Cortázar centenário

Os segredos do mestre do conto

Contos de Cortázar flagram, como as fotos de Cartier-Bresson, instantes decisivos de seus personagens

16/08/2014 | 16h01
Os segredos do mestre do conto  Henri Cartier-Bresson/Reprodução
O instante congelado: casal dança em salão soviético com Lênin em primeiro plano orientando o futuro do partido Foto: Henri Cartier-Bresson / Reprodução

E então os carros que estavam engarrafados começam a se mover lentamente, depois de meses estagnados sem que se pudesse saber a razão. Presos na estrada, os motoristas haviam inventado uma nova comunidade, estabelecido novos vínculos, revelado os aspectos de uma natureza humana que nos fez capazes de nos adaptarmos a tudo. Mas agora os carros seguem, um casal que se formara dentro do engarrafamento, já cada qual em seu carro, tenta avançar lado a lado, ela está grávida; as filas, no entanto, vão perdendo a paridade, e a vida segue, como ela sempre segue, em direção a um futuro ignoto.

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Esse é o final de um dos mais primorosos contos do século 20, e creio que os leitores — se comigo dividem a brutal admiração pela obra de Julio Cortázar —, reconheceram o encerramento de A Autopista do Sul. Neste, como em tantos outros de seus contos, o escritor argentino pôs em prática aquilo que defendeu em um famoso artigo chamado Alguns Aspectos do Conto — sobre as características do gênero a que dedicou uma vida. Segundo ele, o conto deve ser como uma fotografia que vai se abrindo e que se expande para fora da moldura, por um processo de sensibilidade e inteligência do leitor. Lembro-me de que durante alguns anos entendi somente no intelecto essa ideia a que ele chamava de abertura, até ver uma foto do Cartier-Bresson, que o próprio Cortázar usa como exemplo no texto. Tratava-se de uma foto que estava em uma exposição que veio a Porto Alegre com séries feitas em cidades europeias. Havia uma tirada em Moscou que expunha, em dois terços do enquadramento, uma parede decorada por um enorme cartaz com um rosto ameaçador a bradar alguma advertência em russo. Ao fundo, no terço restante à esquerda, por uma porta aberta, entrevia-se um enorme salão de dança. Mais ao fundo, ao fundo desse vão, um casal a bailar, solitário, quase fora de foco, alheio (ou talvez avesso) à realidade. Um instante congelado que segue em movimento, diamante feito com muita pressão de tempo sobre as ações vitais, até que se chegue à ação depurada, a ação das ações. Depois também vi isso nas fotos de Brassaï, de Munkacsi. E nos contos de Cortázar, claro, como nos contos de outros grandes escritores. Não um curta, em anteposição ao que seria o longa-metragem do romance. Uma fotografia. Todo o grande conto pode ser reduzido a esse momento decisivo em que um personagem descobre seu destino e congela.

Como o protagonista de Manuscrito Encontrado em um Bolso, um homem que, cansado de ver suas relações amorosas se estabelecerem por obra do acaso (como costuma ocorrer a cada um de nós, diga-se de passagem), resolve elaborar um complexo esquema de baldeações nas linhas do metrô de Paris até chegar ao último vagão programado para o dia, onde só então poderá tentar se relacionar com alguma mulher. Desnecessário dizer que o sistema falha, ele acaba se envolvendo com uma passageira ao acaso, a relação dos dois progride, mas ele não consegue superar a ideia do logro. Diz a ela que não poderão ficar mais juntos senão que também ela monte um plano de baldeações e os dois venham a se cruzar ao final de seus trajetos. O conto termina — o final parece aberto, mas o título sugere o destino de nosso herói — com o protagonista buscando sua parceira indefinidamente. Aí está nossa foto. Este homem no assento do metrô, a claridade mortiça da luz artificial e a escuridão para além das janelas a acompanhá-lo. No centro da minha galeria cortaziana está, contudo, a foto tomada de Carta a uma Senhorita em Paris. Um homem que ficara cuidando do apartamento da dita senhorita começa, sem razão evidente, a vomitar coelhos brancos, que passam a se multiplicar e a roer tudo que encontram ao redor. Aos poucos, todos os espaços começam a ser cobertos por esse mar de coelhos brancos, ao melhor estilo das fotos de Sandy Skoglund, com suas imagens de quartos povoados por peixes coloridos.

O que nos leva, neste segundo momento, à questão do fantástico na obra de Cortázar, distinta da tradição latino-americana de seu tempo, o tempo do boom, que levava os escritores, ao modelo García Márquez, ao maravilhoso, ao exagero de eventos mágicos ligados às tradições mais primitivas do continente. Os eventos estranhos em suas histórias não têm marcações culturais específicas, realizam-se como sabotagem ao realismo trivial ou mesmo como exacerbação do próprio realismo, criando distorções perceptivas (o que alguns chamam de hiper-realismo). Em entrevista a Ernesto Bermejo, o autor de O Bestiário diz: "O fantástico é uma coisa muito simples, que pode acontecer em plena realidade cotidiana, neste meio-dia ensolarado, entre você e eu, ou no metrô, quando você estava vindo para nosso encontro". Ele conclui dizendo que "o fantástico pode acontecer sem que haja uma mudança espetacular das coisas". Como o sujeito que vai ao aquário admirar os axolotes até que termina por se tornar um deles. Trata-se de um grito contra o rotineiro, contra o repetível dos gestos universais, roubando a expressão de Drummond. O evento fantástico não voltará a se repetir, o evento fantástico também é esse instante fotográfico que o olho do artista reconhece.

Uma foto de dupla exposição. Destino que se abre a partir de um instante congelado, de um lado, vingança daquela verdade íntima e irracional que as lógicas científicas e filosóficas jamais tocam. Em todos os principais contos de Julio Cortázar vemos essa convergência das duas exposições: O Outro Céu, As Babas do Diabo, A Ilha ao Meio-Dia, Continuidade dos Parques.

Nada contra o romancista, contra o poeta, contra o dramaturgo, mas é nos contos que Cortázar nos dá essas imagens animadas, que por vezes lembram fotografias de infância, que já não precisamos ver, que estão a nós amalgamadas. E que também podemos habitar. Eu, particularmente, muitas vezes volto àquele hotel de O Perseguidor, como quem percorresse um lugar guardado na memória, e ali ficar ao lado de Bruno, Dédée, e do insano saxofonista Johnny em seus devaneios sobre o tempo e a música. Fotográfica e fantástica abertura.

* Escritor, poeta e músico. Autor, entre outros, de Falso Começo (2013)

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