Gravuras em metal 

Nara Amelia revela seu universo de seres fantásticos e discute a moral religiosa em nova exposição

Jovem artista inaugura mostra "Paisagem moralizada" na galeria Bolsa de Arte

10/11/2016 - 08h08min | Atualizada em 10/11/2016 - 08h08min

Passear os olhos por um trabalho de Nara Amelia é encontrar-se com aves em pele de carneiro, macacos com chifres de búfalo e homens com cabeça de galo casualmente andando de charrete. 

Do encontro com essa realidade às avessas, leva-se muitas dúvidas. Figuras de animais agindo como seres humanos e exprimindo sentimentos lembram ilustrações de fábulas e contos infantis. Mas, ao contrário dos irmãos Grimm, a artista não entrega mensagens claras. E foge da lição de moral. Nara investiga justamente por que projetamos qualidades humanas nos animais, repensando o que é de sua natureza e que lhe é atribuído pelas pessoas.

– Nós significamos a natureza porque ela não nos comunica coisas com uma linguagem que entendemos. O homem significa o que lhe é alheio – teoriza a artista.

Figuras híbridas de seres humanos com animais aparecem em trabalhos como "A jóia falsa do meu câmbio" (2011) Foto: Reprodução / Reprodução

Nara nos apresenta seu universo fantástico na exposição Paisagem moralizada, com abertura nesta quinta-feira (10 de novembro), na galeria Bolsa de Arte. Os cerca de 60 trabalhos datados de 2009 a 2016 mostram como a artista de 34 anos, natural de Três Passos, noroeste gaúcho, construiu uma linguagem coesa. Cada obra envolve diversas técnicas. O processo costuma iniciar por um desenho impresso em papel por meio de gravura em metal – a precisão de detalhes escancara o domínio desse recurso, que Nara descobriu em 2002 e hoje ensina a seus alunos na UFPel. Depois, os trabalhos podem ser coloridos com aquarela ou lápis de cor, ganhar bordados e até origamis. O suporte às vezes é um livro cujo texto Nara apaga:

– Deixo só frases que permitam articulações alegóricas da imagem com texto.

Algumas figuras já estiveram na mostra anterior de Nara, O mundo é uma fábula, em 2012, no Santander Cultural. Mas, agora, aparecem em papéis diferentes. Nos trabalhos recentes, os vegetais ganham importância como elementos simbólicos. Olhando para a obra Ressentimento (2016), Nara conta: 

– Lembro da minha mãe falando que o nome dessa planta era Pelinho do Diabo. Aquilo me impressionou: como uma planta tão bonitinha tinha esse nome? Procurei outras plantas que traziam aspectos moralizantes nos próprios nomes.

"Ressentimento" ( 2016), da Série "Paisagem moralizada", Água-forte, douração e desenho com caneta esferográfica Foto: Divulgação / Bolsa de Arte

O trabalho é impresso em um livro sobre o artista El Greco do qual Nara removeu as imagens, de cenas religiosas. À artista são caras as referências bíblicas. As alegorias próprias da moral judaico-cristã a influenciam ainda mais do que as fábulas. 

– Foi importante para mim descobrir artistas como Dürer e Rembrandt. Lembro de olhar a gravura de Adão e Eva (de Dürer), os tantos detalhes, os animais significando os temperamentos do homem. Sempre que questiono de onde vêm meus personagens, penso nas imagens que me marcaram.

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Nara Amelia – Paisagem Moralizada
Abertura quinta-feira (10 de novembro), às 19h.
Visitação: de segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 13h30min. Até 23 de dezembro.
Local: Bolsa de Arte (Rua Visconde do Rio Branco, 365), fone (51) 3332-6799. Entrada gratuita.
A exposição: artista Nara Amelia mostra cerca de 60 obras que compõem panorama da sua produção em técnicas como gravura em metal, desenho, bordado e outros.

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