Caso Bernardo

"Eu não fiz por querer, nunca quis", diz madrasta de Bernardo sobre morte do garoto

Em depoimento prestado à Polícia Civil no dia 22 de abril, Graciele Ugulini chora e se arrepende por ter matado Bernardo Boldrini

20/07/2014 | 21h31
"Eu não fiz por querer, nunca quis", diz madrasta de Bernardo sobre morte do garoto Arquivo pessoal/Divulgação
Em depoimento de quase duas horas prestado no dia 22 de abril, Graciele apareceu chorando e afirmou estar arrependida do crime Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

A madrasta do menino Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, encontrado morto em uma cova às margens de um rio em Frederico Westphalen em abril deste ano, falou à Polícia Civil de Três Passos que o assassinato do garoto não foi "por querer". Em depoimento de quase duas horas prestado no dia 22 de abril – divulgado na noite deste domingo pelo Fantástico –, Graciele Ugulini apareceu chorando e afirmou estar arrependida do crime.

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– Nunca tive a intenção de fazer uma coisa dessas, de maneira nenhuma – disse.

Presa em Guaíba, na Região Metropolitana, a madrasta garantiu que não aplicou a injeção letal no menino e que o enteado morreu dentro do carro, no dia 4 de abril. Segundo a enfermeira, companheira de Leandro Boldrini, pai de Bernardo, o garoto "começou a babar" dentro do carro após ingerir uma quantidade muito grande de remédios:

– Vi que ele começou a babar, chamei, sacudi e nada. Acho que dei muito remédio pra esse guri. Eu só pensei: a gente vai ter que dar um jeito no corpo, tem que esconder esse guri em algum lugar, fazer alguma coisa. Quando chegar em casa, invento qualquer coisa. Na hora foi a saída que achei. Ela (Edelvânia Wirganovicz, acusada de ajudar no crime) me levou pra esse lugar e lá a gente enterrou.

Graciele garante que Leandro Boldrini, recolhido à Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), não tinha conhecimento do assassinato e não ajudou a arquitetar o crime:

– No caminho eu vim pensando: o que eu vou dizer pro pai dele? Aí eu resolvi falar isso, que ele tinha ido dormir num colega. Mas eu tava tão desesperada, tão desesperada, que só queria consumir com o corpo. Mas eu não fiz por querer. Eu nunca quis, não era essa a intenção, não era.

Assistente social confirma detalhes à polícia

Zero Hora teve acesso à gravação em vídeo do depoimento que desvendou a morte de Bernardo. Na noite de 14 de abril, por cerca de 58 minutos, a assistente social Edelvânia Wirganovicz repetiu para a polícia, desta vez formalizando o depoimento, os detalhes que horas antes haviam levado os policiais até a cova em que o corpo nu do menino estava enterrado.

Em Frederico Westphalen, informalmente, Edelvânia havia confessado participação no crime, dizendo ter recebido dinheiro da madrasta de Bernardo, Graciele Ugulini, para ajudar a enterrá-lo. Conduziu os policiais até o buraco. Levada para Três Passos, prestou depoimento para a delegada regional Cristiane de Moura e Silva. No mesmo prédio, já estavam presos Graciele e o pai do menino, o médico Leandro Boldrini.

Mascando chiclete, contou, por exemplo, sobre o produto comprado para "dissolver rápido a pele" do menino e não "dar cheiro". Por duas vezes tomou água. Em alguns trechos da fala, pareceu quase sorrir ao buscar na memória algum detalhe questionado pela delegada. Explicou pausadamente o que disse à amiga Graciele quando soube do plano para matar Bernardo: "Eu disse 'pensa bem no que tu vai fazer, olha o risco, né, pensa bem para ser bem feitinho'".

Também descreveu a forma como o menino foi colocado no buraco e o que foi jogado sobre ele.

Em dois momentos foi contundente ao negar o envolvimento de qualquer outra pessoa no crime. Questionada sobre se o pai de Bernardo tinha conhecimento do que Graciele fez, Edelvânia afirmou que não, que ele não sabia. Ao final do depoimento, reforçou para a delegada a informação de que não havia outros envolvidos a não ser ela e Graciele.

Aliás, em mais de um momento ela se interessou em saber se a madrasta havia confessado e se havia jogado a culpa sobre ela. Cinquenta minutos depois de começar a falar, chorou rapidamente. Limpou as lágrimas e seguiu colaborando com a escrivã que se preparava para começar a leitura do depoimento para ela.

Pouco depois, outra mulher que estava na sala perguntou o porquê de ela não ter contado nada antes. Edelvânia chorou novamente e esfregou a barriga. A delegada, então, pediu o contato de alguém da família que pudesse ser avisado sobre a prisão dela.

Assista à íntegra do depoimento prestado por Edelvânia:

Relembre o caso

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste. De acordo com o pai, o médico cirurgião Leandro Boldrini, 38 anos, ele teria ido à tarde para a cidade de Frederico Westphalen com a madrasta, Graciele Ugulini, 36 anos, para comprar uma TV.

De volta a Três Passos, o menino teria dito que passaria o final de semana na casa de um amigo. Como no domingo ele não retornou, o pai acionou a polícia. Boldrini chegou a contatar uma rádio local para anunciar o desaparecimento. Cartazes com fotos de Bernardo foram espalhados pela cidade, por Santa Maria e Passo Fundo.

Na noite de segunda-feira, dia 14, o corpo do menino foi encontrado no interior de Frederico Westphalen dentro de um saco plástico e enterrado às margens do Rio Mico, na localidade de Linha São Francisco, interior do município.

Segundo a Polícia Civil, Bernardo foi dopado antes de ser morto com uma injeção letal no dia 4. Seu corpo foi velado em Santa Maria e sepultado na mesma cidade. No dia 14, foram presos o médico Leandro Boldrini — que tem uma clínica particular em Três Passos e atua no hospital do município —, a madrasta, uma amiga dela, identificada como Edelvânia Wirganovicz, 40 anos, que colaborou com a identificação do corpo.

Posteriormente, o irmão de Edelvânia – Evandro Wirganovicz – foi preso temporariamente por suspeita de facilitar a ocultação de cadáver, crime pelo qual ele acabou denunciado pelo Ministério Público.

Após pedido de aditamento do MP, a Justiça também aceitou a denúncia de Evandro por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de veneno e recurso que dificultou defesa da vítima), e decretou sua prisão preventiva.

Veja como teria ocorrido o crime:

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