve. Fez um pacto consigo mesma para comprar produtos apenas quando outros já tivessem terminado ou fizerem falta.

Em uma segunda mudança de endereço, dessa vez para dividir o apartamento com o namorado, não contratou serviço de TV a cabo. Resolveu testar se sentiria falta, e não sentiu. Na nova casa, percebeu a utilidade de um micro-ondas e comprou um, sem culpa.

Depois de doar e descartar muita coisa, Fernanda diz que se desapegar melhora a produtividade no trabalho e faz ter mais controle sobre a vida:

— Isso traz segurança e aumenta a autoestima. Você toma conta da sua vida. Uso a roupa que quero usar, e não algo que escolhi só por causa da culpa de ver aquela peça parada no armário. É uma liberdade maravilhosa. Gastar muito pode lhe deixar preso a empregos ruins, simplesmente para poder comprar mais coisas.

Tempo é dinheiro

Pense naquela bicicleta ergométrica que você comprou. O dinheiro foi fruto do seu trabalho. A pesquisa para saber qual escolher levou tempo. Já em casa, depois de meses sem uso, passou a ser um cabide improvisado para as roupas. Vem a sensação de culpa. Você decide usar, mas precisa limpar e fazer manutenção. Mais dinheiro. Até que decide vendê-la.

Para a americana Francine Jay, autora do livro Menos é mais, o tempo que perdemos com os nossos objetos é muito maior do que imaginamos. A manutenção, o processo de compra, a limpeza e a organização entram na jogada. Tem também aquele tempo gasto para procurar as coisas no meio daqueles objetos todos.

Além disso, com o dia abarrotado de tarefas, esses objetos caem facilmente no esquecimento. Compra-se mais sem avaliar o que já se tem em casa. Lá vai mais dinheiro com itens duplicados. Coisas antigas se acumulam entre as mais novas.

— Com menos objetos, consigo limpar a minha casa e gasto menos contratando alguém. A falta de tempo leva a mais consumo — acredita Fernanda, autora do blog Minimalizo.

A tecnologia, que poderia nos ajudar a ganhar tempo, também pode se tornar um vilão — e, nisso, até a Miss Minimalist, como Francine se intitula, às vezes escorrega.

— Como tenho muitos e-mails, tive de procurar por todos para lhe dar meu número de telefone, que não sei de cor. Se eu tivesse poucas mensagens, teria demorado bem menos — relata a escritora ao iniciar a entrevista por telefone à ZH.

Nem tão mínimo

O termo minimalismo, antes usado para descrever um movimento artístico e cultural, ganhou força como movimento de consumo mais consciente na última década. Em 2014, pesquisadores do Centro Universitário La Salle, no Rio de Janeiro, descreveram em um artigo publicado em periódico da PUCRJ o minimalismo como algo que ganha adeptos na sociedade em uma resposta contrária ao bombardeio de informações publicitárias, à lógica implacável do consumismo e às cobranças do mercado de trabalho.

— O consumo consciente passa a ter um valor social em prol de um bem maior. A gente não toma decisões baseadas apenas no dinheiro, mas buscando também a aprovação social. Numa sociedade que passa a valorizar o meio ambiente, isso seria mais uma maneira de aprovação — afirma Carol Franceschini, economista comportamental e sócia da InBehavior Lab.

No meio dessas discussões sociais, surgem pessoas que maximizam o minimalismo — vivem com um número limitado de objetos ou pregam que seus pertences devem caber em uma mala. O minimalismo seria uma "ressaca moral do consumismo", dizem.

Na revista The Atlantic, a escritora Arielle Bernstein descreve a jornada imigratória da sua família aos Estados Unidos e relata como os objetos coletados durante a vida ajudaram a construir a história de cada um deles. Ao tentar fazer o que a "guru" da organização Marie Kondo e outros minimalistas pregam, ela ficou ressentida e viu a necessidade de guardar o que fez parte da construção da sua história.

Para não cair em radicalismos, a questão principal para levar uma vida mais simples pode estar em desfazer-se das coisas que não têm mais sentido, como aqueles objetos baratos comprados por impulso.

— A gente guarda muita coisa para ocasiões especiais, usa aquele perfume só para sair. Mas quando você só tem coisas que ama, gosta e que são úteis, todos os dias são mais especiais — diz Fernanda, do blog Minimalizo.

Fernanda Marinho é autora de blog sobre Minimalismo,  o "Minimalizo" Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

A americana Francine Jay, autora do livro Menos é mais, passou pelo mesmo processo de "desapego" de Fernanda e resolveu criar um guia minimalista. Francine acredita que, ao olhar para todos os itens que acumulamos ao longo do tempo, somos tomados por estresse, e não pela felicidade que foi prometida no instante da compra.

"Nos sentimos compelidos a comprar e a acumular coisas que contêm promessas: de nos fazer mais felizes, bonitos, inteligentes, amados, organizados, capazes, melhores pais ou maridos. Mas, pense assim: se essas coisas ainda não cumpriram suas promessas, talvez seja hora de se livrar delas", escreve a autora.

Minimalismo pode remeter a espaços brancos, estéreis, elitistas. Mas, para Francine, seria a otimização de espaços. O minimalismo na medida, segundo ela, é a procura pelo bem-estar com a otimização do espaço, do tempo e do que fazemos com as coisas e o dinheiro que adquirimos. Tentar eliminar o acúmulo e ser realista com a verdadeira utilidade e felicidade que traz cada objeto. Consumir de maneira mais racional poupa dinheiro, tempo e pode deixar a vida mais prazerosa.

— Tentamos racionalizar a compra depois que foi feita. Então, quando você consome algo por impulso e depois joga fora, tem de admitir para si mesmo que não precisava daquilo. Por isso, vem aquele pensamento: "Talvez precise disso alguma hora" — afirma a economista comportamental.

Mas ela alerta: não há nada de errado em guardar itens para ocasiões especiais. É preciso pensar se, quando o dia virá, você vai realmente fazer uso disso:

— Determine o que é essencial. O que não contribui para nada de positivo e ainda causa efeitos negativos, como tirar a nossa atenção, tempo e espaço de descanso, é que devemos eliminar.

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