Geral

Ambicioso e engraçado

João Ubaldo Ribeiro fez em sua obra retrato irônico da formação do Brasil

Escritor faleceu aos 73 anos nesta sexta-feira por conta de uma embolia pulmonar

Márcio Kranz / Divulgação
João Ubaldo Ribeiro tinha 73 anos

A morte de João Ubaldo Ribeiro priva a literatura brasileira de um autor que não tinha medo de ser ambicioso e engraçado, algo que já demonstrava de forma notável em seu volume de contos Vencecavalo e o Outro Povo (1974). Ao longo das cinco histórias, João Ubaldo monta uma sátira do Brasil usando uma linhagem e um país fictícios. A crônica dos Santos Bezerra, sobrenome dos protagonistas dos contos, é uma sátira feroz ao Brasil que subverte gêneros e cânones da literatura de cá e de lá (qualquer lá), numa geleia geral temperada com muita verve e absurdo.

A formação do Brasil voltaria a ser tema de João Ubaldo em um livro mais "sério", mas não menos irônico, o cartapácio Viva o Povo Brasileiro, um "romance total", já pouco praticado na época em que foi publicado (1984). Até hoje permanece como uma singular tentativa de dar coesão interpretativa ao Brasil por meio da ficção: um país corrompido pela naturalização da violência escravista, no qual a história é feita não da narrativa do passado, e sim de sua completa ignorância ou falsificação. Um nobre que conta vantagens de valente ao matar um escravo durante uma viagem e forjar um ataque contra si mesmo; um empregado mulato que vai gradativamente expoliando a riqueza de seu cruel empregador e que, no processo de enriquecimento, vai também "europeizando" sua árvore genealógica; seus descendentes, irritados com o modo como as coisas funcionam no andar de baixo no qual sua família se originou.

É um grande livro pela ambição de abarcar o Brasil como um processo. E se é irregular devido à vasta extensão, redime-se pela beleza de alguns de seus grandes momentos e pelo uso sofisticado da linguagem, algo também central em Sargento Getúlio (1971). Viva o Povo Brasileiro também retrata, a seu modo, a própria evolução da Língua Portuguesa, castiça na voz dos personagens portugueses da fase mais antiga da narrativa, perfumada e colorida pelo idioma de negros e índios à medida que a trama avança em direção ao triste século 20.


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4 títulos essenciais

Sargento Getúlio

Com uma linguagem seca e inspirada na oralidade sertaneja, o segundo livro de João Ubaldo Ribeiro renovou a temática do coronelismo e fez o baiano despontar como escritor. O personagem que dá título ao romance recebe a incumbência de prender um inimigo do coronel Acrísio Nunes, chefe político que apadrinhou Getúlio no passado. Obstinado a levar a missão ao final, luta até a morte contra os jagunços do próprio Acrísio, que tentam avisá-lo da revogação da prisão. O livro deu a João Ubaldo o prêmio Jabuti de autor revelação em 1972. Além disso, foi adaptado para o cinema por Hermano Penna, em 1983, com Lima Duarte.

A Casa dos Budas Ditosos

Coube a João Ubaldo Ribeiro escrever o volume dedicado à luxúria da coleção Plenos Pecados, da editora Objetiva. O romance é narrado por uma senhora baiana beirando os 70 anos, que surpreende o leitor ao falar de sua vida sexual sem pudores. Histórias de orgias, voyeurismo e sadismo são apresentadas com naturalidade e uma pitada de humor - nem mesmo as investidas sobre o tio e o própio irmão ficam de fora. Lançado em 1999, o título foi adaptado para o teatro por Domingos de Oliveira em 2004, em monólogo encenado por Fernanda Torres.

Viva o Povo Brasileiro

Publicado em 1984, narra histórias que se cruzam em um amplo período de tempo, desde meados do século 17 até o último quarto do século 20. São episódios que ilustram a história do Brasil de modo crítico e satírico, como a catequização dos índios, a abolição da escravatura, a proclamação da república e o golpe de 1964. Traduzido para línguas como alemão (pelo próprio João Ubaldo), espanhol e francês, é um dos livros mais celebrados do autor, premiado com o Jabuti de melhor romance. Os direitos já foram vendidos para o cineasta baiano André Luiz Oliveira.

O Sorriso do Lagarto

Um dos títulos mais conhecidos do autor, foi lançado em 1989 e adaptado na série homônima exibida na Rede Globo, em 1991, tendo Tony Ramos, Raul Cortez, Maitê Proença e outras estrelas em seu elenco. A história é ambientada na ilha de Itaparica, terra natal do escritor, onde um médico estaria fazendo estranhas experiência para criar monstros, híbridos de humanos e répteis. Enquanto isso, a jovem Ana Clara, casada com um político corrupto, vive um triângulo amoroso com um pescador.

Confira abaixo fotos da trajetória do escritor:

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