Operação Lava-Jato

O que revelaram os donos da JBS na delação que implodiu Brasília

Empresários entregaram à Justiça gravações nas quais registram pedidos de propina de Temer e Aécio Neves, além da compra do silêncio de Cunha

Por: Fábio Schaffner
17/05/2017 - 23h36min | Atualizada em 18/05/2017 - 10h24min
O que revelaram os donos da JBS na delação que implodiu Brasília Carlos Macedo/Agência RBS
Foto: Carlos Macedo / Agência RBS  

Um dos donos da maior empresa de proteína animal do mundo e campeão de doações eleitorais nas eleições de 2014, o empresário Joesley Batista implodiu o meio político.

O controlador do frigorífico JBS entregou ao Ministério Público Federal (MPF) gravações nas quais registra pedidos de propina do presidente Michel Temer (PMDB), e do presidente nacional do PSDB, o senador Aécio Neves (MG).

Em ações controladas pela Polícia Federal, o repasse de dinheiro a emissários de Temer e Aécio foi filmado. As cédulas tiveram os números de série previamente registrados e estavam acomodadas em malas e mochilas equipadas com chips. Todo o caminho do dinheiro foi monitorado pelos investigadores. As informações foram reveladas na noite desta quarta-feira pelo jornal O Globo.

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Joesley e seu irmão, Wesley Batista, fecharam acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República em razão de suspeitas sobre contratos realizados pelas empresas do grupo com o BNDES. Por conta do alto poder das revelações, o acerto com o procurador-geral, Rodrigo Janot, foi fechado em tempo recorde e teve autorização do relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin.

Em Brasília, sessões no Congresso são encerradas
Tão logo as reportagens de O Globo foram publicadas, o Congresso se esvaziou. As sessões da Câmara e do Senado foram encerradas. Presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) correu ao Palácio do Planalto para reunião de emergência com Temer. Além do presidente e de Aécio, Joesley citou pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e ao ex-ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma, Guido Mantega. Somente Aécio teria recebido R$ 2 milhões.

O encontro com Temer ocorreu por volta das 22h30min de 7 de março. Era um período em que a Lava-Jato estava no auge e Brasília vivia sob tensão, às vésperas da entrega da chamada segunda lista de Janot ao STF, o que ocorreria uma semana depois. Conforme o relato de Joesley, ele chegou sozinho e dirigindo o próprio carro ao Palácio do Jaburu, residência oficial de Temer. No bolso do paletó, Joesley portava um gravador. Após troca de amenidades, eles conversaram por 40 minutos, registrado em pequeno gravador portátil.

No começo do bate-papo, Joesley comunica a Temer que está enviando dinheiro a Cunha para que o ex-deputado mantivesse o silêncio na cadeia. Além de Cunha, havia repasses ao doleiro Lúcio Funaro, parceiro de Cunha em operações criminosas. O presidente demonstra alegria com a informação e dá seu aval:

– Tem que manter isso, viu?

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Em outro trecho da conversa, o empresário pede a Temer ajuda para resolver pendências de suas empresas no governo. O presidente indica o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), seu homem de confiança e que até março mantinha cargo de assessor especial no Planalto, para resolver qualquer problema.

– Fale com o Rodrigo – disse Temer.

– Posso falar tudo com ele? – quis certificar-se Joesley.

– Tudo – avalizou o presidente.

Mais tarde, tal acerto valeria a promessa de propina de R$ 520 milhões a Temer. Sob monitoramento constante da PF, Joesley procurou Rocha Loures. Em encontro em Brasília, Joesley detalhou seu desejo: precisava decidir uma disputa entre a Petrobras e a termelétrica EPE, comprada por ele em 2015. Segundo o empresário, a estatal cobrava preços extorsivos pelo gás boliviano fornecido à usina. Reclamou de prejuízo diário de R$ 1 milhão.

O pedido era que a Petrobras revendesse o gás pelo preço de compra ou que autorizasse a EPE a negociar com os bolivianos.

Primeiro repasse foi entregue em pizzaria

Sem constrangimento, Rocha Loures ligou na hora para o presidente em exercício do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Gilvandro Araújo, solicitando solução ao impasse. Como recompensa, Joesley disse estar disposto a pagar propina de 5%. Rocha Loures assentiu:

– Tudo bem, tudo bem.

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Para sacramentar o acordo, novo encontro seria realizado em São Paulo, dessa vez entre Rocha Loures e Ricardo Saud, diretor da JBS e também delator. Em um café, eles acertaram o pagamento de R$ 500 mil semanais durante 20 anos, tempo de vigência do contrato da EPE. Rocha Loures disse que a proposta teria de ser aceita por um superior. Por duas vezes, Saud fez menções ao "presidente".

O dinheiro foi entregue em outra ocasião, filmada pela PF. Precavido, Rocha Loures circulou por São Paulo com Saud antes de embolsar a propina. Primeiro, eles se encontraram no Shopping Vila Olímpia. Dali, seguiram para um café, depois para um restaurante. O destino final seria a pizzaria Camelo, no bairro Jardim Paulista. Sob o aroma de queijo derretido vindo do forno, Rocha Loures recebeu o primeiro repasse de R$ 500 mil.

Como o estouro do escândalo, os pagamentos foram suspensos. Além dos irmãos Batista e de Saud, outros quatro executivos da JBS assinaram acordo de delação premiada. Caso os acordos sejam homologados, eles irão pagar R$ 250 milhões de multa, ficarão soltos e não irão usar tornozeleira eletrônica.

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O que pesa contra os citados na delação:

A acusação contra Temer
Em gravação feita por Joesley Batista, Michel Temer indica o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para receber R$ 500 mil como propina para resolver um assunto do interesse da JBS. Temer também avalizou o repasse de dinheiro para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e do doleiro Lúcio Funaro, ambos presos.

— Tem que manter isso, viu? — incentiva Temer. 

A acusação contra Aécio
Em gravação, Joesley Batista registra o senador e presidente do PSDB, Aécio Neves (MG), pedindo R$ 2 milhões. A entrega do dinheiro a um primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, foi filmada pela Polícia Federal (PF). Rastreamento posterior feito pela PF demonstra que o dinheiro foi depositado em uma empresa do senador Zezé Perrella (PSDB-MG).

A acusação contra Mantega
Joesley Batista relatou ao Ministério Público Federal que seu contato no PT era o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Segundo o empresário, Mantega defendia os interesses da JBS no BNDES e repassava a propina aos petistas e aliados. 

A acusação contra Cunha
Joesley afirmou ainda aos procuradores que pagou R$ 5 milhões para Eduardo Cunha. O dinheiro foi entregue após o ex-deputado ser preso. O pagamento seria referente a um saldo de propina. Joesley disse que devia mais R$ 20 milhões a Cunha pela tramitação de lei sobre a desoneração tributária do setor de frango.

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CONTRAPONTO

Michel Temer
Em nota, o Palácio do Planalto afirmou que o presidente "jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha". "Não participou e nem autorizou qualquer movimento com o objetivo de evitar delação ou colaboração com a Justiça pelo ex-parlamentar. O encontro com o empresário Joesley Batista ocorreu no começo de março, no Palácio do Jaburu, mas não houve no diálogo nada que comprometesse a conduta do presidente da República", diz o texto. "O presidente defende ampla e profunda investigação para apurar todas as denúncias veiculadas pela imprensa, com a responsabilização dos eventuais envolvidos em quaisquer ilícitos que venham a ser comprovados", conclui.

Aécio Neves
Por meio de nota, o senador Aécio Neves disse estar "absolutamente tranquilo quanto à correção de todos os seus atos. No que se refere à relação com o senhor Joesley Batista, ela era estritamente pessoal, sem qualquer envolvimento com o setor público. O senador aguarda ter acesso ao conjunto das informações para prestar todos os esclarecimentos necessários".

Eduardo Cunha
À Rede Globo, a defesa do ex-presidente da Câmara dos Deputados afirmou que não vai comentar o caso.

Guido Mantega
Zero Hora tentou contato com a assessoria de imprensa do ex-ministro, mas ainda não teve retorno.


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