O rei da dor de cotovelo

10 curiosidades sobre a vida de Lupicínio Rodrigues

"Lupi, o Musical: Uma Vida em Estado de Paixão" volta a cartaz nesta quinta em Porto Alegre

16/07/2014 - 11h57min | Atualizada em 16/07/2014 - 19h17min
10 curiosidades sobre a vida de Lupicínio Rodrigues Reprodução/Ver Descrição
Apesar de conhecido na boemia, Lupi também tinha seu lado caseiro Foto: Reprodução / Ver Descrição  

Correção: Até as 19h17min de quarta-feira (16/07/2014), esta matéria informou que Caetano Veloso havia gravado Felicidade depois de conhecer Lupicínio. No entanto, o biógrafo Marcello Campos contesta a informação. Segundo ele, Caetano gravou a canção antes do encontro.

Lupicínio Rodrigues é uma das figuras mais interessantes e complexas da música brasileira. Nascido em Porto Alegre, o cantor e compositor era conhecido como o inventor da dor de cotovelo, compôs músicas que entram facilmente no rol das mais melancólicas do cancioneiro nacional, é o autor do hino do Grêmio e tinha conhecida vida na boemia.

Mas a peça Lupi, o Musical: Uma Vida em Estado de Paixão, que tem apresentação no Salão de Atos da UFRGS nesta quinta-feira, às 20h, deseja mostrar um outro lado do compositor. O diretor e dramaturgo Artur José Pinto estudou a vida de Lupi para levar a peça aos palcos e acabou se tornando especialista no artista. Lupi, o Musical também comemora 100 anos de nascimento do artista. Para ZH, ele conta dez características curiosas e pouco conhecidas do grande compositor gaúcho que descobriu depois de tanta pesquisa.

1. Apesar de boêmio, no fim de semana ele virava caseiro

– Quando falam do boêmio, tu sempre imagina um camarada que vive na noite, de bar em bar. Mas ele tinha um lado caseiro muito grande. Ele só era boêmio de segunda a sexta, no fim de semana gostava de reunir a família, fazer churrasco, cozinhar para os amigos. Mais tarde, comprou um sítio na Cavalhada, ali perto da Avenida Otto Niemeyer, onde criava porco, galinha, pato, e adorava essa vida – conta Arthur.

2. Não podia chegar em casa depois das 4h

– Quando ia para a noite, Lupicínio tinha uma carta de alforria da mulher até as 4h da manhã. Se chegasse às 4h01min, a casa caia. Então, ele tinha uma rotina: chegava em casa pontualmente às 4h, tomava uma sopinha e ia deitar. Perto do meio dia, acordava e ia cozinhar. Almoçava, tirava uma sesta e, pelas 15h, começava o ritual: vestia o melhor terno e saía. Como ele era representante da SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música), dava uma passada na sede e, logo depois, ia de bar em bar. Usava como desculpa a função de representante do sindicato, mas era só isto: uma desculpa.

3. Trabalhou na Carris antes da fama

– Ele chegou a trabalhar na Carris, como auxiliar de mecânico, uma espécie de aprendiz, mas não deu certo. Depois, foi ser bedel da faculdade de direito da UFRGS, aquele cara que fica cuidando dos corredores, faz serviço para os professores. Nessa profissão, ele ficou muito tempo – lembra o diretor.

4. Seu melhor amigo era um boxeador que cantava na noite

Livro recupera a história de Johnson, cantor e boxeador amigo de Lupicínio  reprodução/Divulgação

– O maior amigo do Lupi era o Orlando Silva, um cara conhecido como Johnson. Eram corda e caçamba. O Johnson era boxeador, teve até grande destaque em Porto Alegre. E o cara era um doce de pessoa: chegou a apanhar de um amigo em comum deles, e apanhou quieto, porque sabia que era muito mais forte que o outro. O Johnson era um dos maiores intérpretes das composições do Lupicínio, cantava na noite. Era um grande amigo, tanto que as pessoas contam que, no enterro do Lupi, o Johnson não conseguia aceitar que ele estava morto, perdeu totalmente a noção da realidade, a referência.

5. Era o culpado por falir todos os investimentos em que punha a mão

– Ele foi proprietário de alguns bares e restaurantes. Era sócio do Rubens Santos. Alguns não deram certo, outros duraram mais algum tempo. Mas nenhum existe mais. O Rubens Cardoso reclamava muito, porque o Lupicínio ia de bar em bar e aproveitava para dar uma canja, cantava um pouquinho, e os fãs iam de bar em bar com ele. E acabavam não indo no bar dele! Por essas, que ele faliu algumas vezes...

6. Foi quase aposentado pela bossa nova e pela jovem guarda

– Na década de 1960, ele foi quase ao ostracismo, sofreu muito com a invasão da jovem guarda, do rock, da tropicália, da bossa nova. O gênero em que ele compunha ficou em segundo plano, principalmente em Porto Alegre. Ele foi voltar só depois, nos anos 1970.

7. Foi salvo por Caetano Veloso

– Uma vez, ele encontrou Caetano num bar aqui em Porto Alegre. Caetano saiu de um show todo maquiado e a gauchada ficou com o pé um pouco atrás. Baiano, de batom, não foi bem recebido. Mas Lupi o acolheu, eles ficaram uma madrugada inteira conversando. Caetano gravou Felicidade. Foi um marco, porque depois ele começou a ser gravado por Bethânia, Gal, Jamelão, Elza Soares, Elis Regina. Ele acabou voltando. Quando morreu, em 1974, estava no auge de novo.

8. Aos 14 anos, já circulava pelas rodas de samba (e compunha)

 Lupicínio era um papa-prêmio. Onde ele colocava música, ganhava troféu. Com 14 anos, já estava fazendo samba. O pai viu que o guri não era flor, gostava de samba, de mulher, de noite, já tinha roda de amigos... Tanto que ele gravou o primeiro samba com 14 anos. Gravou e já ganhou prêmio. A música se chamava Carnaval. O pai dele, seu Francisco, preocupado com o futuro do guri, alistou o Lupi no exército. Achou que ia mudar a personalidade dele, só que não deu muito certo. Em Santa Maria, onde ele foi ser praça, acabou formando um grupo de amigos, formou um grupo para passar a noite inteira tocando samba no quartel. O que fazia com que ele passasse o dia inteiro dormindo pelos cantos do quartel, muito mais do que trabalhar.

9. A dor de cotovelo tinha muito de marketing

Lupicínio Rodrigues será homenageado no Curtas Gaúchos deste sábado RBS TV/divulgação

Nervos de Aço, Cadeira Vazia Se Acaso Você Chegasse. A cada experiência amorosa, ele fazia música para sublimar a dor. Mas acho que essa história de dor de cotovelo foi uma escolha bastante profissional, nem tanto de catarse artística. Porque ele viu que fazia sucesso, as pessoas gostavam e compravam, e ele se firmou no gênero. Música de dor de cotovelo era muito bem aceita, as pessoas curtiam – conta Arthur.

10. Deu o troco em um dono de restaurante racista da melhor maneira possível

– Ele costumava ir ao restaurante de um português em Porto Alegre. Certo dia, o garçom se recusou a atendê-lo, informou que o dono não queria mais receber negros. Lupicínio protestou, chamou a polícia e citou a lei Afonso Arinos (assinada por Getúlio Vargas em 1951, que proíbe a discriminação racial no Brasil), que tinha sido aprovada havia pouco. Isso foi interessante, porque era quase inédito um negro protestar dessa maneira, como também era muito difícil que um delegado acatasse a queixa. O dono do restaurante foi citado judicialmente, respondeu processo. E a vingança do Lupi foi ir em um outro restaurante do mesmo dono, para ser servido por ele.

SERVIÇO:
O quê: Lupi, o musical - Uma Vida em estado de paixão
Quando: 17 de julho, 20h
Onde: Salão de Atos da Reitoria da UFRGS -  Avenida Paulo Gama, 110
Ingressos: R$ 60,00 (inteira)
Descontos de 50% para idosos e estudantes
Ingressos à venda: Bilheteria do Salão de Atos da Reitoria da UFRGS
Quarta e quinta, a partir das 14h
Descontos:. Meia entrada: idosos e estudantes
Informações: (51) 3308-3058

 
 
 
 
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