
A previsão de o governo brasileiro anunciar na segunda-feira o laudo final dos exames que tentam esclarecer as causas da morte do ex-presidente João Goulart, exumado em novembro de 2013, provocou um atrito entre a família do líder trabalhista e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência (SDH).
Filho de Jango, João Vicente Goulart afirma que foi surpreendido pelo cronograma comunicado pela ministra Ideli Salvatti, nesta terça-feira. A família chegou pela manhã a Brasília e aguardava o anúncio para o meio da tarde, após uma reunião na SDH.
Contudo, a ministra concedeu uma coletiva às 11h, na qual deu detalhes da etapa final do trabalho dos peritos, que tentam esclarecer se o político gaúcho foi vítima de um ataque cardíaco ou envenenado em dezembro de 1976, na Argentina.
A reunião entre familiares e SDH ocorreu à tarde, conforme o combinado, porém, João Vicente teme que o cronograma comprometa a análise dos peritos brasileiros e estrangeiros, reunidos em Brasília. Os técnicos se debruçam sobre os laudos dos exames feitos após a exumação. Dois laboratórios, um espanhol e outro português, fizeram testes toxicológicos em amostras de ossos e tecidos do ex-presidente. Já um laboratório paulista analisou os gases retirados do jazigo.
Pela previsão inicial, a família será informada do resultado às 9h de segunda-feira e às 11h o laudo se tornará público, sendo entregue à Comissão Nacional da Verdade. Para João Vicente, é prematuro confirmar que a divulgação do resultado final será na segunda.
- E se os peritos concluírem que precisam de mais tempo e estudos? Foram feitos exames altamente complexos que testaram milhares de substâncias. O laudo precisa ser tratado com cuidado, não se pode fazer um anúncio atropelado - diz João Vicente.
O filho questiona a data marcada para a divulgação oficial do laudo, 1º de dezembro, após a volta da ministra Ideli de uma viagem ao Marrocos, onde ela participa do 2º Fórum Mundial de Direitos Humanos.
- As conversas com o governo sempre foram abertas e francas, mas o programa final se adéqua à agenda do ministério e não às necessidades da perícia - critica João Vicente.
A SDH argumenta que a família Goulart foi ouvida e acompanhou de perto todo o processo de exumação, além dos exames que buscam eventuais substâncias que poderiam ter envenenado Jango. Um dos peritos que atuam no caso, o cubano Jorge Perez, foi uma indicação dos próprios familiares. Neto do ex-presidente e médico, João Marcelo Goulart acompanha a fase final dos trabalhos em Brasília.
A retomada das investigações sobre a morte de Jango foi um pedido feito em 2007 pelos filhos e netos ao Ministério Público Federal (MPF), diante de depoimentos sobre um possível envenenamento do ex-presidente, deposto e exilado pelos militares, dentro de uma conspiração de ditaduras do Cone Sul. O político gaúcho tinha pressão alta, fumava e gostava de carne gorda e uísque. Contudo, seu corpo não passou por autopsia e seu atestado de óbito consta apenas a palavra enfermedad (doença) como causa da morte.
Como Jango morreu há quase 38 anos, existe a possibilidade do laudo feito após a exumação ser inconclusivo. Neto do trabalhista e advogado do instituto que leva o nome do avô, Christopher Goulart defende que as apurações prossigam, com depoimentos de testemunhas e de agentes da repressão, bem como a desclassificação de documentos americanos.
- Se houver um apontamento inconclusivo, esperamos que o processo continue, porque a exumação é apenas uma parte da investigação - afirma.
Relembre o caso
Em novembro de 2013, o corpo de João Goulart foi exumado. O governo brasileiro atendeu um pedido da família, que em 2007 solicitou ao MPF a reabertura da investigação da morte do político.
Em 1964, Jango era presidente da República quando foi deposto pelo golpe militar. Exilado, morreu na Argentina, em 1976.
Após suspeitas de envenenamento, a exumação tenta esclarecer se o político teve uma morte natural ou se foi assassinado. Exames toxicológicos foram feitos em amostras retiradas do corpo do ex-presidente para encontrar eventuais substâncias letais. O laudo final será divulgado na segunda-feira.
Laboratórios
Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (Portugal)
Serviço Externo de Ciências e Técnicas Forenses (Espanha)
Tasqa Serviços Analíticos (Brasil)
Peritos
Polícia Federal: Amaury Allan de Souza Junior, Alexandre Raphael Deitos, Gabriele Hampeel e Jeferson Evangelista Correa
Argentina: Patricia Bernardi e Marina Selva
Uruguai: José López Mazz e Alicia Lusiardo
Cuba: Jorge Perez
Portugal: Mario João Dias
Espanha: Aurelio Luna
Fonte: SDH
Veja imagens da movimentação em São Borja: