
* Professor, poeta e músico
Alex Ross, um dos mais importantes críticos de música em atividade, comparando a derrocada da música clássica no gosto do público às derrocadas posteriores do rock e do jazz, sugeriu que os gêneros passam por cinco estágios até sua cristalização. A primeira fase seria a dos jovens criadores (e tomemos o samba como nosso grande gênero popular). Aí estaria Noel Rosa. A segunda representaria o momento de aburguesamento do gênero e conquista do grande público (Ary Barroso). A terceira seria a dos revolucionários ou modernizadores, que se erguem contra as convenções vigentes ou elevam o tradicional a um novo patamar (os mentores da bossa nova e da MPB). A quarta fase seria a experimental e vanguardista, afastadas as audiências (Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti). A quinta, por fim, estaria ligada a uma tentativa de reviver o gênero, com citações e referências, as quase sempre alarmantes "releituras", para devolvê-lo ao gosto popular (Marisa Monte, Maria Rita). No meio do caminho, dentro de uma ou mais dessas fases, surgem os gênios que permanecem depois que cai o pano.
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Ao receber o convite do PrOA para escrever sobre os 70 anos de Chico Buarque, os 50 de carreira, os estágios de Ross me vieram direto à mente. Talvez porque já possamos enxergar a MPB - e mesmo o samba - como fenômenos encerrados no tempo, tal declarou o próprio Chico em entrevista para a Folha de S. Paulo, já em 2004. "A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito. E há quem sustente isso: como a ópera, a música lírica foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido."
Voltando a Ross, Chico estaria no terceiro estágio. Mas não sem problemas. Ele é um modernizador como Gil e Caetano, mas não soa tão modernizante como os dois. Qualquer ouvinte de Chico há de concordar que, musicalmente, não há em sua obra grandes experimentos ou ousadias. Seus sambas soam bastante tradicionais, os ritmos que utiliza quando sai do samba, passam longe do rock e do pop (não custa lembrar do seu papel no 3º Festival da TV Record, em 1967). Um samba de seu último disco não apresentará substanciais diferenças de sambas de três décadas atrás. (Ouçam Sou eu, de 2009, e Deixe a Menina, de 1980). Nunca tentou as transições e radicalismos de um Caetano Veloso. De fato, estaria mais para um neoclassicista, não fosse sua capacidade de se alimentar dessas mesmas tradições a fim de renová-las. Uma última complicação: há ainda aquele primeiro Chico, que logo caiu no gosto popular, tornando-se o herói-galã do público médio brasileiro, o que o colocaria, de certo modo, também como um artista da segunda fase (o mesmo se passou com os Beatles). Não custa lembrar que A Banda arrancou elogios até do reacionário Nelson Rodrigues.
Mas então o que o faz um revolucionário? Alguns poderão pensar no engajamento político, do que descreio, pois na larga escala do tempo e da arte isso é um valor circunstancial. A resposta talvez seja a mais evidente: está nas letras de suas músicas, no modo como expandiu o campo da composição em largura - sua inesgotável horizontalidade temática (os eus femininos, os malandros, o Rio, a política, os sentimentos) - e em profundidade - seu mergulho vertical nas águas turvas do lirismo.
Mas antes de dimensionarmos essa conquista, é preciso libertar Chico de um estigma que termina por obliterar suas maiores virtudes: considerá-lo um poeta, classificação que ele mesmo sempre recusou. É possível que o equívoco venha de sua criação privilegiada, filho de um dos maiores intelectuais do país e da casa cheia de figuras emblemáticas de nossa cultura. É possível que a carreira paralela como escritor tenha reforçado essa ideia. Mas Chico não é um poeta. É um letrista. E não há qualquer diminuição nisso, antes pelo contrário. Seus feitos, mesmo em paralelo com outros grandes mestres das letras, Bob Dylan e Leonard Cohen, me parecem maiores, se não em profundidade, em amplitude. Colocá-lo ao lado de nossos poetas retira do campo da música seu poder revolucionário, sem lhe dar nada em troca. Pela mera razão de que na página o que é negro é som, o que é branco é silêncio. Na música o negro e o branco são sons, de voz e instrumentos. A letra encolhe na página; o poema, quando musicado, se enche de pompa, é envolto em um traje que nunca fica sob medida, por mais que seja ajustado. Não lemos uma letra do Chico como lemos um poema. Até porque ouvimos as melodias visceralmente associadas às palavras que ali estão, dentro do tempo em que foram cantadas. E ainda que possamos ouvir os ecos de Bandeira, de Vinícius, de Cabral, de Drummond, que ele tão bem soube transpor, para manter vivos, atualizando a tradição, uma das chaves de seu estilo (Até o Fim, Quadrilha, Fantasia), também ouvimos outros ecos, misturados a uma nova dicção, vinda da cultura popular, como em Feijoada Completa ou A Rita. E mesmo sua precisão formal, sua sonoridade tão bem acabada (os jogos de altos e baixos de Beatriz), o que revela também seu excelente ouvido musical, o conhecimento poético aplicado a músicas como Construção, com seus finais proparoxítonos, ou Paratodos, em que anuncia cobrir de redondilhas uma toada, o que de fato faz em versos heptassílabos (redondilha maior), devem ser conquistas da música, enriquecendo-a com o que para a poesia seria trivial.
Eis sua revolução, mais delicada do que a puramente sonora, e por isso mais sutil. Daí o pessimismo que revela em suas entrevistas em relação ao destino da canção em um país (mas também em um mundo) "da delicadeza perdida", justo ele que fora capaz de incorporar novas e inusitadas palavras ao léxico de nosso cancioneiro, os "escafandristas", de Futuros Amantes, o "catatônico", de Já Passou.
Nesse aspecto, vivemos em inegável derrocada. As letras das canções populares negam diariamente o legado de Chico (ou cristalizam-no), conseguem ter a um só tempo estreiteza horizontal e vertical. Os temas parecem restritos a festas e ostentação. Os sentimentos não passam de falsos dilemas amorosos para extravasar a crueza do sexo.
Por sorte, os artistas não costumam seguir o que dizem. Apesar do desencanto declarado, seu último disco o contradiz. Lá cintila a língua brasileira em sua melhor forma, como em Tipo um Baião: "É São João/ vejo tremeluzir/ seu vestido através/ da fogueira". Com um só verbo, desviado pela sonoridade, ele faz mover e brilhar, a um só tempo, a roupa e a chama.