Se tivesse, no final do ano passado, ao fixar as linhas gerais de sua reforma da Previdência, apresentado as regras que devem valer a partir de agora, o governo federal não teria ajudado a construir uma resistência tão sólida à proposta. Desde o primeiro dia, e até por quem não duvida da necessidade de mudanças, havia o diagnóstico de que o conjunto era duro demais.
A exigência de contribuição de 49 anos para ter acesso ao teto individual do benefício foi um dos principais argumentos para construir a noção de que os brasileiros morreriam antes de se aposentar. Pior: até os defensores mais ardorosos da adoção da idade mínima de 65 anos consideravam a norma excessivamente dura.
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Foi como dar munição ao inimigo. Criou condições para engrossar protestos de rua e para episódios como a tentativa de invasão na Câmara dos Deputados. Passou a mensagem de que, diante de pressão suficientemente forte, há espaço para mais recuos.
O que antes era imutável, agora é negociável. A conta que antes precisava fechar sob pena de caos no orçamento, agora comporta concessões e acomodações. Caiu a igualdade entre homens e mulheres, em um governo flagrantemente desigual em representação. Caiu até a pedra fundamental, a idade mínima de 65 anos que teria de vigorar imediatamente. Negociar é preciso? Sem dúvida. Mas quando se anuncia um determinado volume de economia como crucial, voltar atrás embute o risco da aniquilação de credibilidade.
Dilma Rousseff queria reforma previdenciária. Joaquim Levy queria mudar a Previdência. A grande maioria dos especialistas em contas públicas considera as mudanças essenciais para o equilíbrio das contas. Mas não distinguir o essencial do desejável, em ambiente político precário, só joga contra. Especialmente se o problema não está no tamanho do passo atrás, mas na posição de largada. Não foi à toa que, um dia depois de sinais favoráveis, o tempo voltou a fechar.