Bolha ideológica

Algoritmo ou escolhas pessoais: o que constrói as timelines do Facebook?

Estudo publicado na revista Science tenta provar que os usuários são os principais responsáveis pelo que veem ou deixam de ver na rede social, mas nem todo mundo concorda

Por: Caue Fonseca e Paula Minozzo
16/05/2015 - 12h46min
Algoritmo ou escolhas pessoais: o que constrói as timelines do Facebook? Mauro Vieira/Agencia RBS
O código de programação por trás de redes sociais como o Facebook tenta adivinhar quem você é, do que você precisa e com quem você gosta de conviver Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS  

Você, leitor atencioso e sensato de uma reportagem dominical, provavelmente se irritou em algum momento das eleições presidenciais do ano passado. E pode ser que a sua irritação, levada às redes sociais, tenha feito você contestar um tio, um colega de trabalho, um cunhado, pela opinião absurda dele em comparação à sua. Até para o bem dos churrascos em família, quem sabe você tenha decidido cancelar a amizade com determinadas pessoas do Facebook. Ou não. Pode ser também que você tenha entrado de peito aberto em acaloradas discussões eleitorais.

Pois bem, todas essas atitudes, saiba, tiveram o mesmo efeito no Facebook. Ao final, você ficou cercado de pessoas mais parecidas a você. E não vale só para a política. Se você subitamente se tornou um fã de Gabriel Medina e começou a ler mais sobre surfe na internet, deve ter percebido promoções de pranchas, fotos de mar e – veja só que coincidência – um anúncio de uma companhia de viagem te convidando a conhecer o Havaí.

É isso que faz um algoritmo – o código de programação por trás de redes sociais como o Facebook: tenta adivinhar quem você é, do que você precisa e com quem você gosta de conviver. Isso sem nunca deixar de afagar seu ego, de fazer você se sentir orgulhoso pelas suas opiniões mostrando-as mais a pessoas que concordam com você e escondendo das que discordam.

– Sempre digo, nas aulas, que as curtidas do Facebook não devem ser encaradas como sinais de positivo para alguém, mas como uma lanterna para iluminar o que queremos saber mais. Mas, para isso, teríamos de curtir coisas que não concordamos. Ou seja, curtir o que não curtimos – avalia a professora Márcia Siqueira Costa, do curso de Mídias Sociais Digitais do Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo.

 


No dia 7 de maio, por meio de uma pesquisa publicada na revista Science, os cientistas sociais Eytan Bakshy, Solomon Messing e Lada Adamic, todos ligados ao Facebook, quiseram demonstrar que isso acontece, sim. Mas seria mais uma consequência das escolhas individuais das usuários do Facebook do que dos prejulgamentos do seu algoritmo. A pesquisa avaliou o comportamento de 10 milhões de usuários que se declararam politicamente conservadores ou liberais em seus perfis frente ao chamado “conteúdo cruzado”: postagens com ideias contrárias às deles.

O Facebook se encarrega de mostrar aos progressistas 22% de conteúdo que desafia sua ideologia. Já os conservadores enxergam 33% desse tipo de postagem – conservadores têm um pouco mais de interesse pelas ideias dos adversários do que o contrário. Segunda a pesquisa, se a rede social não soubesse a orientação política dos usuários, eles visualizariam respectivamente 24% e 35%, índices muito semelhantes. E chegariam a esses percentuais pelas suas próprias escolhas: suas amizades, suas curtidas, seus comentários. Ou seja, se há uma “bolha ideológica”, somos nós mesmos quem nos colocamos para dentro. O Facebook só facilitaria o enclausuramento nessa gaiola aconchegante dos que concordam conosco.

– Facebook, Google... eles não são os maiores vilões da história. Existe o livre arbítrio para buscar informação fora daquele meio. Mas a tendência do ser humano é se acomodar. Esses sites são apenas ferramentas – completa o psicólogo Erick Itakura, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUCSP, para quem o comodismo em receber todas as atualizações no mesmo lugar desencoraja a busca de informações e de opiniões diversas.

 

Mas não faltaram críticos à pesquisa. Christian Sandvig, professor da Universidade de Michigan que conduz experimentos sobre percepção e satisfação do usuário em relação ao conteúdo selecionado pelo tal algoritmo, questiona, sobretudo, a amostragem:

– São pessoas que vestem a camiseta de uma ideologia e sinalizam isso nos seus perfis. Esses usuários têm um comportamento diferente e, portanto, clicam mais em conteúdo político e têm tendência natural à polarização – avalia Sandvig.

A segunda crítica diz respeito ao Facebook como ator político. Se a ferramenta é adequada ou não para receber informações, não é o caso. Ela é usada para isso e ponto. A empresa tem, portanto, sua responsabilidade social. De acordo com o professor de Jornalismo Digital da PUCRS Marcelo Träsel, um dos caminhos que a empresa pode seguir é adotar um código de ética mais claro, como veículos jornalísticos. Como todo bom jornal, a rede social teria de se equilibrar entre o que o leitor deseja ler e o que é importante que ele leia. Um passo nessa direção foi tomado na semana passada: uma parceria permitirá que nove veículos da envergadura de New York Times e National Geographic passem a publicar matérias especiais diretamente no Facebook. Não precisarão mais publicar links para seus sites.

– É curioso. Quando a internet chegou, o interessante era poder ler o New York Times ou o India Times... Agora temos de inventar formas de pluralidade porque as pessoas leem apenas a sua timeline. De qualquer forma, não creio que o Facebook vá estar aí por muito tempo. Parece loucura, mas se eu dissesse em 1999 que a America Online (provedora de internet) não duraria muito, também pareceria. Ela foi vendida de novo quarta-feira passada (para a operadora de celular americana Verizon, por US$ 4,4 bilhões) – diz Träsel.


Ao encontro dessa percepção vem a do professor Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo: embora o império de Zuckerberg não pare de crescer – atingiu faturamento de US$ 3,85 bilhões no último trimestre de 2014 e 1,44 bilhão de usuários em 2015 –, já apresenta sinais de fadiga:

– No final da década de 1990, fazíamos exatamente esse debate sobre manipulação dos usuários pelos portais de notícias. Em 2000, programas de relacionamento direto entre os usuários, como o Napster (de troca de músicas), mudaram tudo. Mais recentemente, as redes sociais mudaram tudo de novo. Agora, já há sinais de tédio, sobretudo do jovem, frente ao Facebook, e já tem gente se perguntando: “Será que deu ruim?”. Para troca de mensagens, por exemplo, os mais novos já encontraram coisa melhor no Snapchat.

Segundo Malini, um pouco do esgotamento do Facebook para os jovens resulta da tendência natural deles de fugir de espaços sociais compartilhados por adultos demais. Mas em parte é culpa, veja só, do próprio algoritmo. Afinal de contas, por mais que você adore frequentar um bar, por quanto tempo você curte encontrar as mesmas pessoas, dançando as mesmas músicas e rindo das mesmas piadas em todas as festas? Pois é.

>>> Leia também o artigo "A lógica da rede é a do prazer", de Bernardo Carvalho
 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.