Entrevista

"Vai ser a primeira campanha com maturidade digital", diz pesquisador

Silvio Meira, estudioso da área de engenharia de software e tecnologia da informação, considera que as redes têm poder para interferir na campanha

19/07/2014 | 16h03
"Vai ser a primeira campanha com maturidade digital", diz pesquisador Leo Caldas/Divulgação,C.E.S.A.R
"Tem muita gente que diz: vamos entregar para o meu sobrinho, que ele entende de rede social. Não é nada disso", afirma Meira (acima) Foto: Leo Caldas / Divulgação,C.E.S.A.R
Confira a seguir a entrevista com Silvio Meirapesquisador que é professor da Universidade Federal de Pernambuco, cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R) e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com passagem como bolsista pelo Berkman Center da Harvard University.

Como as redes sociais vão interferir na próxima eleição?
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Como o senhor avalia o uso das redes nesta eleição?
Silvio Meira - Todos os candidatos terão problemas estruturais nas redes sociais. Como no Brasil a noção de política é um pouco vaga, temos as alianças mais loucas acontecendo em todas as campanhas. Localmente tem alguma coisa incoerente com o nacional. Onde essas coisas vão se encontrar? No mundo plano das redes sociais. Não se quer saber se a aliança foi feita porque há uma conjuntura geográfica local. As incoerências políticas vão aparecer nas redes como uma dificuldade, às vezes muito grande, que terá de ser transposta pelos candidatos.

Mas o que muda, já que essa incoerência é histórica?
Meira - Essa vai ser a primeira campanha no Brasil em que a gente tem uma certa maturidade digital. Na campanha de 2010, na prática, ninguém tinha smartphone, era uma coisa limitada a um conjunto extremamente pequeno de pessoas, de classe média alta ou executivos de empresas. Você tem 70% das pessoas de 18 a 35 anos de idade com smartphone. E essa é a parcela que está mais interessada na eleição em qualquer sociedade. E que passa sete horas por dia em redes sociais no Brasil. Na televisão, a mesma incoerência aparece. A diferença é que eu não posso interferir. Se eu estou em rede social, não apenas eu posso interferir, como o contrário acontece: a campanha está tentando interferir em mim. Então tem um bocado de gente querendo chegar na minha timeline e querendo dizer um monte de coisa. E eu posso interferir diretamente. Eu posso comentar, gostar ou não. Essa vai ser a primeira campanha em que as redes sociais vão influenciar o comportamento do eleitor. Eu não estou dizendo que vai influenciar o voto, mas pode interferir de forma direta e em tempo real na conversa sobre a eleição.

Qual é o potencial dessa interferência?
Meira – Na última eleição, a combinação de votos brancos e nulos com abstenção foi quase um terço. Então existe um potencial de atração de eleitores nas redes sociais, já que as pessoas estão lá. O Brasil tem 110 milhões de pessoas na internet, pouco mais de 50% da população, e 90 milhões desses estão na internet, 50 milhões no Twitter. Então eu posso impactar muita gente. Imagine que os 30% de brancos, nulos e abstenção estejam homogeneamente distribuídos. Numa projeção, se poderia dizer que, dos 90 milhões que estão no Facebook, há 27 milhões que ou votaram nulo, ou em branco, ou não vou votar. Se eu conseguir trazer metade desse pessoal para a eleição, são 14 milhões de votos, o que deve ser o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Obviamente estou arredondando um bocado de contas e fazendo um monte de suposições. Estou dando uma ideia do potencial que as redes sociais podem ter. Se as redes sociais conseguissem diminuir a abstenção, já seria um impacto gigantesco sobre a eleição. Porque estamos vendo um aumento significativo e paulatino da falta de capacidade da democracia representativa efetivamente representar.

Nesta campanha tem se falado bastante em guerrilhas de internet, com militantes organizados para difundir ataques contra os adversários. Isso é preocupante?
Meira – Isso funciona melhor quanto mais sofisticado é o plot (a conspiração) e quanto menos sofisticado é o uso da rede. Um exemplo é quando criam 10 mil blogs, operados por robôs, e começam a publicar coisas, para criar uma percepção de rede sobre um candidato. A rede é mantida por um conjunto de algoritmos. Se eu conseguir convencer os algoritmos do Google que tal candidato "X faz Y", quando alguém perguntar por "X e Y", vai aparecer como resposta "X fez Y". Como o algoritmo do Google é reconhecidamente um bom algoritmo para descobrir coisas, e é tratado como sendo a verdade sobre alguma coisa, ninguém se dá o trabalho de ir para a segunda página da pesquisa. Então, se eu conseguir contaminar o Google, usando uma programação na rede, com milhares de blogs, centenas de links, assim por diante, que determinado candidato fez tal coisa, a pessoa que fizer essa pesquisa vai acreditar que ele fez e vai acreditar que é verdade. À medida que tivermos usuários mais sofisticados, essa estratégia de tentar convencer os algoritmos de que um candidato é o que ele não é será cada vez menos eficaz. Você não ouve falar na Europa que está tendo uma boataria de X, Y, Z. Até porque lá as proposições são políticas.

Então há risco de manipulação da rede?
Meira – No Brasil há, sim. Acho que, por causa desse risco de manipulação e de guerrilhas digitais que estão sendo montadas, existe uma possibilidade ruim para a democracia, de judicialização bem maior da campanha.

Como se refina o uso para sair dessa armadilha?
Meira – Primeiro tem o combate estrutural. Teve um incidente em que um conjunto de milhares de robôs foi utilizado para manchar a imagem de um certo candidato no Twitter. Milhares de contas zumbis no Twitter publicavam links apontando para um post que mexia com a imagem de um candidato. O próprio Twitter descobriu e tirou do ar. O candidato em pauta tinha um time digital que detectou essa quadrilha de robôs e avisou para o Twitter, que quando foi avisado já sabia do que estava acontecendo. Depois tem o combate conjuntural. Todos os candidatos têm equipes digitais que sabem como detectar um ataque a seus perfis, suas posições e reagir com contra-ataques. Há ferramentas para manter vigilância em cima de palavras-chave, observar de onde estão vindo certos tipos de posts, olhar quem é que está replicando o que você escreveu e assim por diante. O mais complexo não é combater esse tipo de ataque, é construir e manter uma posição coerente nas redes.

O senhor fala que entender de redes sociais não é uma questão de tecnologia, mas de entender como as pessoas se comunicam.
Meira – Tem muita gente que diz: vamos entregar para o meu sobrinho, que ele entende de rede social. Não é nada disso. Há décadas os sociólogos fazem análises em cima da noção de "social networks" (redes sociais). O que aconteceu a partir da década de 1990 é que agregaram outro termo, online social networks (redes sociais online). É uma espécie de magnificação e radicalização das redes sociais off-line. Para você ter uma política competente em rede social, primeiro tem que entender de pessoas e rede. E depois, obviamente, entender a tecnologia que é usada para magnificar essas pessoas em rede. As pessoas são as mesmas, só estão sendo mediadas por outro tipo de tecnologia.

Comparando a realidade brasileira com a dos Estados Unidos, há um equívoco na transposição de estratégias?
Meira – Até antes do início efetivo da campanha, estava cheio de trombadinha no Brasil dizendo que tinha participado da campanha do Obama e sabia como fazer um candidato ganhar a eleição usando redes sociais. E a ideia era simplesmente transpor o que aconteceu lá. Essa transposição é impossível. A política lá tem dois partidos que há décadas se engalfinham por 1% ou 2% dos votos. No Brasil, é uma miríade de partidos e três candidatos principais. Nos Estados Unidos há dados que não existem no Brasil. Lá a lista de votação é pública. Você sabe quem votou e onde ele mora, e tem o Facebook dele. Se eu sei a urna em que ele votou, eu sei se lá ganhou democrata ou republicano. Nessa última campanha federal americana, as redes sociais foram determinantes para a vitória do Obama, porque mobilizaram pessoas que não iriam votar para que fossem e votassem em Obama. Aqui a coisa é "N" vezes mais complicada.

Como o usuário pode evitar ser usado para propagar informações falsas?
Meira – Três regras básicas. Primeiro: o que está escrito na sua tela não é necessariamente a verdade. Se não é uma página que venha de fontes autorizadas, confiáveis, desconfie. O segundo ponto é: reflita sobre o que você lê. O brasileiro tem muita posição, é contra isso, a favor. Mas quando se pergunta: por quê? Aí se vê que não tem reflexão, a pessoa não consegue explicar. Participar do debate implica, num primeiro momento, ouvir e entender o que está sendo debatido, para tentar criar uma posição sua sobre o que está acontecendo. Terceiro ponto: tendo criado uma posição, a expresse. Se a presença de cada um em rede for assim e se cada um votar sabendo porque está votando, as redes já terão tido um impacto imenso para você e você terá tido um impacto imenso na rede.

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