No dia em que a tensão sobre a revelação do conteúdo das delações se intensificou no mercado financeiro, prolongando a sequência de queda na bolsa e alta no dólar – que escalou para perto de R$ 3,20 –, ficaram mais claros os motivos das ameaças abertas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sobre as consequência da não aprovação da reforma da Previdência.
Na quarta-feira, Meirelles havia endurecido o discurso e falado até em alta de 10 pontos percentuais na carga tributária – hipótese insustentável, por isso mesmo facilmente identificável como ameaça. Nesta quinta-feira, o relator da PEC, Arthur Maia (PPS-BA), admitiu que, do jeito que está, a proposta não será aprovada.
– O que ele (Meirelles) acha que é ótimo não será aprovado. Vamos tentar construir um texto que seja bom para todos.
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Forte resistência vem do setor público, que se considera prejudicado mesmo em relação às mudanças para todos os trabalhadores – mínimo de 65 anos, 49 anos de contribuição para alcançar o teto do benefício e exigência de “pedágio” mesmo para quem tem mais de 45 (mulheres) ou 50 anos (homens).
A combinação entre as especulações sobre a quebra de sigilo das declarações dos 78 executivos da Odebrecht na investigação da Lava-Jato e a incerteza sobre os próximos passos do ajuste fiscal azedou o humor dos investidores depois de um verão caracterizado por entusiasmo financeiro que contrastava com os dados da economia real. No câmbio, há um componente global, a expectativa das contratações nos EUA que, hoje, podem influenciar a alta do juro por lá na próxima semana.
Quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, encaminhar ao Supremo Tribunal Federal (STF) o material da investigação com base nas denúncias dos delatores, será possível avaliar o tamanho do estrago potencial provocado na base de apoio do governo. A oposição será atingida, mas com o complemento fundamental para o teto dos gastos ainda em suspenso, é o efeito sobre os aliados que pesa mais. Embora haja um longo processo entre a citação de eventuais implicados e qualquer tipo de punição, pode ficar mais difícil garantir apoio suficiente para obter, em dois turnos, 308 votos na Câmara e 49 no Senado.