Tema complexo

Explicação rápida para suicídios é banalizar a depressão, dizem psicólogos

"Uniformização" de casos singulares arrisca glamourizar o sofrimento psíquico, alerta professora da PUCRS

12/08/2014 | 18h54
Explicação rápida para suicídios é banalizar a depressão, dizem psicólogos Stock.xchng/Divulgação
Entre os sintomas da depressão estão o desinteresse, a falta de projetos e de criatividade Foto: Stock.xchng / Divulgação

Fica fácil pôr ordem no caos depois do ato consumado: Robin Williams tirou a própria vida porque sofria, como o brasileiro Fausto Fanti, do mal dos comediantes aflitos, gente que ri e faz rir não por ser feliz, mas por extrair comédia do que na vida é trágico. O risco de dedicar um mesmo saco para depressões particulares é o de se pegar, por ato falho, falando em Robin Fanti e Fausto Williams, meros exemplares de uma categoria.

– O tema da dor psíquica e a sua manifestação extrema, o suicídio, é muito sério e complexo. Não pode ser pensado de forma uniforme, sob pena de o glamourizarmos. O suicídio é expressão de intensa dor psíquica, e a depressão deve ser olhada com muita cautela, porque fala da singularidade de cada pessoa no enfrentamento das dificuldades da vida – observa a psicanalista Mônica Macedo, professora da Faculdade de Psicologia da PUCRS.

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Tanto o ator que animou as fanfarras de Patch Adams quanto o gênio-fundador de Hermes & Renato fizeram fama com o humor e sofriam de depressão quando optaram pelo suicídio. Além daí, as semelhanças empacam, e dar sentido igual aos dois casos é tão tacanho quanto comparar a psicologia de Getúlio Vargas com a de Kurt Cobain. A confusão e o tabu em torno do suicídio favorecem a expectativa por um receituário:

– As pessoas se chocam e tentam interpretar rapidamente o suicídio porque ele desperta angústia. Vivemos em uma época em que todos devem estar felizes. Quando o suicídio aparece como fato público, é como se fôssemos confrontados com a tristeza, o sofrimento, a insatisfação – diz Monica.

Em coluna recente na Folha de S.Paulo, o psicanalista Contardo Caligaris defende a ideia de que a expressão corporal é causadora dos afetos, e não o contrário. Primeiro vem o riso, depois a alegria. Caligaris se apoia em uma pesquisa publicada em maio por dois médicos americanos que tratam a depressão enxertando botox nos pacientes. Incapazes de mexer os músculos do rosto triste, os depressivos não veriam outra saída senão a da alegria. Mas logo se vê que um semblante contente não era bem o que faltava a Robin Williams.

Entre os sintomas da depressão, alerta a professora Mônica, estão o desinteresse, a falta de projetos e de criatividade. E, como a tristeza é um sentimento condizente com diversas situações da vida, vetá-la pode ser um primeiro passo rumo à apatia.

– Sem poder expressar tristeza, a pessoa encontra formas de se anestesiar diante da dor, entre elas o consumo de drogas e de álcool. Mostrar-se feliz enquanto se sente infeliz é como viver duas vidas – afirma Mônica.

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Contra a banalização

Um estudo publicado no Journal of Phenomenological Psychology, em 2009, sugeria que a riqueza e a “imortalidade simbólica” da celebridade vêm ao preço do isolamento, da desconfiança em relação aos outros e da crise de identidade. Seriam os casos de Marilyn Monroe e Michael Jackson. Já a explicação de que os criativos roçam as raias da loucura vem justificando as depressões de Catherine Zeta-Jones e de Mel Gibson.

– Isso é misturar alhos com bugalhos. Debaixo desse ato final podem estar embutidas situações muito distintas. Generalizações de primeira hora buscam, no meu modo de ver, aplacar angústias pessoais, tranquilizar a pessoa que generaliza. Mesmo para nós, que estudamos o comportamento, é difícil lidar com uma situação tão extremada. É um fato penoso e complexo – ressalta o psiquiatra Miguel Jorge, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acrescentando que, no caso de Robin Williams, é preciso levar em conta o histórico de consumo de cocaína e álcool, bem como indícios de transtorno bipolar.

Observando que o suicídio é estudado não apenas por profissionais da saúde mental, como também por antropólogos e sociólogos, Miguel sustenta que “não generalizar é uma regra absolutamente preconizada, senão reduzimos a nossa capacidade de compreender o que acontece com cada grupo de pessoas”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) contabiliza 350 milhões de pessoas que sofrem de depressão em todo o mundo e afirma que 90% dos suicídios poderiam ser evitados com trabalho preventivo.

– É importante divulgar que as pessoas não precisam esperar chegar em uma situação extrema. Devem buscar ajuda toda vez que, sozinhas, não conseguirem dar rumo para conflitos que estão atrapalhando a sua vida. E isso passa por não banalizar a dor psíquica – completa Mônica.

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