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Provinciana, fechada e atrasada? Artigo sobre quem trocou Porto Alegre por outra cidade gera debate

Artigo publicado em ZH nesse fim de semana levantou debate sobre a capital gaúcha, descrita como fechada, provinciana, preconceituosa, atrasada e desconectada do que acontece no mundo. A seguir, discutimos o tema com gente que foi embora, que ficou ou que voltou

22/08/2016 - 18h58min | Atualizada em 23/08/2016 - 10h42min
Provinciana, fechada e atrasada? Artigo sobre quem trocou Porto Alegre por outra cidade gera debate Dani Barcellos/Especial
Foto: Dani Barcellos / Especial

O publicitário Alfredo Fedrizzi percebeu que os filhos de grande parte de seus amigos, depois de se formarem nas melhores escolas e universidades de Porto Alegre, haviam trocado a capital gaúcha por outras cidades, no Brasil e no Exterior. Preparou um questionário sobre o assunto e disparou-o por e-mail para integrantes dessa diáspora, gente que vive em São Paulo, Rio, Xangai, São Francisco, Miami e Nova York.

As respostas serviram de base para o artigo intitulado "Por que fomos embora de Porto Alegre", publicado no fim de semana em Zero Hora. O texto é uma coleção de críticas impiedosas: a Capital é descrita pelos egressos como um cidade fechada, provinciana, preconceituosa, atrasada e desconectada do que acontece no mundo.

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Fedrizzi, ele próprio com duas filhas morando fora, imaginou que seria alvo de ataques ferozes depois da publicação. Acabou surpreendido. A reação dos porto-alegrenses foi oposta. O publicitário recebeu e-mails e mensagens de pessoas que não só concordavam com as críticas, mas ainda as ampliavam.

— Achei que ia apanhar bastante e que iam me insultar. Estava pronto para apanhar, mas quase todo mundo está concordando — relata o publicitário.

O desapontamento da população com a cidade é uma ferida que parece estar sempre aberta. O discurso predominante é o de que Porto Alegre é o lugar onde nada vai para a frente, onde nenhum projeto dá certo, onde tudo é grenalizado, gerando imobilidade — questões que voltam a aparecer na enquete promovida por Fedrizzi. Curiosamente, a Capital também é descrita, simultaneamente, como a aldeia bairrista que só valoriza o que é daqui e o balde de caranguejos que não valoriza nada do que é daqui.

O cineasta José Pedro Goulart afirma que já esteve próximo desse tipo de posição, mas hoje tem uma visão mais matizada. Ele desconfia que um certo sentimento de provincianismo em relação a centros urbanos maiores, de que aquilo que é feito fora tem mais valor, não é uma característica meramente local, mas algo generalizado — e que talvez possa ser encontrado até no Rio de Janeiro, em relação a uma metrópole como Nova York.

— Antes eu era um pouco mais como o Fedrizzi. Mas me dei conta de que essa coisa existe em tudo que é lugar. Há um mês estive em Seul, na Coreia do Sul, e notei que lá eles têm esse mesmo sentimento. Morando sempre em Porto Alegre, fiz aqui um trabalho contundente. Como é que vou me queixar? Tenho receio de colocar água nessa planta — pondera.

O escritor Ismael Caneppelle, que tem publicado textos críticos à realidade local, também evita embarcar no ataque à capital gaúcha, quando confrontado com as opiniões presentes no artigo de Fedrizzi, e diz que não enxerga uma "realidade tão binária":

— Morei a primeira metade da vida em Lajeado e a segunda metade em São Paulo. Depois disso, vim experimentar Porto Alegre pela primeira vez. A recepção das pessoas foi sensacional. Aqui, pude inventar um novo jeito de produzir. Das cidades brasileiras possíveis, Porto Alegre é, hoje, o lugar onde mais gosto de ficar.

Na conversa com Zero Hora, Goulart mostrou preocupação de que seu ponto de vista não fosse bem compreendido, sintoma de que se trata de um tema polêmico, que pode gerar incômodos. Um conhecido intelectual gaúcho radicado em São Paulo, por exemplo, preferiu nem dar entrevista.

— Se disser o que penso sobre Petit-PoA, nunca mais poderei sair à rua por aí — brincou.

Fedrizzi, que diz ter publicado o texto porque concorda com as críticas, revela que há mais artilharia a caminho. Os ataques a Porto Alegre foram tão numerosos que ele resolveu reparti-los em dois artigos.

— No primeiro artigo, concentrei as opiniões sobre o jeito de ser da cidade. Quis provocar os políticos, porque não vejo propostas para abrir Porto Alegre. Estamos perdendo talentos, formando gente para ir embora daqui. O próximo texto vai ser sobre questões funcionais, como mercado de trabalho, violência e descuido com a cidade — anuncia.

Comparação injusta, diz professora

O fato de Porto Alegre ser uma cidade menos inovadora e mais restrita em oportunidades do que outras metrópoles é, sob um certo ponto de vista, algo esperado. Teóricos apontam a existência de uma hierarquia entre os centros urbanos, conforme o nível de complexidade econômica e o papel que eles desempenham.

No topo, estão as chamadas cidades globais, megalópoles como Nova York, Tóquio, Paris, Londres e, no caso brasileiro, São Paulo e Rio de Janeiro. A capital gaúcha não compete nesse campeonato. Ela estaria num patamar abaixo, o das metrópoles nacionais, com influência limitada a regiões próximas. Xingá-la porque não é São Paulo, portanto, teria algo de injusto.

— Porto Alegre não se insere na mesma hierarquia daquilo que os autores chamam de cidades globais e, no Brasil, não está no mesmo patamar de internacionalização de São Paulo e Rio de Janeiro — diz a professora Tânia Strohaecker, do Departamento de Geografia da UFRGS.

Conforme Tânia, as tecnologias tornaram possível uma interação direta entre os centros globais e as cidades menores, sem passagem pelos polos intermediários. Com isso, as hierarquias já não seriam tão rígidas, e as cidades que estão no meio podem se ver diante da necessidade de se reinventar e encontrar novas funções.

No caso de Porto Alegre, uma aposta de reinvenção é a região conhecida como Quarto Distrito, uma faixa situada à beira do Guaíba, que vai do Centro até o bairro Humaitá. O secretário municipal de Governança Local, Cézar Busatto, acredita que galpões e terrenos desocupados da região podem se transformar em um grande polo de saúde, aproveitando uma vocação local para revitalizar a economia da cidade.

— Em Porto Alegre, faz bastante tempo que a gente discute as questões social, ambiental, política e cultural. Mas a pauta da economia não aparece. A gente esquece que não tem como resolver os problemas se não houver economia forte. Estamos deixando escorrer pelos dedos a coisa mais importante, que é a atividade econômica. Uns anos atrás, nasceu o grupo Cidadãos, Inovação, Tecnologia e Empreendedorismo (Cite), um movimento que desembocou na proposta de revitalização do Quarto Distrito, com um plano diretor específico para transformar a região em um polo da economia da saúde. É um novo vetor econômico, com potencial para segurar talentos. Isso está acontecendo. É possível que tenhamos chegado tarde, mas há um clima de mudança de curso. Isso é coisa para 20 anos, mas todas as cidades que deram a volta por cima fizeram planejamento de longo prazo — afirma Busatto.

Fedrizzi é menos otimista. Ele participou da fundação do Cite e da discussão que desembocou na proposta de transformação do Quarto Distrito, mas não enxerga avanços tão promissores:

— O movimento está meio desativado. No caso do Quarto Distrito, estamos tentando fazer essa carroça andar. São 10 anos à espera de que decole, mas fica um esperando pelo outro. Fazer as coisas em Porto Alegre é muito difícil.

Busatto diz ter lido o artigo do publicitário e reconhece que as críticas listadas têm fundamento, mas é contra olhar apenas "a parte vazia do copo":

— Não estamos mortos nem parados. Porto Alegre não é o lugar mais atrasado. Temos aqui o maior índice de mestres e doutores per capita do país. Isso é capital humano. Porto Alegre formou essas pessoas que foram para outros lugares, porque somos muito bons nessa área da educação. Temos problemas e estamos perdendo talentos, é verdade. Mas não dá para dizer que somos uma porcaria e não temos futuro. Temos alternativas à nossa frente.

 
 
 
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