Política

Na mira da privatização

Sem dívidas, que ficariam com o Estado, CEEE valeria até R$ 1,6 bi

Patrimônio líquido da distribuidora de energia está negativo, conforme o último balanço, em R$ 287 milhões, o que não é atrativo aos interessados

Cadu Caldas

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Estudo mostra que estatal está na penúltima posição no ranking de melhores negócios do setor

Grande, com uma lista enorme de clientes na carteira e em dificuldades financeiras, a CEEE volta a ser uma empresa mirada por investidores. Com o mercado de distribuição de energia embalado pelo fechamento de negócios bilionários no último mês, empresários só veem com ressalvas o volume expressivo de dívidas e o gigante passivo trabalhista da estatal gaúcha.

No final de março, data do mais recente balanço patrimonial divulgado pela companhia, a CEEE contabilizava R$ 3,4 bilhões em ativos, mas um patrimônio líquido negativo (a diferença entre tudo o que a empresa tem e tudo o que deve) de R$ 287 milhões. O Estado é dono de 66% da CEEE, e a Eletrobras de outros 33%.

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Estudo exclusivo para clientes desenvolvido pela consultoria LMDM sobre as 20 maiores distribuidoras de energia do Brasil coloca a companhia gaúcha em penúltimo lugar no ranking de melhores negócios para investidores do setor elétrico. Em último lugar está a Celg, distribuidora estadual de Goiás, federalizada ano passado e em processo de privatização conduzido pelo BNDES. A expectativa é de que o preço mínimo aceito no leilão seja de R$ 2,8 bilhões.

Entre as razões apontadas para a pouca atratividade da CEEE estariam a baixa eficiência financeira da empresa, potencial de crescimento relativamente pequeno e reduzida taxa de investimento nas últimas décadas.

– Isso quer dizer que um eventual comprador teria de lidar com uma situação de catástrofe: rede extremamente antiga e máquina inchada, além de outros problemas. Ainda, assumir uma empresa estatal implica na absorção de custos permanentes, como déficits atuariais dos fundos de pensão, passivos judiciais – afirma Diogo Mac Cord de Faria, responsável pelo estudo, engenheiro que faz mestrado em Harvard sobre investimentos em infraestrutura no Brasil.

Para o analista, do jeito que está hoje, a CEEE " vale aproximadamente zero"e "ninguém seria louco de comprá-la", mas "se toda a casa fosse arrumada", sendo as dívidas saldadas, valeria algo em torno de R$ 1,5 bilhão. Faria lembra a situação do Grupo Rede, que faliu e foi comprado pela Energisa por R$ 1, apresentando aos credores proposta de pagar R$ 1,9 bilhão pela dívida que era de R$ 6 bilhões.

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Fonte que acompanhou de perto a recente aquisição da AES pela CPFL, dona da RGE, afirma que a empresa também estaria interessada na estatal gaúcha, mas que o endividamento e o passivo trabalhista da CEEE seriam um "problemão" a ser resolvido primeiro:

– Falam em até R$ 1,6 bilhão se o Estado assumisse todo o passivo. A CPFL estaria disposta a pagar um bônus porque a CEEE abastece uma capital populosa e tem muita rede subterrânea – conta.

Na análise desses investidores, um grupo com experiência em gestão poderia reverter a situação "em dois ou três anos". Modificada no ano passado, a legislação permite que uma mesma companhia assuma as três regiões de concessão do Estado.

A oferta da CEEE é aventada em um momento em que chineses miram empresas de distribuição no Brasil. Neste mês, a estatal chinesa State Grid, uma das grandes investidoras no setor de transmissão, confirmou a compra de 23,6% da própria CPFL.

A gigante oriental, que tem valor de mercado estimado em US$ 342 bilhões, segundo o ranking Fortune 500, investiu R$ 6 bilhões na compra de parte da companhia brasileira, mas teria R$ 15 bilhões separados para investir no setor neste ano – período considerado como estratégico para seu desenvolvimento no Brasil.

– Além da State Grid, a conterrânea China Three Gorges (CTG), maior geradora hidrelétrica do mundo, também vem ganhando espaço no mercado brasileiro por meio de aquisições em consórcios com empresas locais. É outra possível interessada –lembra o analista Fábio Cuberos, diretor de regulação da Safira Energia.

RAIO X
*Criada
em 1943
*Atende 4,8 milhões de pessoas, 34% do mercado consumidor gaúcho. É a 16ª maior distribuidora do país, responsável por 2,26% do mercado nacional
*Atua em 72 municípios situados nas regiões Metropolitana, Sul, Litoral e Campanha
*Principais acionistas: Estado do Rio Grande do Sul (65,92%) e Eletrobras (32,59%)
*Total de ativos: R$ 3,4 bilhões
*Patrimônio Líquido: -R$ 287 milhões

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