Visita ampliada

Convívio com familiares reduz tempo de internação em UTI

Estudo desenvolvido por hospital de Porto Alegre foi reconhecido internacionalmente e está sendo reaplicado em 40 unidades do Brasil 

12/05/2017 - 12h18min | Atualizada em 12/05/2017 - 12h18min
Convívio com familiares reduz tempo de internação em UTI Bruno Alencastro/Agencia RBS
Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS  

Era 26 de junho de 2016 quando o fisioterapeuta Lívio Minoru Miyai, 43 anos, e a mulher Mônica Gottardi, 36, chegaram em casa de um jantar. Ele foi até a garagem da casa, no bairro Aberta dos Morros, em Porto Alegre, providenciar um conserto no carro, e voltou cambaleando com fortes dores na cabeça. Miyai foi surpreendido por um aneurisma cerebral.

Mônica o levou para o pronto-atendimento da Restinga, onde foi constatado o problema por meio de uma tomografia. O caso era grave. O fisioterapeuta foi sedado e encaminhado para internação na UTI do Hospital Moinhos de Vento, pois contava com plano de saúde. Lá, permaneceu sedado por quase 30 dias. As expectativas não eram boas. Miyai foi submetido a duas cirurgias. 

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Para alívio de Mônica, o hospital estava fazendo um estudo sobre o acompanhamento dos familiares em casos de internações graves e, em vez de ficar apenas quatro horas ao lado do marido, ela pôde acompanhá-lo por 12 horas, ainda que ele estivesse em coma induzido. 

O estudo Eficácia e Segurança de um Modelo de Visita Familiar Ampliada na UTI, que iniciou em 2015 e durou aproximadamente um ano e meio, avaliou cerca de 300 pacientes internados na UTI da instituição. O resultado mostrou redução de 50% na taxa de incidência de delirium (confusão mental associada a pior evolução dos pacientes internados em UTI) e diminuiu em um dia o tempo de internação.

O modelo de visita ampliada também trouxe segurança aos familiares que tiveram a oportunidade de estar perto do paciente e acompanhar a evolução no horário permitido (das 9h às 21h). Os profissionais de saúde orientam os familiares a descansarem durante a noite.

Acolhimento e segurança

Para participar da visita ampliada, Mônica recebeu orientações de um psicólogo e de técnicos de enfermagem. Aprendeu como deveria ser a conduta do acompanhante em um ambiente tão restrito quanto a UTI. Teve aulas sobre higienização, dividiu angústias com os profissionais e soube evitar repassar as frustações ao paciente. 

— Mesmo ele estando em coma, eu dava força e dizia: tu és forte, vais conseguir. Coloquei uma santinha na sala e enviei muita energia positiva a ele. Quando passava a mão no braço dele, sentia que ele arrepiava — conta a pedagoga. 

Na avaliação do médico coordenador do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital, Cassiano Teixeira, a visita ampliada dá segurança aos familiares e faz com que os pacientes que estão acordados sintam-se acolhidos. No caso dos pacientes em coma, o resultado foi medido por meio do delirium.  

— A visita é como um remédio que alguns pacientes têm de ter. Mais do que tudo, é preciso saber dosá-la, e os familiares devem passar por orientação para não prejudicar a recuperação — explica Teixeira.

A experiência do Hospital Moinhos de Vento está sendo replicada em 40 hospitais do Brasil por meio do Ministério da Saúde e do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é levar o benefício a pacientes do sistema público. Além disso, a pesquisa foi considerada o melhor trabalho científico entre 500 apresentados no 37º Simpósio de Cuidados Intensivos e Medicina de Emergência, que ocorreu em março deste ano na Bélgica.  

Após 13 dias internado, Miyai fez outra cirurgia delicada. Três dias depois do procedimento, o quadro dele finalmente começou a evoluir. No 22º dia de internação, abriu os olhos e encontrou a mulher e a mãe – que viajou do Japão para visitá-lo. O amigo Flávio Ditz, 32 anos, também ficou de acompanhante durante os 30 dias de internação.

Após deixar a UTI, Miyai ficou mais dois meses em um leito do hospital. Hoje, ainda faz fisioterapia para recuperar o equilíbrio e teve uma pequena sequela na visão direita. Embora não se lembre do período em que esteve em coma, agradeceu à esposa e ao amigo pela companhia em um momento tão difícil.

— Foi um conforto para mim também, pois tive a oportunidade de acompanhar de perto o tratamento — concluiu Mônica.


 
 
 
 
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