Personagem à deriva

Sexo, ócio e redes sociais estão no centro do novo livro de Paulo Scott

O escritor autografa "O Ano em que Vivi de Literatura" nesta sexta-feira, em Porto Alegre

Por: Alexandre Lucchese
22/10/2015 - 05h02min
Sexo, ócio e redes sociais estão no centro do novo livro de Paulo Scott Olavo Amaral/Divulgação
O escritor gaúcho vive atualmente no Rio Foto: Olavo Amaral / Divulgação  

Ganhar o maior prêmio literário do país pode ter péssimas consequências. É o que Paulo Scott faz o leitor se convencer ao longo da leitura de O Ano em que Vivi de Literatura, romance que o autor lança nesta sexta-feira, às 19h, na Livraria Cultura.

Quem conhece um pouco da história do autor gaúcho, que há anos abandonou a carreira de advogado para se dedicar integralmente à literatura, pode imaginar que o título tem relação com a própria vida do escritor. Scott, no entanto, trata de esclarecer que o novo livro nada tem de autobiográfico.

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– É ficção pura, o protagonista não sou eu. Não vivi as situações que estão ali.

É um livro de excessos – apressa-se em dizer ao atender a ligação de ZH no Rio, onde vive há oito anos.

Depois de ganhar R$ 300 mil da mais bem paga premiação literária do país, o personagem principal do romance, o escritor Graciliano, entra em uma espiral de sexo, álcool, solidão e ócio. Poucos meses depois de ter embolsado o prêmio, começa a se endividar no cartão de crédito e passa a viver com um editor em seu encalço – o escritor deve à editora um livro que não consegue escrever, mas do qual já torrou o adiantamento. Aos poucos, o leitor percebe que o vazio do protagonista tem raízes profundas, como afetos familiares que se romperam, alguns deles misteriosamente.

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Apesar de não ser autobiográfico, o ambiente no qual Graciliano se move tem similaridades com o de Scott. O personagem também é um gaúcho que vive no Rio e frequenta o meio literário do centro do país.

– Uso o cenário, mas não tive a intenção de ser um cronista desse ambiente – explica o autor.

As cenas de sexo do início do livro são atraentes, mas vão perdendo a força na medida em que a trama avança. Não se trata de um problema da narrativa, mas de um acerto: o leitor vai perdendo o interesse na contínua repetição das relações superficiais e fugazes do personagem, vivenciando com ele a sensação de esvaziamento emocional e incapacidade de estabelecer relações mais aprofundadas.

– Sexo é bom, mas sempre que há sexo demais há uma coisa errada – avalia Scott.

Não só sexo, mas internet demais também é um problema para Graciliano. Longe de perceberem o vazio cotidiano do personagem, seus amigos de Facebook lhe oferecem centenas de curtidas e comentários a cada poema ou brincadeira postados. Apesar de fugaz, a atenção imediata dos frequentadores da rede social agrada ao escritor, que desperdiça seu potencial criativo nas postagens, deixando de lado o trabalho literário.

– Já vi muito poeta não conseguir mais escrever fora do Facebook – conta o autor.

Muitas vezes tolo, fútil e superficial, Graciliano é também sedutor e capaz de angariar a simpatia de qualquer um – inclusive do leitor. É um personagem complexo, sobre o qual se baseia a força de

O Ano em que Vivi de Literatura, um livro que revela a solidão e os diferentes modos de escondê-la nos nossos dias.

O ANO EM QUE VIVI DE LITERATURA

De Paulo Scott. Romance, Foz, 256 páginas, R$ 39,90. Lançamento nesta sexta-feria, às 19h, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80). Cotação: 3 de 5 estrelas

 
 
 
 
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