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Opinião

Luiz Zini Pires: quem é o treinador que veio da China e desafia Falcão

Cuca lidera o Palmeiras, líder do Brasileirão depois de 14 rodadas

Luiz Zini Pires

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O Palmeiras de Cuca é líder do Brasileirão depois de 14 rodadas

Alexi Stival é Cuca desde guri arteiro. A cada bagunça, dona Nilde, alertava o filho capeta. Dizia e repetia, perto, longe do ouvido do pequeno.

– Oooooolha. Vou chamar o Cuca.

Na Curitiba do começo dos anos 1960, o Cuca real era um delegado famoso pela severidade. Só o sussurro do nome do policial deixava o superativo Alexi quieto, calminho. O apelido pegou em casa, recebeu eco entre os parentes, alcançou os amigos, espalhou-se pela escola e, anos depois, entrou no futebol. Ficou. O novo Cuca nunca se importou. Nos autógrafos, sempre escreveu Cuca. Ninguém pergunta mais por Alexi.

A vasta biografia do treinador paranaense de 53 anos festejados no mês passado é conhecida. Não será necessário repetir que ele é supersticioso, já foi mais. Ou que é campeão da Copa Libertadores da América. A ridícula pecha de técnico azarado (como se sorte e azar, que nem existem, jogassem bola) deixou sua pele feito tatuagem, sumiu. Ou ainda que é o líder do Brasileirão 2016 com o Palmeiras. Os paulistas testam neste domingo, às 16h, no Beira-Rio, o novo Inter de Paulo Roberto Falcão.

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O que importa agora é o Palmeiras. O futuro é verde, promissor. Antes de chegar a São Paulo, no último dia 12 de março, é necessário recuar dois anos, lembrar da sua inesquecível experiência no Shandong Luneng Taishan, encerrada em dezembro do ano passado. O novo Cuca estreia aí.

A China marcou o paranaense que em duas décadas de carreira como técnico, mais de 20 times no currículo, já morou no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Pará, em Goiás e em Brasília. Na primeira aventura fora do país nunca viu nada igual. A Ásia ofereceu novas experiências, um milionário contrato, um futebol emergente e muita solidão.

– É outro mundo. Sabe uma coisa que me marcou muito, muito mesmo?

– Nem imagino – digo.

– A falta da família no dia a dia. Em dois anos, a minha ficou não mais de quatro meses comigo. Senti muita falta. Não há referências, os parentes próximos, os amigos, nada. Falta confraternização. Era eu comigo mesmo.

– Compensou a solidão na comida? Muita gente age assim.

– Comi mal. Não gosto de pimenta.

– E o que você fazia?

– Trabalhava, trabalhava e trabalhava. Me enfurnava no campo de futebol. Depois dos treinos montávamos um time e organizávamos peladas. Nós, da comissão técnica, enfrentávamos os chineses. Quase que voltei a jogar futebol (risos).

– Perdeu a comunicação com o Brasil?

– Não, nunca, mesmo com problemas com a internet. Facebok não dá para acessar por lá. O fuso horário é complicador. É noite lá, aqui é dia.

– O técnico brasileiro é bem tratado?

– O ambiente de trabalho é muito legal. Os chineses nos recebem bem. São educados e atenciosos. Não questionam o trabalho e se esforçam. Os atletas estão muito acostumados a jogar no estilo europeu. Trabalharam com muitos técnicos da Europa. Aos poucos, porém, o time começou a jogar como eu gosto. A tocar a bola, procurar o gol. Demorou, mas consegui. Só não fiquei mais um ano na China porque tive um problema de saúde na família. Decidi voltar.

– Você trouxe algo de novo?

– A gente sempre aprende. A vida é assim. Mas nunca me desliguei do futebol brasileiro. O único problema era acordar às 3h da madrugada para assistir aos jogos do campeonatos regionais, do Brasileirão e da Libertadores. Vi tudo. Acompanhei tudo.

Conectado, o treinador não sentiu a troca de continente e de país e, mesmo quatro meses depois, vê o seu Palmeiras na liderança do Brasileirão, o que alcançou em apenas 14 rodadas.

– A torcida não gostou do empate com o Santos (1 a 1), na quarta-feira passada. Entendo, mas queria mais paciência do torcedor. Ela sabe que eu quero uma equipe competitiva, mas que saiba jogar. Que busque o gol. Gosto de ver um time que jogue bonito.

Quem imagina que Cuca não tenha olhos para o Inter está enganado. Ele costuma observar os adversários no detalhe. Vê vídeo dos jogos, uma, duas, mais vezes. Passa lances aos jogadores. Conversa. Alerta. Estuda.

– Sei que o Inter é um time leve e rápido. Tem volantes que sabem alcançar o setor ofensivo com qualidade e laterais que atacam bem. Quando joga em casa, ataca muito. Vi que o Ariel enfrentou o Santa Cruz. Mas pelo que ouvi, o time será diferente agora. E ainda tem a estreia do Falcão, a motivação e o calor da torcida. Ele é um símbolo do Inter.

Atento, Cuca sabe até que o Inter barateou os ingressos do jogo?

– Espero um Beira-Rio lotado. O Inter tem um bom time. Vai lutar pelo G-4 e pela Libertadores.

No Palmeiras, dizem que o campeão precisará alcançar 70 pontos em dezembro. Nasceu o favorito ao título?

– É cedo, mas a meta é essa. O trabalho recém-começou. Não se faz um time vencedor em tão pouco tempo.

– Nem aqui nem na China?_

– Heheeee

Cuca pede o fim do bom papo. O treino desta sexta-feira ocuparia mais de um hora. Seria intenso. Cuca não deixa ninguém na zona de conforto. Ele mesmo nunca viveu nela.

Antes de chegar ao topo, ralou. Fez sua base. Entre 1998 e 2003, passou por Uberlândia, Avaí, Gama, Remo, Paraná, entre outros menores. Ele encerra.

– Passei no vestibular.

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