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Como o acidente que matou Eduardo Campos alterou o cenário eleitoral

Com chegada de Marina Silva na eleição, segundo turno é considerado uma certeza

20/08/2014 - 21h01min
Como o acidente que matou Eduardo Campos alterou o cenário eleitoral  Bruno Alencastro/Agencia RBS
Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS

Nesta quarta-feira, completa uma semana da morte de Eduardo Campos. Leia abaixo o que já se sabe sobre as circunstâncias do acidente que matou o candidato do PSB à Presidência e alterou o panorama político brasileiro com a chegada de Marina Silva na corrida eleitoral.

— Quem foi Eduardo Campos?

Nascido em Recife (PE) em 1965, Eduardo Henrique Accioly Campos era o terceiro colocado na corrida presidencial, atrás de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Na última pesquisa feita pelo Ibope antes de sua morte, o candidato do PSB tinha 9% das intenções de voto. Campos era neto e herdeiro político de um dos mais influentes líderes da esquerda nacional, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes.

Casado há mais de 20 anos com a economista Renata Campos, o candidato tinha cinco filhos, com idades entre 21 anos e cinco meses.

Campos foi governador de Pernambuco por sete anos. Elegeu-se pela primeira vez em 2006 e foi reeleito quatro anos depois com 82% dos votos.

Uma das principais lideranças da base do governo Lula no Congresso, Campos foi chamado para comandar o Ministério de Ciência e Tecnologia e ficou no cargo entre 2004 e 2006. Em 2005, foi eleito presidente nacional do PSB, cargo que ocupava até sua morte.

— Como foi o acidente?

O Cessna 560XL decolou do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e se dirigia ao Aeroporto de Guarujá, em São Paulo. No momento em que a aeronave se preparava para o pouso, arremeteu devido ao mau tempo. Em seguida, o controle de tráfego aéreo perdeu contato. A queda ocorreu em Santos, no litoral paulista, por volta das 10h, atingindo residências do bairro Boqueirão.

Moradores disseram ter visto o avião em baixa altitude antes de cair de bico no solo. Um vídeo divulgado nesta quarta-feira confirmou os relatos.

O impacto foi tão forte que apenas o trem de pouso e as turbinas foram localizados. O restante da aeronave, assim como os corpos, foram destroçados e se misturaram a ruínas de seis pequenos prédios do bairro Boqueirão.

— Como os corpos foram identificados?

O passo inicial foi fornecer aos peritos informações sobre as vítimas: fotos, fichas médica e dentária, descrição das roupas e marcas na pele como sinais, cicatrizes e tatuagens. Com essas informações em mãos, os peritos começam a procurar pistas que levaram à identificação dos passageiros.

Na segunda etapa, as identidades foram confirmadas por exames com impressões digitais ou por exames de DNA. Os fragmentos que não puderam ser identificados foram incinerados.

— Como estão as investigações?

Há muitas hipóteses, mas poucas confirmações. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Aeronáutica, comanda as investigações com o apoio de quatro outras entidades: o Conselho Nacional de Segurança em Transportes (NTSB), agência dos Estados Unidos, país fabricante da aeronave; a Transportation Safety Board (TSB), agência do Canadá, país da fabricante do motor; a Cessna Aircraft Company, fabricante do jato Cessna 560XL; e Administração Federal de Aviação dos EUA.

Os peritos estrangeiros estão em Santos recolhendo o material, mas afirmam que o processo pode demorar até um ano. Dentre as possibilidades mencionadas por especialistas estão uma manobra equivocada realizada pelo piloto com a aeronave em alta velocidade e o cansaço físico provocado por uma jornada de trabalho extenuante. O principal problema para desvendar as causas do acidente é que o modelo da caixa-preta do jato não registrou o áudio dos últimos momentos do voo.

— Por que a caixa-preta não registrou as gravações?

De acordo com a Cenipa, as duas horas de áudio — capacidade máxima de gravação do equipamento — não correspondem ao voo realizado no dia 13 de agosto. O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, a disse que ainda não há respostas sobre o fato de a caixa-preta do Cessna não ter gravado as comunicações do voo que culminou com a queda da aeronave.

Na aeronave o controle do gravador de voz fica na parte inferior do painel de comando. Os pilotos testam o funcionamento: seguram um botão por cinco segundos e deve acender ali uma luz verde, o que significa que ele a caixa está gravando. Esse botão está situado bem longe da caixa-preta, que fica na parte traseira da aeronave. De acordo com especialistas, a possibilidade mais forte é que um defeito elétrico tenha provocado o problema. A outra hipótese é que ela tenha sido desligada deliberadamente.

— Por que Marina Silva foi escolhida como a candidata do PSB?

Quando candidata nas eleições de 2010, Marina somou quase 20 milhões de votos e mostrou potencial para captar parte do eleitorado de Dilma e de Aécio. Na última pesquisa do Datafolha, ela aparece com 21% das intenções de votos e, no segundo turno, está tecnicamente empatada com Dilma. Além disso, a família de Campo apoiou a candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente do Governo Lula. Outro fator importante é que, além do ex-governador de Pernambuco, o PSB não tinha nenhum outro nome com projeção nacional.

— O que mudou no cenário eleitoral com a morte de Eduardo Campos?

Os dados da última pesquisa do Datafolha mostram que a entrada de Marina acaba com a possibilidade de não haver segundo na eleição na disputa ao Planalto. Como Marina tem o dobro das intenções de voto que Campos (21% a 9%), dificilmente Dilma conseguirá obter mais da metade dos votos válidos (excluídos os votos em branco e os votos nulos), que garantiriam sua reeleição no primeiro turno. No segundo turno, Marina foi, até agora , a única candidata que superou Dilma - 47% dos votos contra 43% da presidente, embora o resultado seja considerado um empate técnico devido à margem de erro.

— Como ficam as alianças regionais?

No início da campanha, Marina havia criticado as alianças formadas pelo PSB em Estados como São Paulo, onde o partido se aliou ao PSDB. O presidente da legenda em São Paulo, o deputado federal Márcio França, é candidato a vice de Geraldo Alckmin nas eleições estaduais, o que já marca uma aproximação importante. A mesma aliança foi estabelecida em outros sete Estados. Dois fatores, contudo, contribuem para que elas sejam mantidas: elas dão sustentação nacional à candidatura presidencial, e a cúpula do PSB tem pressionado Marina para que ela aceite os acordos políticos firmados antes da morte de Campos. Marina disse que os acordos serão mantidos, mas que ela não subirá nos palanques onde ela pode se sentir desconfortável.  

— Marina Silva pode afetar as doações para a campanha do PSB?

Marina encontra resistências de empresários e representantes do agronegócio desde sua gestão como ministra do Meio Ambiente. Por outro lado, o próprio PSB tem uma boa relação com os empresários do agronegócio o que pode ajudar a convencer o setor de que Marina é parceira do projeto do partido. Marina também tem o apoio de empresários como Guilherme Leal, da Natura, e, principalmente, de Neca Setúbal, herdeira do banco Itaú.

— Por que Beto Albuquerque foi escolhido como vice?

Beto Albuquerque é um dos quadros mais antigos PSB, está no partido desde 1986. Ele não foi escolhido pelo possível desempenho eleitoral, mas por acrescentar à chapa a responsabilidade dos acordos feitos pelo partido. Por ter uma ligação com o agronegócio, Beto também pode convencer o setor de que Marina seria uma parceira. Nesta quarta-feira, o vice disse em Brasília que mantém as propostas apresentadas por Campos na sabatina realizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

 
 
 
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