Porto Alegre

Tráfico estaria por trás de invasão de escola, mas BM trata caso como crime patrimonial

Paredes e mobiliário foram pichados com iniciais de uma facção; bandeira com a sigla do grupo foi colocada no ponto mais alto do prédio

18/07/2016 - 20h22min | Atualizada em 19/07/2016 - 09h56min

Bandeira com três letras hasteada no ponto mais alto do prédio e a mesma sigla pichada por paredes e mobiliário da Escola Estadual Erico Verissimo dão sinais de que a invasão do prédio não foi motivada pelos objetos que lá estavam. A frase "Nós somos os donos de tudo agora", escrita no quadro da direção, reforça a ideia de que a instituição do bairro Jardim Carvalho, na zona leste de Porto Alegre, foi arrombada por represália em um contexto de disputas entre traficantes. Ainda assim, a Brigada Militar trata o caso como crime patrimonial.

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O comandante do 20º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Egon Kvietinski, responsável pela segurança no bairro, ressaltou que são feitas rondas frequentes no entorno da instituição, mas que dessa vez o problema foi de zeladoria.

— Recebemos um chamado na sexta-feira de que havia barulho dentro da escola. Fomos até lá, mas os portões estavam fechados e não havia nenhum sinal de invasão. Ali terminou o nosso trabalho. Não podemos pular o muro para ver o que acontece lá dentro — enfatizou.

Diferentemente da Brigada Militar, a Polícia Civil acredita que o furto de alguns objetos como notebook e câmera não era o objetivo principal. Os criminosos apenas aproveitaram a situação e levaram os itens de maior valor, salientou o delegado Fernando Soares, da 15ª Delegacia de Polícia.

Essa também é a convicção da diretora Silvia Regina Bastos Faturi:

— Foi uma coisa contra a escola, para mostrar algo — contou Silvia.

Ela cogita ter sido resposta à confraternização realizada na sexta-feira com a Brigada Militar na escola, pois, no seu entendimento, a presença da polícia pode estar incomodando facções locais, que vivem em constante conflito. Moradores da Vila Colina, no mesmo bairro, por exemplo, são proibidos de chegar à escola da Rua Comendador Eduardo Secco. Na lógica do crime, a escola está na Vila Ipe 1, dentro de um território controlado pelos Antibala. A Colina, por outro lado, é reduto dos Bala na Cara.

— Eu acredito que é preciso ação da Brigada Militar, colocando um policial em cada escola, inclusive à noite. Tem que ter alguém ali para coibir — disse Silvia.

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Kvietinski explicou que na zona sob sua responsabilidade há 73 instituições de ensino e mais de 350 mil habitantes, além de 150 mil pessoas que transitam diariamente. Para ele, é preciso "aprimorar as medidas defensivas" do prédio, colocando, por exemplo, mais câmeras de monitoramento e cercas mais seguras.

— Imagina se nós tivermos que nos certificar de cada um desses estabelecimentos, sendo que há crimes contra a vida acontecendo. Na escala de prioridade, crimes patrimoniais vêm em segundo ou terceiro lugar.

Luciane Manfro, coordenadora estadual do programa Comissão Interna de Prevenção a Acidentes e Violência Escolar (Cipave), ressaltou que, além da intensificação das reuniões com as forças policiais, direção da escola, pais e alunos, será reforçada a segurança do prédio assim que for identificado por onde os criminosos entraram.

—  Não podemos ir muito além disso. Temos que manter a saúde mental dos professores para que continuem motivados. O clima de paz lá dentro é ótimo, apesar do entorno ser violento.

Segundo ela, o prédio nunca havia sido invadido. 

Território conflagrado
A Escola Estadual de Ensino Fundamental Erico Verissimo ocupa uma quadra inteira da Rua Comendador Eduardo Secco, quase no topo do morro. O prédio está inserido na Vila Ipê 1, dentro do bairro Jardim Carvalho, próximo aos bairros Bom Jesus – reduto da facção Bala na Cara – e Vila Jardim – base do grupo que se denomina Antibala. Desde dezembro do ano passado, os dois bandos protagonizam conflito sangrento. O duelo que se espalha por diferentes pontos de Porto Alegre, também se reproduz na região da escola. 

Moradores e estudantes da Vila Colina, também dentro do bairro Jardim Carvalho, estão impedidos de passar a "fronteira" até a Erico Verissimo que, na lógica do crime, está dentro de território controlado pelos Antibala. A Colina, por outro lado, é dominada pelos Bala na Cara. 

Os símbolos deixados pelos vândalos indicam que o ataque é mais um "recado" de escracho de criminosos da Vila Colina no território inimigo. Neste ano, já somam 41 as mortes ligadas ao tráfico de drogas nas três áreas:

Vila Jardim: 21
Jardim Carvalho: 13
Bom Jesus: 7

Violência recorrente
Na tarde de 22 de março, uma terça-feira, a escola teve de fechar as portas por medo da ação de traficantes da região. Naquela madrugada, um homem havia sido assassinado na mesma rua onde fica a Escola Estadual de Ensino Fundamental Erico Verissimo. A instituição voltou a ficar fechada na tarde seguinte, prejudicando os cerca de 550 estudantes. 

Uma semana depois, no dia 29 de março, moradores do bairro Jardim Carvalho foram acordados por intenso tiroteio. Alguns relatam que foram entre 20 e 25 minutos de disparos de arma de fogo. A polícia esteve no local e encontrou mais de 30 cápsulas nas ruas da Vila Ipe 1, disparos que provocaram medo em pais, estudantes e professores. As informações eram de que homens armados estariam rondando a região, em vingança ao homicídio. 

No dia seguinte, em razão do episódio, a Secretária Estadual de Educação decidiu reduzir por tempo indeterminado, "até que a situação de violência se normalize no bairro", conforme nota da própria escola, os turnos da manhã e da tarde a duas horas de aula cada — das 9h45min às 11h45min de manhã, e das 13h15min às 15h15min à tarde. A estratégia de encolher a carga horária foi adotada para evitar a exposição das crianças aos tiros e confrontos. 

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Pouco dias depois, às 13h45min do dia 11 de abril, uma segunda-feira, vários tiros de arma de fogo foram disparados a uma quadra da escola. Os autores dos disparos não foram identificados. Com medo, a direção optou por fechar as portas novamente, acionar a Brigada Militar e liberar os alunos e professores por dois dias. Uma viatura ficou em frente à escola até o final da tarde para garantir que todos pudessem ser dispensados em segurança. 

Nesta segunda-feira, ao chegar para abrir a escola, a diretora deparou com um verdadeiro cenário de guerra na instituição, que havia sido invadida durante o final de semana. Praticamente todas as salas foram danificadas pelos criminosos, que picharam a sigla de uma gangue do morro da Colina em diversos pontos da escola, inclusive em uma bandeira do município de Porto Alegre, que ficou hasteada no pátio em sinal de provocação. 

Os invasores furtaram notebook, câmera digital, modens e destruíram alimentos, instrumentos musicais, telas de computador, entre outros equipamentos da escola, além de arrebentar portas e janelas. Os bandidos ainda arrancaram as câmeras de vigilância e levaram os computadores que registravam as imagens.

 
 
 
 
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