Uma queda dentro de si

Eu enfrento a depressão: repórter de ZH relata como é a doença vista de dentro

Após começar um longo tratamento e passar oito meses afastado do trabalho, Marcelo Monteiro conta sua história de luta contra a depressão 

19/08/2016 - 14h25min | Atualizada em 22/08/2016 - 15h09min
Eu enfrento a depressão: repórter de ZH relata como é a doença vista de dentro Edu Oliveira / Arte ZH/Arte ZH
Foto: Edu Oliveira / Arte ZH / Arte ZH  

Se você quer ajudar algum parente ou amigo diagnosticado com depressão, comece abrindo mão de alguns conceitos. E eu falo por experiência própria. Depois de bater no fundo do poço e voltar, pretendo contar o que vivi e senti em mais de oito meses afastado do trabalho e da vida social.

Para começar, depressão não é aquele sentimento melancólico que se abate em muitas pessoas nas tardes de domingo. Tampouco o luto pela perda de algum ente querido — este até pode ser o "gatilho" para uma crise, mas não a doença em si. O termo banalizado pelo uso cotidiano ("estou deprimido porque meu time perdeu") difere bastante do conceito clínico. Este é o ponto! Dependendo da crise, a depressão pode ser muito mais profunda, angustiante, assustadora e dolorosa do que qualquer luto (familiar, sentimental, profissional etc.).

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Passei por uma depressão grave. De início, as noites mal dormidas e a crescente apatia não chamaram a atenção. Como nunca tinha experimentado uma crise depressiva, demorei mais de três semanas para perceber que havia algo de muito errado. Ao voltar do trabalho, permanecia por horas deitado em frente à TV, sem comer, até a hora de dormir, o que também não era fácil. Passei a tomar medicamentos para induzir o sono, mas as noites pareciam cada vez maiores e aflitivas — cochilava uma hora, ficava duas acordado.

Com o passar dos dias, mais e mais sintomas foram tornando a minha rotina um exercício de resiliência e resistência. A tela branca do computador à espera do meu texto parecia transformar-se em um monstro. Com mais de 20 anos de jornalismo, me sentia sem condições de escrever dois parágrafos. Só queria fugir da Redação o mais rapidamente possível.

Foi assim que, durante várias tardes, busquei refúgio no estacionamento da empresa, onde ficava por horas no carro, tentando entender o que acontecia. Em outros momentos, saía a caminhar sem rumo pelas ruas próximas, procurando explicações para a angústia, a melancolia, a hipersonolência e a falta de concentração. Fiz tudo isso sem que ninguém soubesse — nem a família, nem meus melhores amigos. Tinha medo de que pudesse estar enlouquecendo.

Ao mesmo tempo em que isso se desenvolvia sem que eu suspeitasse de depressão (não havia histórico da doença na minha família), perdi o interesse por qualquer atividade, incluindo as que considero mais prazerosas, como sexo, música e futebol. Mais do que isso: tinha uma espécie de fobia social. Logo eu, o dono da churrasqueira, o cara que costumava convocar a turma para o happy hour, me isolei de tudo e de quase todos.

Coisas básicas como levantar da cama, tomar banho ou fazer uma compra no supermercado se tornaram tarefas difíceis e, muitas vezes, impraticáveis. Sentia saudade de mim. Naquele momento, eu não era o Marcelo que todos ao meu redor conheciam. Era outra pessoa.

Me sentia um corpo sem alma, um morto-vivo. Só encontrava algum alívio deitado em minha cama, com as luzes apagadas e vários travesseiros sobre a cabeça, tentando dormir e esquecer aquilo tudo. Buscava na escuridão do quarto uma saída para o túnel de trevas que me engolia. Quando adormecia, sentia-me livre. Meu maior pesadelo era estar acordado.

Nas três semanas em que convivi com a doença sem saber, no período de expediente de ZH, tive crises de gastrite e tendinite, problemas que em outras épocas chegaram a me tirar de combate, mas que estavam superados. As recaídas eram álibis para eu ir embora e me esconder em meu castelo de trevas e travesseiros.

Estive perto de surtar e não imagino o tipo de explosão que poderia resultar daquele estado de coisas. Só busquei ajuda quando me senti no fundo de um poço onde nunca estivera. Ainda assim, graças a muitos empurrões por parte de minha namorada, que assistia àquela derrocada com surpresa e preocupação. Assim como eu, ela também não me reconhecia.

À beira de um surto, o diagnóstico

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

Como acontece na maioria das doenças, o diagnóstico precoce contribui para a eficácia do tratamento da depressão. Quanto antes iniciado, antes os pacientes começam a sentir algum alívio. Não há um exame clínico capaz de detectar a doença. O diagnóstico é feito a partir da análise do médico e dos relatos do paciente.

Em uma quinta-feira à tarde, saí da consulta com o clínico geral da empresa levando na mão uma receita de antidepressivo — o tipo que se costuma ministrar no início do tratamento — e a indicação de um psiquiatra para auxílio especializado. Estava tão desesperado para sentir alguma melhora que entrei na primeira farmácia que vi, pedi um copo d'água e tomei os primeiros comprimidos. Esperava um resultado rápido. Mal sabia que o martírio ainda iria se estender, de forma intensa, por quase dois meses.

Na segunda-feira seguinte, quatro dias após diagnóstico e ainda sem sentir qualquer efeito dos medicamentos — na melhor das hipóteses, os primeiros resultados aparecem 15 dias após o começo do tratamento —, precisava entregar os textos de uma extensa reportagem de quatro páginas. Pressionado e assustado, passei o sábado e o domingo dizendo a mim mesmo:

— Tu consegues, tu fizeste isto a vida toda, não vai ser agora que não vais conseguir.

Na hora H, com extremo esforço, despejei no computador a ideia de texto de abertura que esboçara mentalmente no fim de semana. Mas, assim que concluí a primeira parte da tarefa e percebi que havia ainda pelo menos outros três textos a serem escritos, entrei em pânico. O monstro da tela em branco estava de volta.

Não podia fracassar naquele momento. Ao mesmo tempo, porém, sabia que não tinha a menor possibilidade de conseguir terminar a reportagem. No auge do desespero, mandei um e-mail para o chefe imediato, o editor Leandro Fontoura, com o assunto "Urgente" e o texto "Preciso falar contigo agora". Queria explicar-lhe o quadro, contar com a sua sensibilidade e sair correndo da Redação o mais depressa possível. A resposta não me satisfez: "Claro, só espera uns cinco minutinhos". Eu não tinha cinco minutos! Em cinco minutos, surtaria.

Ansioso ao extremo, encaminhei o e-mail a outro superior, o chefe de reportagem da editoria, Jaime Silva, que conseguiu me atender de imediato e para o qual finalmente desabafei. Ele entendeu que era hora de eu ir para casa e cuidar da saúde. Outro repórter terminaria os textos. Antes de fugir — este é o verbo exato —, eu só teria de repassar minhas anotações ao colega. Assim, liberado por 15 dias, segui para o meu refúgio escuro, onde passaria as duas semanas seguintes levantando da cama apenas para comer e ir ao banheiro.

Terminado o prazo de afastamento inicial, fiz uma tentativa de voltar ao trabalho. Um desastre. Mesmo com a compreensão dos chefes, que me deixaram sem pautas ou prazos, entrei em pânico depois de apenas uma hora e meia na empresa. Novamente, pedi e fui liberado para ir embora. Desta vez, o afastamento seria maior, e o salário mensal, substituído pelo auxílio-doença do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Pelo menos havia um consolo: mesmo sem condições de trabalhar, não ficaria sem receber, o que poderia agravar minha tensão e, por consequência, a crise depressiva.

Não raro, pessoas lutam contra a depressão sem saber que estão deprimidas — como no meu caso. Por isso, é importante estarmos atentos a determinados comportamentos de quem está ao nosso redor. Por trás de sintomas psicológicos (apatia, angústia, isolamento, desesperança, falta de motivação e irritabilidade) e físicos (alterações do sono, cansaço exacerbado, perda ou ganho de peso, desinteresse sexual, dores inexplicáveis) pode estar "o grande mal do século 21", como classifica a Organização Mundial da Saúde (OMS). No ano passado, a depressão atingia 350 milhões de pessoas em todo o planeta, mais do que a população dos Estados Unidos. No Brasil, eram cerca de 5 milhões de vítimas.

— Se a pessoa mudou o padrão de funcionamento, não quer mais sair, trabalhar, não atende ao telefone e diz que quer ficar sozinha, deve-se conversar com os seus familiares e alertá-los sobre o problema — recomenda o psiquiatra Nélio Tombini.

Força e paciência no tratamento

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

A depressão é tratada à base de antidepressivos — hoje, há mais de 10 princípios ativos —, acompanhados ou não de psicoterapia. Como os medicamentos levam pelo menos duas semanas até começarem a mostrar resultados, é preciso ter força para suportar os sintomas durante o período inicial, para mim o mais crítico, uma vez que o mal-estar só crescia, e os remédios, aparentemente, não estavam fazendo efeito. Em meio ao sofrimento, busquei ainda um tratamento espírita e sessões de reiki e chakraterapia.

Também é preciso ter consciência de que cada caso é um caso, e nem sempre o psiquiatra consegue acertar de saída a combinação ideal de remédios e de dosagens para cada pessoa. Com base no relato do paciente, o médico realiza um processo visando à adequação dos medicamentos e das respectivas doses. Esta busca pode perdurar por meses até que a pessoa com a doença sinta-se bem. Por isso, é vital persistir com o tratamento, mesmo que a melhora não aconteça de imediato.

Para completar, alguns casos são acompanhados de outros transtornos de humor (além da depressão, também tive ansiedade e síndrome do pânico). De novo, vale frisar que a ansiedade, sob o viés clínico, não é a mesma que se tem antes de uma prova de concurso, e o pânico nada tem a ver com o eventual temor de ser assaltado — muitas vezes, é acompanhado de um inexplicável medo de morte repentina. Em ambos os sintomas, as palavras devem ser elevadas ao extremo.

— O pânico pode referir-se a uma sensação subjetiva de ansiedade súbita diante de uma situação específica (violência, má notícia etc.), o que se difere do termo "síndrome do pânico", que é uma doença e, muitas vezes, ocorre em situações sem contexto específico — explica a psiquiatra Rosilda Antonio, presidente do Conselho Científico da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata). — Por exemplo, quando um indivíduo está assistindo à TV e, de forma súbita, passa a apresentar palpitações, tremores intensos, inquietação e medo de morte iminente.

Na equação de remédios e doses a ser resolvida pelo psiquiatra, há de se considerar ainda os efeitos colaterais. Além de alterações de sono e apetite, pode haver impactos gastrointestinais, redução da libido (nos homens, também retardo da ejaculação), sudorese, tremores, náuseas, tonturas, ganho ou perda de peso e até aumento da ansiedade.

Hoje, antes de dormir, tomo dois antidepressivos e um ansiolítico. Mensalmente, faço uma consulta com o psiquiatra, que segue na procura pela combinação ideal de medicamentos e doses. Além disso, tenho sempre à mão um ansiolítico, de uso sublingual, para um eventual surto de pânico ou ansiedade, que deve ser combinado a um ritual especial — 10 respirações lentas e profundas, tentando acalmar corpo e mente.

Esses fatores fazem com que a busca pela combinação de medicamentos e doses para determinado quadro depressivo se estenda por um longo período. No meu caso, depois de três meses, quando os sintomas depressivos já haviam diminuído, a ansiedade surgiu com força. Assim, no momento em que me livrava da tristeza profunda e da vontade de morrer, passei a conviver com aflição constante, aperto no peito, pernas inquietas, preocupação excessiva e alguns surtos de pânico.

Retomada em meio a lágrimas e chuva

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

A solidão e a desesperança são queixas corriqueiras entre os pacientes deprimidos, geralmente ilustradas por frases do tipo "ninguém me entende". Acostumados a usar o termo "depressão" para quaisquer episódios de baixo astral, parentes e amigos muitas vezes não entendem quando o paciente mostra-se depressivo na acepção clínica da palavra.

— A depressão se diferencia da tristeza pelo impacto que gera na vida da pessoa. Além disso, está sempre associada a outros sintomas — comenta o psiquiatra Marcelo Vilas Boas.

Vendo-se sem saída, 15 a cada cem pacientes não suportam a nuvem pesada sobre suas cabeças e decidem pôr fim à própria vida, segundo a OMS.

— O auge de uma crise depressiva é absolutamente incapacitante. O desespero e a desesperança são frequentes e, nesta situação, o risco de suicídio costuma estar presente. Esse risco por vezes só não é maior devido à adinamia, a inércia que impede inclusive que a pessoa saia da cama. Quando se chega a este patamar, trata-se de um quadro grave, que pode necessitar inclusive de internação hospitalar — aponta a psiquiatra Ieda Bataioli.

Embora em alguns momentos tenha considerado que morrer talvez fosse a melhor solução — foi este fato que me alertou para que algo grave pudesse estar acontecendo comigo —, jamais cogitei a hipótese de suicídio. Para minha sorte, desde o diagnóstico tive o apoio de familiares, amigos e colegas, que, a partir da noção de que não enxergavam a doença com a devida seriedade, procuraram se informar para saber como lidar com um depressivo. Isto foi determinante para a minha recuperação.

Aliás, durante o tratamento também não faltaram recomendações sobre fazer exercícios físicos aeróbicos (caminhar, correr, pedalar etc.), que também ajudariam no tratamento. A teoria, eu sabia. O difícil era a prática. Assim, depois de algumas semanas de medicação, busquei forças para sair da cama e caminhar sem rumo pelo bairro por cerca de uma hora, coisa que conseguiria repetir meia dúzia de vezes apenas.

Não foram raros os momentos em que o simples ato de vestir uma roupa adequada e pôr o pé na rua exigiram um esforço mental sobre-humano. Eu sabia que precisava sair de casa, queria sair e me exercitar, mas simplesmente não conseguia. Neste embate de sentimentos, houve uma noite chuvosa em que, tomado de extrema ansiedade — enquanto eu assistia à TV, minhas pernas pulavam e batiam no chão sem controle —, coloquei um calção e uma camiseta, calcei os tênis e saí a correr, com lágrimas misturando-se aos pingos de chuva, pensando: "O que está acontecendo comigo? Por que isso não passa logo?".

A batalha durou mais de sete meses. Depois do primeiro trimestre, fui lentamente retomando a vida social, convivendo com os amigos mais próximos. Mas ainda seguia afastado do trabalho. Foi somente mais de meio ano depois do diagnóstico e do início do tratamento que finalmente comecei a me sentir capaz de sentar à frente de um computador, organizar o raciocínio e enfrentar o monstro da tela branca. Mais: retomei o gosto pela música, pelo futebol, pela vida. Voltei a me reconhecer. Como margem de segurança, só fui autorizado pelos médicos a voltar às atividades profissionais um mês e meio depois disso.

Mas as coisas não foram tão simples. No retorno ao trabalho, tive alguns dias difíceis e precisei sair antes do horário normal por não estar me sentindo bem. Hoje, cada dia que saio de casa e consigo cumprir minha jornada sem algum percalço é uma vitória a ser celebrada.

De tudo o que vivi nestes oito meses e meio, ficaram algumas lições. A primeira, que já me havia sido antecipada por um colega vítima de situação semelhante: jamais serei o mesmo Marcelo de antes. De fato, algo de muito forte e inexplicável ocorreu na minha mente, que mudou o meu jeito de encarar a vida. Mesmo recuperado, não posso dizer que estou 100% — quem sabe, 94% ou 95%. Talvez nunca consiga voltar à minha completa sanidade.

A segunda: tendo sobrevivido a uma espécie de martírio, hoje tenho condições — e precisarei estar atento — de identificar e prevenir novas crises. Há momentos em que sinto uma nuvenzinha pesada se aproximando. Então, me esforço para mudar de ambiente, de posição, de pensamento, de trilha sonora. Na maioria das vezes, tenho conseguido evitar as tempestades. Mas nem sempre. E é preciso estar pronto para esta possibilidade.

 
 
 
 
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