Porto Alegre

Obras paradas, insegurança e prédios em ruínas: a degradação da Rua Voluntários da Pátria

Duplicação de trecho da via que liga o Centro Histórico à Zona Norte estava prevista para a Copa, mas segundo trecho nem saiu do papel

Por: Jéssica Rebeca Weber
11/04/2017 - 21h57min | Atualizada em 11/04/2017 - 22h50min
Obras paradas, insegurança e prédios em ruínas: a degradação da Rua Voluntários da Pátria Isadora Neumann/Agência RBS
Foto: Isadora Neumann / Agência RBS  

Emoldurado por prédios em ruínas, o trecho da Rua Voluntários da Pátria junto ao Quarto Distrito parece cair no esquecimento. E o mesmo ocorre com o projeto de mobilidade urbana que prometia dar cara nova à antiga via porto-alegrense: cerca de 15% da duplicação prevista para a Copa 2014 foi concluída; o restante não tem perspectiva de receber as obras.

Prevendo ciclovia, corredores de ônibus e tratamento paisagístico do canteiro central, a duplicação entre as imediações da Rodoviária e a ponte do Guaíba era uma das mais aguardadas obras de trânsito para o Mundial. Deveria facilitar a comunicação entre o Centro e a Zona Norte, além de impulsionar o desenvolvimento do bairro Humaitá e a revitalização do Quarto Distrito. Mas apenas um trecho de três quadras foi entregue, somando menos de 500 metros, entre a Rua da Conceição e a Ernesto Alves. Ainda assim, com três anos de atraso, calçadas, ciclovia e parte da sinalização estão pendentes. No segundo trecho, até o cruzamento com a Sertório, não há previsão para a realização da obra.

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— Ali, dependemos de 55 desapropriações (principalmente de áreas comerciais), que representam algo em torno de R$ 39,7 milhões. O custo para as desapropriações tem que vir do caixa do tesouro, mas o município vive um déficit financeiro — diz Elizandro Sabino, secretário municipal de Infraestrutura e Mobilidade Urbana.

Por causa do complicado processo de desapropriação, o consórcio de empresas DP Barros, FBS, Soebe desistiu de realizar a duplicação desse trecho — que contempla os bairros Marcílio Dias, Floresta, São Geraldo e Navegantes. A segunda colocada na licitação não teve interesse. A gestão anterior da prefeitura dizia que realizaria um novo certame. Atualmente, lançar o edital não está nos planos do Executivo municipal.

— É necessária uma viabilidade que, neste momento, nós não vislumbramos — reitera o secretário, relatando que as pendências do primeiro trecho da obra não são pagas desde outubro de 2015 em razão do déficit financeiro do município.

O valor previsto para a realização da duplicação no segundo trecho é de R$ 44 milhões, com recursos do governo federal. Questionado sobre riscos de perder verbas, Sabino afirma que "a equipe técnica da obra está trabalhando para que isso não ocorra", por meio de contato permanente com a União. O secretário tranquiliza, afirmando que o município não está sendo pressionado e que não foram estipulados prazos:

— Existe um diálogo aberto.

O borracheiro Luiz Pelet, 61 anos, mantém seu negócio há mais de 10 anos na esquina da Voluntários com a Doutor João Inácio. Ele se queixa de problemas de alagamento e de trânsito, e se mostra impaciente quando o assunto é a obra prometida.

— Mas quando? Quando vão duplicar isso aí? Faz uns quantos anos que é para ser duplicada e não é — reclama.

João Silveira Justo, 75 anos, dono de uma fábrica de sorvete, ainda tem esperança. Ele acredita que as melhorias tornarão a rua mais segura.

— De cinco anos pra cá, (a rua) ficou muito perigosa. Fomos assaltados há uns 10 dias. Estamos trabalhando com portas fechadas — disse na quarta-feira passada.

Duas faces de uma mesma via

A Voluntários da Pátria tem duas faces. Ao sul da Rua da Conceição, em direção ao Mercado Público, é um dos pontos com mais comércio e circulação de pessoas do Centro Histórico. Do outro lado do viaduto, a via atravessa a Vila dos Papeleiros, e o movimento de pedestres vai diminuindo, até ficar raro encontrar uma pessoa na calçada. À noite, é ponto de prostituição.

Terrenos baldios acumulam lixo, e a violência assusta quem sai na rua — que, ironicamente, é sede da Secretaria da Segurança Pública do Estado.

— A rua é suja e perigosa. Quando saio no fim da tarde, levo um canivete na bolsa. Nunca vejo pedestres, e, se vejo, me preocupo achando que vão me assaltar — diz a aposentada Solange Vivian, 60 anos.

Ela mora há 45 anos na Avenida São Paulo, perto da Voluntários. Lembra com saudade da época em que havia bares e até cinemas na região:

— Agora, está tudo abandonado.

O tenente-coronel Oto Eduardo Amorim, comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar, diz que a corporação recebe poucas informações sobre atividades suspeitas no local. Mesmo assim, afirma que são feitas abordagens na região.

A Rua Voluntários da Pátria ainda abriga muitas empresas, garagens e depósitos, mas parte dos imóveis que lembram a antiga pujança do Quarto Distrito estão desocupados. Edifício da década de 1910, com uma arquitetura que foi considerada inovadora e moderna por causa do abandono de adornos e frisos, o antigo Moinho Rio-Grandense, na esquina com a Rua Moura Azevedo, tem janelas quebradas e reboco caindo da parede. O único sinal de vida no prédio vem do telhado, utilizado por pombos. O técnico em manutenção de máquinas Adilson de Souza Soares, 47 anos, que mora em São Paulo e foi apresentado à Voluntários na semana passada, lamentou o estado do edifício:

— Acredito que há um tempo era um bairro mais receptivo, mas hoje está abandonado. A gente se sente inseguro.

O prédio da Companhia Fiação e Tecidos Porto-Alegrense (Fiateci) foi um dos poucos que passaram por grande transformação. Parte de seus armazéns foi derrubada para dar lugar a quatro torres de apartamentos e um espaço comercial, empreendimento da construtora Rossi. Já as casas dos operários foram mantidas e revitalizadas.

História remonta ao Caminho Novo

A história da Voluntários da Pátria remonta a 1806. Foi quando começou a ser construído o Caminho Novo, como era chamada a rua que margeava o Guaíba rumo à Várzea do Rio Gravataí (mais ou menos onde hoje está a Arena do Grêmio). O caminho facilitava a comunicação do Centro com as chácaras que havia na margem do Guaíba.

— Os primeiros cronistas falam do Caminho Novo como uma área muito atraente e arborizada — conta o pesquisador Sérgio da Costa Franco.

Em 1870, o Caminho Novo recebeu o batismo oficial de Rua Voluntários da Pátria, em homenagem às unidades militares criadas para lutar na Guerra do Paraguai. Com o trem e as embarcações, atraiu comércio atacadista e indústrias.

A rua ficava às margens do Guaíba até a metade do século passado. Mas a área foi aterrada, na parte onde hoje passa a Avenida da Legalidade e da Democracia, prejudicando a relação do bairro com o Guaíba. Os caminhões começaram a assumir o posto de principal meio de escoamento da produção, e muitas empresas migraram para a Região Metropolitana. Para completar, os moradores também foram embora, sentenciando o declínio do "bairro-cidade" — como era conhecida a área onde se tinha moradia, trabalho e tudo o que era preciso para se viver.

— Além de se descaracterizar, ela está muito decadente. Em função dessa constante troca de uso, de usos que deixaram de existir e foram substituídos por usos mais marginais — diz a professora da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS Leila Mattar, que fez pesquisas de mestrado e doutorado no local.

— Hoje, é quase uma ruína — completa Sérgio da Costa Franco.

Maria dos Santos Pergher, 60 anos, conta que tem apenas outros dois moradores na sua quadra. Proprietária de uma ferragem na Voluntários da Pátria, diz que não tem medo — nem mesmo aos finais de semana, quando fica "deserta". O temor dela é relacionado à duplicação.

— Tudo o que eles vão fazer demora muito e, geralmente, o comércio da região acaba fechando por causa do bloqueio do movimento.


Projeto prevê revitalização do Quarto Distrito

Um projeto prevê a revitalização da área do Quarto Distrito, e, consequentemente, do trecho da Voluntários da Pátria. O Masterplan visa a dosar o uso do solo urbano para atrair investimentos privados em infraestrutura e de empreendimentos nas áreas de tecnologia, saúde, conhecimento e indústria criativa.

O projeto, elaborado pelo Núcleo de Tecnologias Urbanas da UFRGS a pedido da prefeitura na gestão passada, foi inspirado na área denominada Barcelona 22@, onde antigos galpões industriais abandonados da cidade espanhola foram substituídos por áreas verdes, centros culturais e prédios tecnológicos. Ada Raquel Doederlein Schwartz, coordenadora técnica da prefeitura no contrato do Masterplan, afirma que, neste momento, o Executivo estuda o trabalho desenvolvido pela UFRGS, avaliando como seria a implementação por parte de todos os órgãos do município e quais são os ajustes necessários para sua viabilidade. O próximo passo será discutir a proposta com o Conselho do Plano Diretor e com a sociedade, por meio de audiência pública, e encaminhar à Câmara Municipal.

— Passando a existir como lei, a prefeitura começa a se organizar para planejar a execução — diz.

Considerado um eixo viário importante no Quarto Distrito, a Voluntários da Pátria deve ser transformada com o projeto.

— A ideia é que o lado da rua em direção à Avenida da Legalidade e da Democracia tenha uma espécie de parque linear, um espaço parte edificado, parte em área verde. Ele vai funcionar em dois níveis: um nível na calçada da Voluntários e uma espécie de calçada elevada em direção à Legalidade. Assim, as pessoas poderão observar o Guaíba — conta Ada.

A expectativa é de que a implementação total do projeto leve 30 anos, mas coordenadora afirma que mudanças vão aparecer antes.