
Ainda longe de seu fim, 2014 está manchado como o ano da externalização do racismo no futebol. Já foram mais de cinco os episódios em que bananas, gestos e sons preconceituosos partiram de arquibancadas, atingiram equipes em campo, geraram exaltada discussão pública... E ficaram nisso. É como se cada sílaba da palavra "ma-ca-co" não provocasse repulsa o suficiente para não ser mais repetida.
- Infelizmente é um fato corriqueiro e que vem se manifestando mais explicitamente nos últimos tempos. As pessoas estão perdendo o medo de liberar seus preconceitos. Os estádios parecem territórios sem lei - resume Márcio Chagas da Silva, árbitro vítima de preconceito em março deste ano.
Na maioria das vezes, as agressões verbais partem de grupos de torcedores que ficam impunes por ausência de provas ou por falta de uma queixa formal da vítima - exigência legal para levar o caso aos tribunais.
Grêmio identifica cinco torcedores e suspende dois associados envolvidos em incidente de racismo
Aranha presta depoimento em delegacia de Porto Alegre
A principal dificuldade é identificar o criminoso em meio a dezenas ou centenas de pessoas.
- Se tem a representação do ofendido e elementos de provas, a punição vai acontecer. Todos os casos que chegam à Justiça são julgados, aplicando a lei com o rigor que ela exige - garante o juiz Marco Aurélio Martins Xavier, do Juizado do Torcedor e Grandes Eventos.
No entanto, para Christiano Jorge Santos, promotor de Justiça do Estado de São Paulo e especialista em crimes de preconceito e discriminação, a questão neste caso é a impunidade. Santos encara o racismo como um problema "iminentemente cultural", mas acredita na importância da responsabilização como uma resposta imediata aos recorrentes episódios. E como a judicialização de um caso de injúria racial depende da vítima, que precisa expressar vontade de processar o autor do crime, o promotor vê a atitude proativa dos jogadores como um primeiro passo para o fim das práticas racistas no futebol:
- Se a pessoa souber que está sujeita a ser condenada criminalmente, ela vai pensar dez vezes antes de fazer uma bobagem dessas. Agora, é uma questão de conscientização dos jogadores, porque vira e mexe eles querem fazer a média com a torcida, acabam posando de bom moço, dizendo que "a vida é quem vai ensinar". Mas são justamente eles que precisam começar a exigir uma punição e possibilitar que a Justiça faça alguma coisa.
Opinião ZH: "Racismo tem que ser banido sem tréguas"
Árbitro inclui na súmula de Grêmio x Santos caso de racismo na Arena
Câmeras são aliadas na hora de identificar agressores
Uma das formas mais eficientes de fiscalizar os torcedores é a vigilância por meio de câmeras. Mecanismo de uso recente, ele tem sido peça-chave em mudar a cultura da discriminação racial que por muito tempo foi tolerada como parte do cotidiano futebolístico.
- A maior contribuição do monitoramento eletrônico, além de permitir a punição do individuo, é acabar com o sentimento de anonimato entre a multidão - opina o promotor José Francisco Seabra Mendes Júnior, da Promotoria do Torcedor em Porto Alegre, enfatizando que a Arena e o Beira-Rio contam, cada um, com cerca de 200 câmeras de vigilância.
Seabra lembra que os dois estádios têm poucos obstáculos entre as cadeiras e o gramado, e mesmo assim eventuais invasões e arremessos de objetos para o campo ocorrem em bem menor número do que em anos anteriores, quando existiam fossos e grades.
- A maior mudança desta mentalidade é que o torcedor sabe que o clube pode ser punido - acrescenta Seabra.
O advogado Ricardo Breier enfatiza que o clube não pode pagar pela conduta de torcedor racista e tem de tomar todas as providências possíveis para identificar os autores.
- Se colaborar 100%, demonstrará que é contra os atos racistas e, assim, não poderá ser punido - afirma Breier, integrante da comissão nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), e secretário-geral da OAB/RS.
Quando as imagens são deficientes, a punição aos autores tende a ficar mais dificil, como são os casos da manifestação de racismo contra o zagueiro Paulão, na Arena, e contra o ex-árbitro Márcio Chagas da Silva, no estádio do Esportivo, em Bento Gonçalves.
Atos são mais percebidos, mas ainda difíceis de punir
Especialistas concordam que o racismo ganhou uma atenção maior em campo na última década - o que não significa dizer que não existia antes. Para Gustavo Bandeira, doutorando em Educação pela UFRGS e pesquisador dos comportamentos nos estádios, a inserção e as conquistas do movimento negro nos últimos anos geram reações por parte de uma sociedade "ainda conservadora", como define.
- Frequentei estádios na década de 1990, e desde lá funciona assim: jogadores brancos erram porque são maus jogadores, jogadores negros erram porque são negros. A diferença é que esse preconceito não era discutido.
Um dos pontapés para dar luz ao debate do racismo no futebol foi a discussão sobre o vocabulário politicamente correto, acredita Marcus Vinícius de Freitas Rosa, doutor em História pela Unicamp e pesquisador das relações raciais no Rio Grande do Sul. Para Rosa, a luta do movimento negro e a "tímida e frágil campanha" da Copa do Mundo foram co-autoras na identificação das práticas racistas no estádios _ porém não suficientes para evitá-las.
- Qual a repercussão que a imagem dessa garota agredindo o goleiro terá sobre as relações práticas? Perceber o racismo é uma coisa. Nossa capacidade de intervir sobre ele é outra. No Brasil, existe a ideologia do mito racial. Então acredita-se que, sendo todos misturados, todos são iguais. Porém estamos em um processo de miscigenação há séculos, e isso nunca nos levou à inexistência do racismo. Uma das saídas é uma discussão que já acontece há tempos nos Estados Unidos: os brancos têm que se dar por conta que são, efetivamente, socialmente beneficiados pelo simples fato de serem brancos.