Tempo de descobertas

Solteiro e homossexual, pai tira "licença-maternidade" após adotar criança no Rio Grande do Sul

Funcionário de livraria da Capital está desfrutando dos mesmos seis meses de afastamento do trabalho a que colegas mulheres têm direito

13/01/2016 - 17h25min | Atualizada em 14/01/2016 - 08h24min
Solteiro e homossexual, pai tira "licença-maternidade" após adotar criança no Rio Grande do Sul Carlos Macedo/Agencia RBS
Peterson e Lucas em casa, em Gravataí: guarda provisória do menino foi concedida ao vendedor em setembro Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Para se adaptar à mais importante etapa da vida, Peterson Rodrigues dos Santos está em licença-maternidade. Solteiro e homossexual, o vendedor de 34 anos vem desfrutando dos mesmos 180 dias de afastamento do trabalho concedidos às colegas de empresa. Lucas, o filho adotivo de nove anos, chegou em setembro, quando a guarda provisória da criança foi concedida ao morador de Gravataí, na Região Metropolitana. A história se disseminou a partir de uma postagem no Facebook destacando o sucesso da iniciativa do pai incomum.

– Quando conheci ele, foi o primeiro dia do resto da minha vida – lembra Peterson, funcionário da Livraria Cultura, no Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre.

O vendedor buscava um trabalho voluntário quando ficou sabendo, em 2013, do programa de apadrinhamento da organização não governamental Instituto Amigos de Lucas. O objetivo é proporcionar uma oportunidade de convívio familiar, em passeios, festas e viagens, a abrigados com remotas chances de adoção. Os chamados "inadotáveis" costumam ter idade mais avançada, deficiência física, problema neurológico ou histórico de violência. Antes de se apresentar, Peterson previa dificuldades. 

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– Eu achava que, em algum momento, iam me barrar por ser homossexual e solteiro. Os candidatos geralmente são pai e mãe, bonitinhos, de comercial de margarina, ricos – conta, rindo dos estereótipos. – Sou assalariado, estou sempre correndo atrás da máquina, trabalho domingo. Podia ser um preconceito meu, mas eu estava acostumado a fazer parte das minorias – completa. 

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Depois de oficinas preparatórias, Peterson compareceu, nervoso, à festa onde padrinhos e madrinhas conheceriam seus afilhados. Temia não agradar a ninguém. Um menino agitado e arredio que corria entre os visitantes se aproximou. Era Lucas, então com sete anos. Primeiro o guri entregou a Peterson um balão. Depois, pediu que o "tio" segurasse o casaco para ele. Na terceira abordagem da criança, o vendedor arriscou:

– Você já tem dindo?

Lucas respondeu sem hesitar:

– Já. É você.

Para cada encontro, Peterson levava três horas, em dois ônibus, no trajeto de casa até o abrigo, na zona sul da Capital. Com o tempo, a afeição se intensificou, e o vendedor apresentou o pedido de guarda. A livraria primeiro deu a licença-maternidade  –  o nome é esse mesmo, já que não se trata da licença-paternidade habitual, de poucos dias  –  de quatro meses, logo estendendo-a para seis, padrão estabelecido para as funcionárias. O que chama a atenção neste episódio é que a empresa concedeu o benefício – direito de qualquer adotante solteiro, homem ou mulher, não importando a orientação sexual  –  sem entraves.

– É nossa obrigação, não estamos fazendo nada que não seja o correto. Aprendemos junto com ele – diz Juliana Brandão, diretora de Recursos Humanos da livraria.

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Nos quatro meses desde a mudança definitiva do menino para Gravataí, pai e filho estão aprendendo a conviver. Lucas passou por avaliações médicas e foi matriculado em uma nova escola, mas terá de repetir o terceiro ano – ainda não está alfabetizado. Como assume todas as responsabilidades sozinho, Peterson afirma ser "o tira bom e o tira mau", dando carinho e fazendo cobranças. Teimoso, Lucas é também muito afável. Há caras feias e conflitos, apaziguados em minutos.

– Desculpa, tá? É que eu não tô acostumado a ter pai – justificou a criança após uma briga recente.

Rosi Prigol, presidente do Instituto Amigos de Lucas, vibra com o desfecho positivo. Casais gays interessados em adoção surgem com frequência, diz Rosi, mas o fato de Peterson ser solteiro torna o caso raro. Casais heterossexuais costumam dar início ao processo burocrático tendo em mente um perfil bem definido do filho desejado, não se mostrando dispostos a adoções tardias.

– Os homossexuais são muito mais abertos. Não têm preferência por idade, cor. Aceitam, encaram todas as dificuldades numa boa, aguentam qualquer tranco – comenta Rosi. – Essa adoção nunca vai dar errado, tenho certeza absoluta. Já deu certo. Pelo envolvimento afetivo, pelo entendimento, pela sinceridade que o Peterson tem com o filho ao tratar da homossexualidade.

À licença, Peterson acrescentará férias, ampliando o período intensivo de adaptação e descobertas para sete meses. Quando o pai voltar ao emprego, Lucas deverá ficar aos cuidados da avó. Antes mesmo de retomar a rotina, o vendedor faz planos:

– Acho que o Lucas não vai ser o único. Pretendo adotar outro.

 






 
 
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