Entre a inflação e a produção

BC toma nesta quarta decisão sobre juro que deve definir o ritmo da economia neste ano

Redução da taxa Selic para 13,25% ao ano indicaria maior preocupação com o nível dos preços. Para 13%, com a atividade da economia

10/01/2017 - 21h58min | Atualizada em 10/01/2017 - 21h58min

Após dar a largada, no último trimestre do ano passado, a um novo ciclo de redução de juro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) toma nestaquarta-feira decisão que deve definir o ritmo da economia neste ano. Pelo consenso do mercado financeiro, vai acelerar o corte na taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano. Depois de diminuir o juro básico duas vezes seguidas em 0,25 ponto percentual, a dúvida entre os analistas é se a diminuição será de 0,5 ponto, opção considerada mais provável, ou mais ousada, de 0,75 ponto.

Foto: Arte ZH

A inflação em trajetória de queda mais acentuada do que o esperado e a ausência de sinais de retomada da atividade após sete trimestres consecutivos de Produto Interno Bruto (PIB) negativo são considerados fatores que poderiam levar o BC a ser mais arrojado. Entre os partidários da aposta em corte maior está a equipe de pesquisa macroeconômica do Itaú Unibanco, maior instituição financeira do país, até o ano passado comandada pelo atual presidente do BC, Ilan Goldfajn.

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Por outro lado, pairam nos horizontes doméstico e externo incertezas que poderiam impactar o câmbio e realimentar a pressão nos preços. Lá fora, a incógnita é relacionada aos reflexos da chegada de Donald Trump à Casa Branca. A promessa de reaquecer a economia americana poderia levar o banco central dos EUA a recalibrar o juro para cima, com a possível revoada de dólares para casa.

Por aqui, permanecem os riscos de turbulências políticas derivadas da Operação Lava-Jato, delações, possibilidade de cassação da chapa Dilma-Temer e a espera por votações de reformas no Congresso, como a da Previdência. Para completar o cardápio de variáveis à mesa, hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o IPCA – considerada a inflação oficial do país – de dezembro e do fechamento do ano, com possibilidade de ficar abaixo do teto da meta de 6,5%, o que não ocorria desde 2014.

Entre os economistas, há a percepção de que, se o Copom for mais agressivo, estaria olhando além da desaceleração dos preços. Para Rogério Mori, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), as duas possibilidades são defensáveis:

– O corte de 0,75 ponto percentual poderia ser uma injeção de ânimo para a economia se recuperar mais adiante e mostraria que o BC está olhando um pouco mais para a atividade.

Não podemos descartar também pela surpresa positiva da inflação nos últimos meses – diz Mori, que, entretanto, joga suas fichas em um corte de 0,5 ponto percentual.

Selic é uma das poucas opções do governo

Economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin torce para uma redução de 0,75 ponto percentual. A diminuição de 0,5, avalia Cagnin, indicaria que o BC ainda está mais atento à inflação. Se for 0,75, mostraria que as preocupações em relação à atividade econômica começam a ganhar mais peso, enquanto os preços parecem estar sob controle:

– Embora o impacto de um corte de juro ocorra em torno de seis meses, abre espaço para que a população e as empresas renegociem suas dívidas em melhores condições e ainda para começar a estimular o consumo e o investimento. Uma renda que era canalizada para o pagamento de dívidas pode ser direcionada para outros fins.

O especialista lembra ainda que, no momento, este é um dos poucos instrumentos à disposição do governo federal para tentar reanimar a economia, já que meios como desonerações e gastos públicos ficaram inviabilizados pela crise nas contas públicas.

Também à espera de um corte de 0,5 ponto percentual, o economista Mauricio Nakahodo, do Mitsubishi UFJ Financial Group (MUFG), lembra que, além do ritmo da redução da Selic, outras questões domésticas precisam convergir para o Brasil começar a ver a recessão no retrovisor nos próximos trimestres. Pelo lado da confiança, seria importante como indicativo de que o Brasil caminha para reequilibrar suas contas no longo prazo a tramitação sem sustos da reforma da Previdência.

– Precisa andar, ainda, o pacote de concessões nas áreas de energia e transportes. Assim, novos leilões poderiam ser lançados – entende Nakahodo, acrescentando que isso ajudaria na percepção de que o país, ao resolver gargalos de infraestrutura, ganharia competitividade nas próximas décadas.

Expectativa de cortes seguidos até setembro

Para o MUFG, a tendência é de sucessivos cortes de 0,5 ponto percentual até setembro, quando a taxa Selic se estabilizaria por um tempo em 10,75%. O analista de investimento Breno Brito, do BullMark Financial Group, entende que a possibilidade de o BC pisar no acelerador do corte do juro em relação ao 0,25 ponto de outubro deve ser atribuída principalmente aos números da inflação melhores do que o esperado.

– O relatório do BC de setembro previa, no melhor cenário, inflação de 4,5% (em 12 meses) no terceiro trimestre de 2017. Mas o relatório de dezembro já puxou essa expectativa para o segundo trimestre – ressalta Brito.

A projeção do mercado, expressada no boletim Focus do BC na última segunda-feira, é de que o IPCA feche 2017 em 4,81%. Uma semana antes, estava em 4,87%. Para 2016, a previsão dos analistas é de que o índice encerrou o ano em 6,35%. Assim, espera-se que a Selic possa chegar ao fim do ano em 10,25%.

 
 
 
 
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